terça-feira, 15 de junho de 2010

Inversão da vocação histórica amazônica

Manuel Dutra (*)

No sábado passado, às 9 horas, estava assim o movimento ao longo do cais da Avenida Tapajós, em Santarém. As imagens falam por si, revelando o abandono de uma economia que caminha graças ao espírito de trabalho do povo amazônico.

No mesmo dia e hora, a imagem da estação rodoviária da mesma cidade. Ninguém, nem cachorro aparecia por lá. Investimento para nada, quando os recursos poderiam ter sido investidos numa ampla e moderna estação fluvial.

Dois momentos na vida de uma cidade ribeirinha da Amazônia, região que abriga a maior bacia hidrográfica do planeta, com estradas naturais que foram largamente utilizadas nos processos de ocupação humana.

Mesmo assim, os chamados planos de desenvolvimento regional viraram as costas para os rios, preferindo a “integração” pelas rodovias. O resultado todos sabemos: estradas imprestáveis, estrangulando a economia e quase inviabilizando a agricultura familiar.

Vi, ao longo da BR-163 e na Transamazônica famílias de agricultores desesperados pela impossibilidade de retirar seus gêneros para as cidades porque o caminhão quase desaparecia na terra frouxa, ao mesmo tempo em que os títulos bancários venciam as datas de pagamento.

Basicamente a produção de alimentos na Amazônia se realiza em municípios ribeirinhos e a economia se transporta maciçamente pelos rios. Essa realidade não cabe nos olhos das “autoridades”, inclusive para um tal de “secretário municipal dos portos”, entidade criada pela prefeita Maria do Carmo (PT), de Santarém.

Passageiros e cargas embarcam e desembarcam da maneira mais rudimentar, sem um terminal fluvial ainda que modesto. Quando os rios secam, a movimentação é mesmo dentro da lama que margeia as bordas dos rios onde as embarcações encostam.

Mas a cidade de Santarém, por exemplo, tem um terminal rodoviário relativamente grande, pelo qual não passa mais que meia dúzia de ônibus por dia. Os donos de ônibus intermunicipais preferem estacionar nas ruas próximas ao centro, repetindo nas ruas a situação dos barcos na beirada dos rios.

Completa inversão da vocação histórica dos transportes por via fluvial. Na cabeça dos sucessivos governos a Amazônia tem que ser “modernizada” pelo caminhão, para alegria da indústria automobilística. Uma alegria que vem desde a construção da Belém-Brasília. Festa da indústria de caminhões e ônibus que começou bem antes, entre 1926 e 1930, quando Washington Luís Pereira de Souza, nascido em Macaé/RJ, assumiu a presidência do Brasil sob o lema “Governar é construir estradas”.

Ora, se as estradas são boas e necessárias para o Brasil, e, sendo a Amazônia Brasil, que se desperdice o potencial natural de transporte por veredas lamacentas ou empoeiradas, para gáudio dos fabricantes de carro.

(*) Jornalista, Professor e morador em Belém

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