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terça-feira, 21 de abril de 2015

Em ano de ajuste, Congresso abusa ao triplicar fundo partidário

Kennedy Alencar (*) 

A presidente Dilma Rousseff não teve força para vetar um abuso do Congresso Nacional, que triplicou o valor destinado ao Fundo Partidário em 2015. Ao sancionar ontem o Orçamento Geral da União deste ano, Dilma não suprimiu o aumento de R$ 289,5 milhões para R$ 867,5 milhões. 

É uma contradição o governo propor um ajuste fiscal, que, em resumo, significa gastar menos e aumentar a arrecadação por aumento de impostos, e aceitar a triplicação da verba destinada aos partidos políticos. No entanto, essa conta deve ser cobrada do Congresso e das legendas da base do governo e da oposição. 

Não é correto cobrar a presidente. Ela não tinha alternativa nesse ponto. Ela não poderia vetar, recuperando o valor original que propôs ao Congresso. Obrigatoriamente, teria de suprimir todo o ponto, o que zeraria o fundo partidário neste ano. Para suavizar, ela poderia marcar posição, vetar o aumento e editar uma medida provisória recuperando o valor de R$ 289,5 milhões. 

Mas provavelmente o seu veto seria derrubado ou o valor seria triplicado na discussão da medida provisória. A presidente está sem força política para enfrentar o Congresso fraqueza que resultou de seus erros. 

O Orçamento Geral da União de 2015 foi aprovado em votação simbólica, resultado de um acordo entre os partidos da base do governo e da oposição a partir de uma emenda do senador e relator Romero Jucá (PMDB-RR). A cobrança, portanto, tem de ser feita aos partidos, porque é um reajuste desproporcional. 

O fundo partidário cumpre um papel importante, mas uma despesa não pode ser triplicada pelo Congresso de uma hora para outra. É um abuso de mais de meio bilhão de reais. 

Essa decisão já foi um efeito da Operação Lava Jato. Todos os partidos disseram que encontraram mais dificuldade para arrecadar nas eleições do ano passado do que em campanhas anteriores. Houve uma concentração ainda maior de doadores privados. 

Existe um debate no Congresso sobre o financiamento eleitoral, que, como está hoje, é uma das raízes da corrupção. O PMDB e a oposição são contra a proposta defendida pelo PT de acabar com o financiamento privado e manter só o público.

O ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes fez um pedido de vista que já dura mais um ano e impede o término do julgamento que proíbe doações eleitorais. Mendes argumenta que é assunto do Congresso, mas está segurando sozinho uma decisão já tomada pelo Supremo, o que cria uma disfunção na Justiça.

É muito poder na mão de um ministro só. Existe uma regra no Supremo que diz que, após o pedido de vista, o ministro tem de devolver o tema até a segunda sessão ordinária subsequente. Na prática, nenhum ministro faz isso. E há outros pedidos de vista que já demoram tanto ou mais do que o de Gilmar Mendes. O STF precisa mudar essa regra e criar uma que seja cumprida. 

De volta ao assunto do financiamento, o ideal seria manter a contribuição privada, mas com um teto baixo tanto para empresas como para pessoas físicas. Há defensores que apresentam bons argumentos para o fim das doações empresariais. As descobertas da Lava Jato podem levar a essa proibição. 

Tem de ser estabelecida alguma restrição ao financiamento privado para os partidos e para os candidatos nas eleições. Se Gilmar Mendes devolvesse o processo para o término do julgamento, talvez o Congresso se mexesse mais rapidamente para discutir uma regra de financiamento eleitoral. Deixar como está hoje provou que não dá certo. 

(*) É jornalista dedicado principalmente aos assuntos de política e economia

segunda-feira, 9 de março de 2015

Para Lula, Dilma deveria avaliar reforma ministerial já

Kennedy Alencar (*) 

Em conversas reservadas, o ex-presidente Lula tem dito que a presidente Dilma Rousseff deveria avaliar a possibilidade de fazer uma reforma ministerial. Para ele, o atual ministério, que tem apenas dois meses e alguns dias, envelheceu precocemente. 

Uma reforma ministerial seria feita para recompor pontes com o PMDB, dando ao vice-presidente Michel Temer maior espaço no governo e até uma eventual pasta, como aconteceu com o vice José Alencar, que foi ministro da Defesa no governo Lula. 
Há possibilidade de Lula e Dilma se encontrarem amanhã em São Paulo. 

O Planalto insistiu na ideia de que a lista de Janot dividiria a crise com o Congresso e que isso seria bom para Dilma. A crise se estendeu ao Congresso, mas piorou politicamente a situação da presidente. Ou ela recompõe de verdade a sua relação com o PMDB ou vai enfrentar uma série de derrotas no Congresso que agravarão a crise. 

O governo errou ao achar que poderia empurrar a crise para o Congresso. Isso irritou os presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), porque foi uma demonstração de inabilidade política da presidente Dilma e de seus ministros. 

No entanto, Renan e Cunha tiveram uma reação mais política do que jurídica ao apontar suposta perseguição política do Ministério Público e uma ação do governo para colocá-los na lista. Renan e Cunha precisam dar explicações para as acusações. Ameaçar retaliar o governo no Congresso, a partir da posição de comando que eles possuem, seria um abuso político de suas atribuições. É preciso serenidade na condução da Câmara e do Senado. * 

Panelaço surpreendeu Planalto 
No pronunciamento de ontem à noite, a presidente Dilma Rousseff fez uma defesa correta da necessidade de ajuste fiscal. Falou em sacrifício temporário, pediu paciência e alfinetou a imprensa. Disse que a crise não era tão grave como retratada e voltou a atribuir ao cenário externo a responsabilidade pelas dificuldades internas. 

Um presidente deve transmitir otimismo, mas isso é diferente de dourar a pílula e de não reconhecer os próprios erros. O ajuste é importante sim, mas para corrigir equívocos que a presidente cometeu no primeiro mandato. Uma análise mais sincera talvez fosse mais efetiva. 

Não há problema em criticar a imprensa. Mas é importante lembrar que a imprensa não inventou a Operação Lava Jato nem foi responsável pela estratégia equivocada de isolar o PMDB no governo. O governo deveria fazer uma autocrítica e se preparar melhor. 
Os serviços de inteligência não mapearam as convocações para o panelaço e o buzinaço de ontem. O Palácio do Planalto foi surpreendido. 

As reações ao pronunciamento, com panelaço e buzinaço, sobretudo nas áreas nobres de algumas capitais, devem servir de alerta para o governo. Há uma piora no clima político em prejuízo de Dilma e do PT. Alguns xingamentos foram vergonhosos, ainda mais feitos no Dia Internacional da Mulher. 

Uma parcela algo fascista da sociedade tem saído do armário com desenvoltura e agressividade. Existe um setor que não aceita o resultado das urnas e, como disse o economista Luiz Carlos Bresser Pereira, tem ódio ao PT pelas medidas boas que o partido adotou em defesa dos mais pobres. 

Há setores dos protestos que têm desrespeito ao resultado eleitoral e desejam a saída da presidente Dilma do poder sem apego às regras institucionais e democráticas. 
No entanto, existem outros setores que protestam legitimamente contra a corrupção e contra o governo, dentro de limites civilizados e democráticos. 
Panelaço e buzinaço fazem parte da democracia. 

Há uma parcela que votou em Dilma que está desapontada. 
Será um erro o governo achar, como fez na época da Copa do Mundo, que se trata de um protesto de uma minoria de maior renda e maior escolaridade anti-PT. 
A campanha eleitoral tão dividida mostrou que o PT perdeu base social, sobretudo na classe C. O Datafolha já mostrou queda da popularidade da presidente e do governo. 

Nesta semana, haverá, na prática, dois protestos contra o governo. 
No dia 13, centrais sindicais e movimentos populares vão criticar medidas do ajuste. 
No dia 15, haverá um protesto contra o governo e a corrupção. Apesar da presença de neofascistas, mal-educados e golpistas, o panelaço e o buzinaço de domingo em cidades do país sinalizaram que os protestos do próximo domingo poderão ter uma força maior do que a imaginada pelo governo.

(*) É jornalista dedicado principalmente aos assuntos de política e economia

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

PT e PSDB temem virtual candidatura de Marina

Kennedy Alencar (*) 

O comentário no “Jornal da CBN” analisou os efeitos da possível candidatura de Marina Silva à Presidência da República pelo PSB. 

As campanhas do PT e do PSDB temem esta possibilidade. Marina é uma liderança política que aparecia com uma boa taxa de intenção de voto no final de 2013 e início de 2014. 
Na avaliação de ambos os partidos, cresce a chance de haver segundo turno nas eleições. 

Os petistas consideram que a presidente Dilma Rousseff teria mais dificuldades para vencer Marina do que Aécio Neves numa segunda etapa. 
Para o PSDB, a entrada de Marina na disputa tira Aécio da posição confortável de principal nome da oposição. A ex-senadora pode obter votos anti-governo do tucano.

Pode também ser uma opção para parte dos que pretendiam votar em branco ou nulo. Portanto, há uma possibilidade clara de a eventual candidatura de Marina levar a eleição para o segundo turno e tirar o PSDB dessa fase. 

A ex-senadora está recolhida e orientou políticos próximos e assessores a não falar sobre o assunto antes do enterro de Eduardo Campos e das outras vítimas do acidente aéreo. 
Os dirigentes do PSB que têm divergências com Marina criam dificuldades e tentam estabelecer limites políticos para ela. 

Mas a própria família de Campos tomou a iniciativa de deixar claro que apoia Marina como candidata. Marina tem a energia para levar adiante o projeto de Campos de ser uma alternativa à polarização entre PT e PSDB. 

De acordo com políticos próximos, dificilmente ela vai recusar essa missão. 
O PSB não tem força para barrá-la. 
Marina Silva só não será candidata se não quiser. 

(*) Jornalista dedicado principalmente aos assuntos de política e economia

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O julgamento do mensalão

Kennedy Alencar (*)

A cúpula petista, réus no processo do mensalão e integrantes do governo avaliam que seria favorável ao PT adiar para 2013 o julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal).

Nas contas do PT, hoje o Supremo decidiria pela condenação dos principais réus petistas com um placar de, no mínimo, 6 a 5. O partido contabiliza como votos certos pela condenação os seguintes ministros: Joaquim Barbosa, Carlos Ayres Britto, Cesar Peluso, Gilmar Mendes, Marco Aurélio Mello e Celso de Mello.

A esperança dos réus no processo é que o adiamento para 2013 propicie uma configuração do Supremo mais favorável aos réus. Dois ministros vão se aposentar até o final do ano: Peluso e Ayres Britto. Há expectativa no PT de que a presidente Dilma Rousseff nomeie sucessores que possam absolver réus.

Diante dos sinais crescentes de que o julgamento pode acontecer ainda neste ano, o PT tem outra expectativa: se começar o julgamento, espera que o ministro José Antonio Dias Toffoli peça vista e adie o assunto para 2013.

Nos bastidores do PT, diz-se que Toffoli já apanhou o suficiente da imprensa. Portanto, não teria preocupação em votar para ficar bem na foto com a opinião pública. Jovem, 44 anos, tem muita estrada no Supremo. Pela regra atual, a aposentadoria compulsória se dá aos 70 anos.

Clima desfavorável
O PT ainda acredita que obterá informações nessa CPI que poderão amenizar e até favorecer alguns réus no processo do mensalão. Mas a mistura do ano eleitoral com a guerra contra o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, traria reflexos negativos para o partido no Supremo.

Praça dos Três Poderes
Cresce em Brasília a versão de que Roberto Gurgel decidiu engavetar a Operação Vegas por ter encontrado ligações entre o senador Demóstenes Torres, então no Democratas de Goiás, e autoridades graúdas do Judiciário em Brasília.

Convém lembrar que, em 2009, Demóstenes era retratado como um mosqueteiro da ética e um opositor com acesso a muitos gabinetes e telefones importantes da capital federal. O procurador teria avaliado que se tratava de um vespeiro muito grande para ser tocado.

Como não pode alegar isso publicamente, ele e a subprocuradora da República Cláudia Sampaio teriam apresentado versões frágeis. Gurgel disse que preferiu aguardar novas provas da Operação Monte Carlo. Sampaio, mulher de Gurgel, disse que atendeu a um pedido do delegado Raul Alexandre para arquivar a investigação, o que Polícia Federal nega.

Em tempo: esta versão é apresentada como favorável a Gurgel e Sampaio.

TNT
Integrantes da CPI do Cachoeira acreditam que ainda está para chegar da Polícia Federal mais material explosivo.

Kodak
Alguns integrantes da CPI receberam a informação de que, na farra dos guardanapos em Paris, havia, pelo menos, mais um empreiteiro a acompanhar os embalos de Fernando Cavendish e do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB).

(*) Jornalista é colunista da Folha de São Paulo

domingo, 8 de abril de 2012

FHC e Lula, uni-vos

Kennedy Alencar (*) 

O Brasil inteiro conhece as divergências entre os ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Também acompanha o duelo que o PSDB e o PT travam pelo poder central desde 1994. Os dois ex-presidentes e seus partidos dominam a cena política das últimas duas décadas. 

Pessoas respeitáveis criticam a polarização PT-PSDB. Veem uma imposição ao debate público de uma contenda mais paulista do que brasileira. Acreditam que essa disputa causa ao país mais perdas do que ganhos. É importante discordar desse ponto de vista.

Essa polarização garantiu a eleição para a Presidência dos melhores quadros da atual geração de políticos. Os benefícios parecem superiores aos eventuais malefícios, como, supostamente, asfixiar o surgimento de novos líderes. 

Aliás, quais novos líderes? Para defender o quê? O conservadorismo de alguns e de algumas chega a dar medo. 
De volta aos dois ex-presidentes, FHC e Lula são responsáveis por reformas estruturais que, combinadas, resultaram no período de maior prosperidade de nossa história: mais abertura econômica, inflação baixa, renda em alta, quase pleno emprego, políticas sociais eficientes e inclusão de milhões de pessoas num mercado consumidor antes acessível a uma elite. 

É fato que o Brasil mudou para melhor, apesar do longo percurso que falta até melhorar mesmo a saúde, a educação e a segurança pública.

Os eleitores entendem isso. Não são ingênuos manipuláveis por marqueteiros, políticos e jornalistas. Sabem o que desejam. Deram duas vitórias presidenciais a FHC em primeiro turno porque acreditaram que o programa apresentado pelo tucano era o mais adequado ao Brasil. Alçaram Lula à Presidência após duas tentativas frustradas porque queriam mais. 

Reelegeram o petista e ainda atenderam ao seu pedido para fazer a sucessora, Dilma Rousseff. 
O PSDB foi trocado pelo PT porque os eleitores enxergaram nas propostas petistas o caminho mais rápido para dar cidadania a milhões de pessoas. A moderação política e econômica do PT até hoje não foi bem entendida pelo PSDB. Dominado por cores lacerdistas, o discurso dos candidatos tucanos nas três últimas eleições presidenciais refletiu essa incapacidade de compreensão. 

O PT não aceita que o PSDB lhe dirija a mesma cobrança moralista que o petismo exigia de todos os outros partidos no passado. O pragmatismo excessivo de setores petistas levou o partido a abusar de práticas que antes condenava. 

Criou-se, assim, um estado de guerra quase permanente entre tucanos e petistas. Há pequenas tréguas, como a bonita e educadora fotografia que Lula e FHC tiraram quando o tucano visitou o petista no hospital.

2012 é ano de eleição. O saudável embate será inevitável. Mas Lula e FHC, os verdadeiros líderes de seus partidos, poderiam tentar estabelecer uma convivência mais civilizada, que tirasse do debate público propostas que seriam mais bem defendidas pela TFP e pela antiga Arena. Os dois deveriam congelar suas divergências. Deveriam se unir em torno de suas convergências para acelerar reformas necessárias ao país. 

O caso Demóstenes Torres, senador por Goiás que se desfiliou do Democratas, é um exemplo perfeito da fragilidade dessa hipócrita agenda udenoide. Seria excelente se FHC e Lula se aliassem para ajudar o Brasil a ter uma política mais de causas do que de casos. 

(*) Jornalista é colunista da Folha de São Paulo

sexta-feira, 23 de março de 2012

Atenção ao Brasil real

Kennedy Alencar (*)

A bebida na Copa e a rebelião congressual em Brasília são assuntos relevantes, mas há coisa mais importante acontecendo neste momento no país. Uma delas é o aumento da intolerância em relação à diferença. Entre as causas, aparecem com frequência radicalismos morais e religiosos que prosperam em meio a frustrações pessoais.

A prisão em Curitiba de dois homens acusados de estimular a violência contra negros, judeus, homossexuais, mulheres e nordestinos é sinal de que algum freio começa a ser dado. O apoio da sociedade ao AfroReggae, ONG com respeitável trabalho social e cultural, é evidência de que o Brasil vem melhorando e se civilizando, apesar do longo percurso adiante.

Marcello Valle Silveira Mello e Emerson Eduardo Rodrigues não são jovens preconceituosos. Têm, respectivamente, 29 e 32 anos de idade. São homens feitos que ameaçam a convivência democrática. Eles são os responsáveis por um site que estimula a violência contra minorias.

Marcos Pereira, pastor carioca de 55 anos, está sendo desmascarado por uma investigação policial e reportagens diversas. O pastor Marcos ganhou fama como negociador de conflitos em presídios e benfeitor social, mas surgiu uma face antes oculta, capaz de ameaçar de morte o ativista José Jr., fundador do AfroReggae.

Contra a dupla de Curitiba, há farto material na internet para responsabilizá-los penalmente. Foi descoberto até plano para invadir uma festa da UnB e matar estudantes de ciência política. Há notícia de desejo de atacar o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), que tem sido um parlamentar atuante. Isso tudo mostra o quanto de falso existe na propalada cordialidade social do Brasil.

Na eleição presidencial de 2010, uma agenda regressiva dominou parte da campanha. Foi estimulada pelo PSDB e aceita pelo PT. Como partidos que dominam a contenda presidencial desde 1994, PT e PSDB deveriam estipular limites para sua disputa algo fratricida. O Brasil ganharia com uma maior responsabilidade dessas legendas, que poderiam evitar o jogo baixo na hora em que brigam por votos.

A respeito do pastor Marcos Pereira, é bom que se ressalte que os religiosos em geral não devem ser demonizados como agentes de volta ao passado. É legítima a defesa de seus interesses, como a oposição à eventual ampliação do direito ao aborto. Mas a exploração da boa fé dos pobres não pode ser aceita por um estado laico.

O pastor Marcos é acusado de tortura de crianças, de relações com criminosos, de encenações de cura pela fé e até de estupro. Ele nega. Tem todo o direito de se defender. Mas é respeitável o material recolhido pela polícia depois que José Jr. veio a público denunciar um plano para matá-lo.

O AfroReggae é mais do que um grupo cultural ou uma ONG com trabalho social nas favelas cariocas. Exemplifica o avanço civilizatório do Brasil. É o retrato de uma sociedade capaz de se mobilizar na própria defesa, sem depender apenas de políticas públicas que muitas vezes têm as suas limitações.

O Palácio do Planalto e o Congresso Nacional fariam um bem danado se prestassem mais atenção ao que anda acontecendo em Curitiba e no Rio de Janeiro. As autoridades policiais do Rio e de Brasília têm a obrigação de proteger José Jr., para que não revivamos episódios como os de Dorothy Stang. Há muita gente boa que luta por causas boas. Merecem o nosso apoio, como o AfroReggae merece.

A presidente Dilma Rousseff deve, sim, tratar com preocupação da crise congressual. Deputados e senadores devem, sim, levar seus pleitos ao Palácio do Planalto. Mas todos eles também devem se aproximar um pouco mais do Brasil real.

(*) Jornalista e colunista da Folha de São Paulo

domingo, 4 de março de 2012

As prioridades de Dilma na economia

Kennedy Alencar (*)

Além da preocupação com a valorização do real, o radar econômico da presidente Dilma Rousseff está atento aos investimentos da Petrobras no pré-sal e às sucessões de poder nos Estados Unidos e na China.

Priorizar os investimentos domésticos, pisando no freio de planos de expansão externa, é a principal missão que Dilma deu à nova presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster. A tarefa ajuda a explicar sua nomeação.

A maior estatal brasileira responde por aproximadamente 60% dos investimentos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Garantir a aplicação desses recursos pode ajudar o país a atravessar um período de crise econômica mundial que começou em 2008 e que dá sinais de que ainda pode durar pelo menos um mandato presidencial.

Nesse sentido, a Petrobras cumpriria uma missão importante para manter aquecida a economia brasileira. Dilma gostaria de chegar ao final do seu mandato com uma extração significativa de petróleo da camada do pré-sal e com uma infraestrutura preparada para dar conta do recado pelos próximos 20 anos.

Os investimentos em infraestrutura que estão ligados à realização da Copa do Mundo e às Olimpíadas de 2016 são, digamos assim, a cereja do bolo do pacote de obras que Dilma gostaria de tirar de verdade do papel.

De resto, outras obras federais terão de conviver com a tesoura para manter um rigor fiscal que permita a continuidade da redução da dívida pública em relação ao PIB (Produto Interno Bruto).

EUA e China
No PT, uma ala ligada ao ex-ministro José Dirceu costuma dizer que, do ponto de vista pragmático, é sempre melhor para o Brasil um presidente republicano do que uma democrata. Dilma não pensa assim. E tem esperança de que um Barack Obama reeleito possa reencontrar o candidato de 2008. Seria melhor para o planeta.

Da Ásia, as informações que chegam ao governo dão conta de uma sucessão que manterá a linha de Hu Jintao. A mudança deverá acontecer em outubro. Para o Brasil, é sinal de que precisa de uma estratégia pendular. Ou seja, continuarmos com a reaproximação com os EUA, movimento que teve início no ano passado, e hora de nos afastarmos um pouco da China, que tem se beneficiado com mais qualidade comercial das nossas relações bilaterais.

Banco Central
Juros mais baixos continuam a ser um preocupação da presidente, mas são uma questão que ela julga em processo de solução. O atual Banco Central, sob o comando de Alexandre Tombini, mais do que captou a mensagem de que deve levar em conta o crescimento da economia na hora de fixar a taxa básica de juros, a Selic.

(*) Jornalista é colunista da Folha de São Paulo 

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Dilma enfrenta o Congresso

Kennedy Alencar (*)

No início de seu governo, Luiz Inácio Lula da Silva era acusado de ser avesso aos políticos. Do Congresso, choviam queixas de desatenção. Lula assumiu o governo vetando um acordo com o PMDB. Esse arranjo político foi uma das causas do mensalão.

Agora, na gestão Dilma Rousseff, há reclamações parecidas. A Folha revelou na quinta (23/02) que a presidente fez apenas 11 reuniões partidárias em 14 meses de governo. No mesmo período, Lula havia realizado 27. Pessoas importantes do governo começam a achar arriscado a forma como Dilma lida com os politicos. Temem que esteja em gestação uma grande crise.

Será? Há controvérsias.

Quando Lula venceu em 2002, havia o fantasma do fracasso a rondá-lo. Ele conseguiria governar o Brasil? A política econômica do PT destruiria o Plano Real? O novo presidente faria alianças suficientes para aprovar reformas constitucionais no Congresso?

Lula viveu uma grande crise, aprendeu com ela, elegeu a sucessora e saiu do governo com aprovação recorde. A foto histórica é de um grande presidente.
Dilma não é Lula, mas tem algumas vantagens: menos amarras e menos compromissos. Ela tem compromisso com todos os brasileiros, não apenas com aqueles que a elegeram. 

Também deve satisfação à própria biografia. No entanto, Dilma só tem compromisso político de verdade com uma pessoa: Lula.
Nesse sentido, Dilma é mais livre para lidar com os politicos. Com menos amarras na política e na economia, não precisou abraçar uma agenda congressual que demandasse tantos favores e verbas aos aliados. Sua personalidade ajuda a acentuar a distância entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional.

É fato que hoje existe um ambiente de tocaia no Legislativo. Passado o Carnaval, começam de fato os trabalhos na Câmara e no Senado. O governo mapeou os inimigos que dormem ao lado.
O PR está para lá de insatisfeito porque Dilma resiste a nomear um deputado para o Ministério dos Transportes. O PDT anda meio chateado, mas é o próprio partido que não chega a um consenso para indicar o novo ministro do Trabalho.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Dilma e as mulheres

Kennedy Alencar (*)

Um eventual segundo mandato da presidente Dilma Rousseff terá a chance de reabrir em termos mais sensatos o debate sobre a ampliação do direito ao aborto no Brasil. Se a presidente chegar a 2014 com um cacife perto do que Lula tinha em 2010, há pessoas no governo que acreditam na possibilidade de desinterdição desse debate.

Na última disputa eleitoral, a petista Dilma Rousseff dependeu bastante dos votos conservadores para derrotar o tucano José Serra. Ainda havia Marina da Silva, então no PV, com um discurso adorado por uma fatia conservadora e religiosa do eleitorado. Não havia outra saída para vencer. Mas isso poderá mudar.

Se a economia se mantiver no caminho do crescimento, ainda que num patamar mais próximo de 3% do que 4% ao ano, haverá condição política para brigas que, pessoalmente, ninguém dúvida que a presidente gostaria de comprar.

Desemprego em baixa, salários em alta, juros menores e algum fôlego para investimentos públicos em infraestrutura dariam a Dilma um escudo político para enfrentar amarras do conservadorismo partidário que sustenta seu governo no Congresso.

Hoje, o governo alega que a discussão do aborto é problema da sociedade, na qual todos os segmentos devem ter direito de expressar suas opiniões, e do Congresso, onde tramitam propostas de ampliação da possibilidade de interrupção da gravidez. Esse argumento é pura enrolação. Desde o governo Lula, o Palácio do Planalto encontrou uma forma de comprar tempo e jogar o problema para o outro lado da praça dos Três Poderes.

Compreende-se que não seja a hora de Dilma travar essa batalha devido à absoluta falta de condições objetivas para uma vitória. Mas se espera que, em algum momento de sua Presidência, a primeira mulher a comandar o Brasil faça algo nesse sentido.

A nomeação de Eleonora Menicucci para a Secretaria Especial das Mulheres é um avanço tático, apesar de ela estar sob fogo cerrado neste momento e, portanto, tomar um cuidado inteligente com as palavras. Sua indicação foi um bom sinal para os defensores de políticas públicas voltadas para mulheres e LGBTs.

Temos um Estado laico. É dever desse Estado tratar a ampliação do direito ao aborto como uma questão de saúde pública porque ela envolve um interesse difuso da sociedade.

Os dados estão aí, como registrou Fernando Rodrigues numa excelente coluna na Folha no sábado de Carnaval (18/02). O chamado aborto de risco, aquele feito em condições inadequadas que ameaça tirar a vida da mulher, é a quarta maior causa de mortes maternas no país e a quinta razão para internações no SUS (Sistema Único de Saúde).

É correto que todas as religiões possam se manifestar livremente para persuadir mulheres a não abortar. Se houver uma mudança na legislação que amplie o direito à interrupção da gravidez, será preciso que a mulher ainda adote uma decisão individual, dolorosa, moral e, para muitos, religiosa. Tomada essa decisão, o SUS deve ampará-la.

Também é correto que todas as religiões se mobilizem para tentar evitar que o Congresso altere a lei. Faz parte do jogo democrático. Mas os verdadeiros líderes políticos devem tomar decisões impopulares e pouco compreendidas no seu tempo. Em 2010, Dilma se rendeu a um debate hipócrita, surpreendentemente estimulado por políticos supostamente iluministas. Tomara que surja a oportunidade de uma discussão em termos mais racionais. A presidente deve isso ao país e à sua própria biografia.

(*) Jornalista ,  escreve para Folha de São Paulo

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

CNJ merece estátua

Kennedy Alencar para a Folha de São Paulo

As entidades de classe da magistratura deveriam erguer uma estátua em homenagem ao CNJ (Conselho Nacional de Justiça). A varredura financeira da vida de 216.800 juízes, servidores e parentes encontrou 3.438 movimentações suspeitas --apenas 1,6% do universo investigado.

Ora, é um dado que deveria ser comemorado. Na prática, a medida resultou num atestado de boa conduta, digamos assim, de 98,4% dos CPFs que passaram pelo escrutínio do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), órgão subordinado ao Ministério da Fazenda.

Mas pensam diferente a AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros), a Anamatra (Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho) e a Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Brasil). Essas entidades enxergaram a varredura como uma afronta à lei.

Esquisito.

A demonização dos juízes deve ser evitada. Os dados recomendam isso. Afinal, o levantamento do CNJ mapeou suspeitas a respeito de uma minoria. A corregedora do CNJ, Eliana Calmon, disse que boa parte dessas suspeitas poderá ser esclarecida com o exame detalhado caso a caso. Portanto, esse 1,6% tende a ficar menor.

Por que tanto barulho?

Porque o CNJ resolveu investigar peixes graúdos. Decidiu comprar briga com as cúpulas dos tribunais estaduais e com o presidente do STF, Cesar Peluso, que tem agido com um corporativismo que incomoda colegas seus do Supremo Tribunal Federal.

As entidades de classe da magistratura e o ministro Peluso não querem dar satisfações à opinião pública. Não enxergaram que o Brasil mudou. Não aceitam que a sociedade faça uma distinção entre o que é legal e o que é moralmente correto. Apelam ao formalismo jurídico, esquecendo-se de que o direito não é imutável. Por isso, não querem jogar luz sobre pagamentos milionários de auxílio-moradia dos anos 90.

Peluso e o ministro do STF Ricardo Lewandovski receberam esse benefício. Integrantes do Tribunal de Justiça de São Paulo e do STJ (Superior Tribunal de Justiça) também se encontram na mesma situação.

Nada mais justo, para usar a palavra precisa no caso, do que fornecer à sociedade uma explicação dos valores e dos motivos dos pagamentos.

O que a AMB, a Anamatra, a Ajufe e alguns ministros de tribunais superiores querem é usar um escudo legalista para deixar na sombra assuntos que merecem uma explicação política. Parece que vão perder essa batalha.

JOGO DE EXPECTATIVA
No pronunciamento oficial de hoje (23/12), a presidente Dilma Rousseff dirá que 2012 será melhor do que 2011. Dilma pretende estimular expectativas positivas para a economia. Tentará animar o auditório, como fez o então presidente Lula na crise de 2008-2009.

O governo sabe que a China poderá comprar menos do Brasil em 2012, o que trará algum impacto negativo sobre o nosso crescimento. Mas aposta que o mercado interno mais uma vez vai segurar a onda e surpreender.

(*) Jornalista

sábado, 13 de agosto de 2011

A ficha caiu

Kennedy Alencar (*)

Avaliações realistas a respeito da perspectiva de recessão americana e da crônica crise fiscal europeia levaram a presidente Dilma Rousseff a ajustar suas estratégias política e econômica. "A ficha caiu", diz um integrante da cúpula do governo.

Leia-se: a gestão Dilma passou a contar com um cenário mais adverso na economia e no Congresso. Portanto, precisa rever suas diretrizes.

Na política, há uma tentativa de melhorar a tensa relação com os aliados. Não foram apenas demissões num estilo mais duro que pesaram na piora desse relacionamento. Também contribuíram um certo distanciamento da presidente da classe política e um arrocho verdadeiro na liberação de emendas parlamentares.

Dilma faz bem ao tratar com maior firmeza suspeitas e suspeitos de corrupção. Mas pretende evitar o clima de execução sumária que a faxina no Ministério dos Transportes andou estimulando. É uma operação de ajuste fino combinar rigor ético com a realidade de manter maioria no Congresso para governar.

Segundo um auxiliar, Dilma demonstra disposição de se aproximar dos políticos, mas não deixará de ser mais inflexível do que gostariam seus aliados quando o tema for corrupção.
A queda na pesquisa CNI-Ibope ajudou a ficha a cair. Para um ministro com trânsito no Palácio do Planalto, houve certa ilusão de que a imagem de paladina da justiça renderia somente bons frutos. O noticiário recheado de tantas acusações de corrupção tem reflexo negativo sobre a avaliação do governo.

Na opinião de Dilma, ela enfrenta um problema mais grave: uma nova maré mundial de dificuldades econômicas. Há gente no governo dizendo que o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) neste ano será uma vitória se ficar entre 3% e 3,5% --distante do discurso oficial de 4% a 4,5%.

Aumentou a possibilidade de o Banco Central começar a reduzir os juros ainda em 2011. O dragão da inflação assusta menos. O fantasma do câmbio arranca os poucos cabelos da equipe econômica, mas é um problema que Dilma e ministros julgam ser difícil combater apenas com canetadas para proteger setores da economia doméstica.

O maior temor passou a ser uma queda significativa do crescimento do PIB, o que resultaria em menos empregos e menos renda.
Ter evocado a receita da crise de 2008-2009 parece uma boa saída. O herói daqueles dias foi o consumo das famílias, turbinado pelo fortalecimento do mercado interno de 2003 para cá.

A maioria dos economistas diz que o Brasil deverá sofrer menos agora do que sofreu no final do governo Lula. Mas isso dependerá de uma pilotagem tão eficiente quanto a de dois anos atrás. É um belo teste para a gerente.

(*) Jornalista é colunista da Folha de São Paulo

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Lei ambiental pode piorar

Kennedy Alencar (*)

O debate sobre o novo Código Florestal, que já está ruim, poderá ficar ainda pior. O governo Dilma sabe disso e já trabalha para evitar que o PMDB confirme o ex-governador de Santa Catarina Luiz Henrique da Silveira como relator da matéria no Senado.

O projeto em tramitação na Câmara, relatado pelo deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP), atende mais aos interesses dos ruralistas do que do meio ambiente. Se depender de Luiz Henrique, os ambientalistas morrerão de saudade de Aldo Rebelo.

Quando governador de Santa Catarina, Luiz Henrique sancionou uma legislação que, na prática, acabaria com o resto da Mata Atlântica no Estado. A Justiça impediu sua aplicação.

Relator que ainda não assumiu o projeto, Luiz Henrique vem dizendo que pretende reeditar a lei que sancionou. Sua intenção é dar poder aos Estados para que eles definam critérios para a reserva legal (mata natural que deve ser preservada) e para as APPs (Áreas de Preservação Permanente, aquelas que tratam de topos de morros e beiras de rios, por exemplo). Para Luiz Henrique, o Código Florestal deveria criar apenas "regras gerais".

Se o PMDB mantiver Luiz Henrique como relator no Senado, o governo Dilma poderá se preparar para uma derrota maior ainda da que deverá enfrentar na Câmara.

ENGAVETAMENTO
Há gente no Palácio do Planalto defendendo que o governo pague o preço de engavetar o novo Código Florestal na Câmara. Problema: a discussão avançou muito, o que dificulta o arquivamento.

A avaliação do Planalto é que será desastrosa a repercussão internacional do texto do novo Código Florestal, mesmo se o governo conseguir dobrar Aldo e Luiz Henrique.

SENADO, VETO OU JUSTIÇA
Se não tiver forças para manter um texto aceitável no Senado, a presidente Dilma Rousseff poderá vetar pontos do Código Florestal. O governo não quer falar disso agora para evitar dar gás ao clima de guerra instalado no Congresso em torno do tema.

Há ainda o cenário em que contestações judiciais possam frear o ímpeto conservador que o atual Congresso deseja dar à legislação ambiental.

(*) Jornalista e escreve para a Folha de São Paulo

sexta-feira, 29 de abril de 2011

PT dá tiro no pé

Kennedy Alencar (*)

A volta de Delúbio Soares ao PT custará caro ao partido e ao governo Dilma. A refiliação do ex-tesoureiro, um dos principais personagens do mensalão, provocará desgaste na opinião pública. Mesmo cientes disso, o PT e o governo parecem dispostos a pagar o preço.

Por quê?

Delúbio ficou calado durante muito tempo. Não atrapalhou a reeleição de Lula em 2006 nem a vitória de Dilma em 2010. Nos bastidores, apresenta sinais de instabilidade emocional. Não suporta mais o ostracismo. Isso preocupa muita gente graúda no PT. Há petistas que falam em chantagem política, ao descrever a veemência do seu pedido de refiliação.

Outro motivo: o ex-tesoureiro deverá ser condenado por formação de quadrilha e corrupção ativa, crimes aos quais responde no processo do mensalão que tramita no STF (Supremo Tribunal Federal).

O sensato seria aguardar a decisão do Supremo, esperada para o ano que vem. Absolvido, Delúbio poderia pedir a refiliação com forte argumento. Mas ninguém no PT acredita nessa hipótese. Melhor, no cálculo político da sigla, aceitá-lo agora.

Prestes a acontecer, será uma decisão de uma hipocrisia política digna do bordão "nunca antes na história deste país". É fraca a justificativa de que não há condenação perpétua no Brasil e que, portanto, ele poderia retornar desde que comprometido a ter bom comportamento de agora em diante.

Delúbio não foi para a cadeia. Um partido político decidiu em 2005 que deveria expulsá-lo por seu papel central no esquema do mensalão. Ora, é um direito de qualquer agremiação escolher quem está apto a integrar seus quadros.

Se refiliá-lo agora, o PT deveria dizer que todo o partido, sem exceções, endossou as ações de Delúbio na tesouraria e que ele foi expulso somente para dar uma resposta política ao eleitorado e não bombardear a reeleição de Lula.

Hoje, a oposição está enfraquecida. O governo parece uma fortaleza. O mais provável é a manutenção desse cenário na próxima disputa presidencial, mas há tempo de sobra para uma reviravolta.

Se tivesse respeito à própria história, o PT diria não a Delúbio. O partido contribuiu para civilizar a política brasileira enquanto entoou com seriedade a bandeira da ética na política. Mas a legenda não aceita mais ser cobrada pelo padrão ético que ajudou a construir.

Não dá para reescrever a história. É injusto dizer que o mensalão é o maior escândalo de corrupção do Brasil. Inexiste corruptômetro. Mas é justo classificá-lo como o maior escândalo da história do PT e do governo Lula. Delúbio Soares e Marcos Valério são personagens reais de um esquema de compra de apoio político com recursos de origem pública.

No poder central, em nome do pragmatismo, o PT vem dinamitando seu pilar ético para se transformar na maior máquina política do Brasil. Uma pena. Já virou tradição o PT dar tiro no pé quando se sente por cima da carne seca.

(*) Jornalista e escreve para Folha de São Paulo

sábado, 23 de abril de 2011

A diferença entre Dilma e Lula

Kennedy Alencar (*)

É papel do jornalismo identificar diferenças entre os governos Dilma e Lula. Mas essa é uma tarefa com armadilhas que tendem a embaçar o diagnóstico.
No balanço dos cem dias, ao gosto do analista, falou-se em inflexão, mudança e guinada na política externa. Bastou o Brasil votar contra o Irã no Conselho de Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas).

No entanto, a viagem à China e a moderação do Itamaraty ao comentar a lenta transição cubana se encarregaram de mostrar que o discurso pelos direitos humanos será usado com seletividade. Fácil votar contra o Irã na ONU.
O país não tem a força econômica da China no cenário global nem as afinidades que Cuba possui como PT. Até Lula disse que estava certo o voto na ONU. O ex-ministro Celso Amorim foi um dos poucos a falar que a coisa era mais complicada.

A mudança na política externa, portanto, é bem menor do que apregoa o próprio governo.
Noutra área parece haver mais novidade: a política monetária é diferente. O Banco Central do governo Lula atuava de modo mais conservador e afinado com o mercado financeiro.

A política econômica como um todo é muito parecida, mas há um detalhe monetário que afeta mais a vida dos brasileiros do que a política externa.
Resumindo: o BC de Dilma resolveu peitar o mercado e aplicar uma política de juros gradualista para não sacrificar em excesso o crescimento da economia em 2011.

A reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) que terminou na última quarta-feira, dia 20/04, é evidência disso. O BC optou por elevar a Selic, a taxa básica de juros, de 11,75% para 12% ao ano. Por considerar que há uma grave ameaça inflacionária, a maior parte do mercado queria aumento de 0,5 ponto percentual.
O mercado financeiro está apostando contra o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. O mercado prevê que a inflação será maior do que diz o governo e que o dólar cairá mais do que diz o governo. Colocando suas fichas nisso, acha que ganhará mais dinheiro.

Para a economia, é salutar que o mercado acredite nas autoridades públicas e tome suas decisões em sintonia com as políticas oficiais. Quando o mercado vai no sentido oposto, o governo só tem uma opção: vencer a guerra. Se perder, a sociedade perde mais.
Tomara que Mantega e Tombini estejam certos. É ousada uma política monetária que não segue a cartilha do mercado financeiro, sempre disposto a elevar os juros reais que já são os mais altos do planeta. Nesse sentido, merece crédito a intenção de combinar o combate à inflação com a maior preservação possível do crescimento da economia. Soa interessante a ideia de uma meta de crescimento camuflada, digamos assim.

Mas, se a aposta do governo estiver errada, a inflação vai crescer mais do que deveria. O país arcará com um custo maior no futuro para combatê-la. E Dilma sofrerá os efeitos políticos de suas decisões.

(*) Jornalista e articulista da Folha de São Paulo. Apresenta o programa de entrevistas "É Notícia", da RedeTV!.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Cabral prega a legalização das drogas no mundo

Para ele, repressão às drogas mata "inocentes" e gera "gasto" que poderia ser aplicado em outras áreas

Kennedy Alencar (*)

O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, afirmou que vai levar à presidente eleita, Dilma Rousseff, a ideia de defender em fóruns internacionais "uma discussão" sobre a legalização planetária das drogas leves.

Em entrevista à Folha e à RedeTV!, ele disse que "a repressão pura e simples não tem sido inteligente" e que "a proibição leva a mais prejuízo do que uma ação inteligente do poder público".

A íntegra da entrevista será exibida no "É Notícia", programa que vai ao ar à 0h30 de hoje para amanhã.

Cabral ressalvou que a legalização das drogas não poderia ser adotada por um único país, mas por um conjunto de países. "Isso tem de ser discutido na ONU e no G-20 [grupo das 20 maiores economias]", disse ele. "É um tema que merece a atenção dos chefes de Estado."
Na visão do governador, uma experiência poderia ser feita com a maconha. Para ele, a repressão às drogas mata "inocentes" e demanda um "gasto" que poderia ser aplicado em outras áreas.

Cabral defende também a legalização do jogo no Brasil, assim como ocorre em outros países, e refuta o argumento de que a medida se prestaria à lavagem de dinheiro.

Segundo ele, "regras claras, transparentes" dariam controle legal sobre a atividade. "Falta intensividade na discussão da vida como ela é". Cabral diz ainda que vai sugerir a Dilma que avalie "a unificação das polícias [Civil e Militar]", medida que exige mudança na Constituição.

Ao tratar das ações contra o tráfico, ele disse que o prazo para a permanência das Forças Armadas no Complexo do Alemão será o de instalação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadoras) na região, "setembro ou outubro".

Segundo ele, haverá repressão na mesma proporção ao tráfico e às milícias, grupos formados por ex-policiais que também controlam comunidades carentes. "O governo não tem pacto com milícia nem com traficante."

(*)Jornalista e Colunista da Folha de São Paulo .

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Colheram o que plantaram

Kennedy Alencar (*)

Apesar de alguns erros derivados de certa soberba e de percalços sobre os quais não teve controle, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva executou com sucesso uma estratégia que traçou no começo do segundo mandato: eleger Dilma Rousseff como sucessora.
.Foram eixos da estratégia não cair na tentação do terceiro mandato e apostar num plebiscito sobre os seus oito anos de governo contra os oito anos de Fernando Henrique Cardoso.

Enquanto a oposição e parte da imprensa acreditavam que Lula queria o terceiro mandato e fazia jogo de cena para esperar o melhor momento de mudar a Constituição, Dilma Rousseff ficou livre para aparecer nas vitrines positivas do governo. Se ela tivesse sido apontada candidata lá atrás, auxiliares como Erenice Guerra teriam entrado bem antes na alça de mira.

No entanto, dando o devido crédito ao chefe, Dilma ficou livre para ter o controle de todas as bandeiras positivas do governo, como conduzir a mudança da lei para explorar o pré-sal, gerenciar o programa de habitação "Minha Casa, Minha Vida" e virar a "mãe" do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

No teste de fogo da crise internacional de 2008/2009, Lula foi aprovado. Esse teste foi bem mais duro do que o rigoroso ajuste fiscal e monetário de 2003. A oposição cobrava de Lula capacidade de gerenciar a crise. E ele foi bem. Fez um rápido e certeiro diagnóstico da crise financeira internacional e de como o Brasil deveria enfrentá-la. O maior acerto: medidas para reforçar o mercado interno como forma de atravessar o deserto e compensar a queda da economia global.

domingo, 3 de outubro de 2010

Marina decidirá o plebiscito

Kennedy Alencar (*)

No roteiro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a eleição presidencial de 2010 será uma disputa plebiscitária entre o PT e o PSDB. Mais do que isso, entre seus oitos anos de governo e outros oito anos do tucano Fernando Henrique Cardoso.

No meio do caminho, surgiu uma pedra. Para surpresa de Lula e de boa parte do mundo político de Brasília, Marina Silva deixou o PT em 13 de maio de 2008. Um anos depois, aceitou uma aventura de risco: disputar a Presidência da República pelo inexpressivo PV.

O resultado do primeiro turno mostra que Marina quebrou o plebiscito. Os méritos não são do PSDB de José Serra, mas da senadora que, de certa forma, vingou-se da forma como foi isolada no governo Lula.

Registro: ex-colegas de ministério de Marina se queixam de que ela não seria uma boa gestora. De acordo com essa versão, ela combinava ações na mesa do presidente, mas um suposto domínio de ONGs na máquina do Meio Ambiente desautorizavam o acertado.

Marina sempre rebateu essa versão. Diz que todos os projetos que Lula quis realizar obtiveram as autorizações. Ressalta que nunca fez chegar à imprensa, enquanto ministra, versões desfavoráveis a Dilma Rousseff, ex-chefe da Casa Civil e hoje candidata à Presidência.

PT e PSDB não devem se iludir. Marina terá enorme importância no segundo turno. Petistas e tucanos já começam a cortejar seu apoio. Não adianta falar com o PV de José Luiz de França Penna. A votação que foi dada a Marina é dela _o "Lula de saias" que foi a grande surpresa desta eleição. Marina vai decidir o plebiscito.

(*)  Jornalista e Colunista da Folha.com

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Lula e a onda Dilma

Kennedy Alencar (*)

A pesquisa CNI-Ibope que mostra Dilma Rousseff à frente de José Serra reflete o início de uma nova fase na campanha pelo Palácio do Planalto. Embalada pela popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a candidata do PT começa a caminhar com as próprias pernas.
Dilma marcou 40% no Ibope. Serra obteve 35%. E Marina Silva, candidata do PV, 9%.

A petista assumiu a dianteira porque tem crescido a fatia do eleitorado que passou a saber que ela é a candidata de Lula. O postulante do PSDB se beneficiou durante boa parte da campanha do desconhecimento que parcela significativa da população tinha tinha sobre a relação entre Lula e Dilma.
A pesquisa espontânea, quando o entrevistado não recebe a lista de candidatos, já dá a Dilma a liderança na corrida. Nesse levantamento, ela obteve 22% de intenção de voto. Lula ficou com 9%. Serra marcou 16%. Marina, 3%.

O grosso do eleitorado entendeu que Lula não estará na cédula em 3 de outubro e que sua representante é Dilma e não Serra. O presidente ainda não entrou na campanha com a força toda. Já disse a auxiliares que vai viajar pelo Brasil e fazer campanha para a petista após as 18h e antes das 9h. Ou seja, um comício de noite e uma porta de fábrica pela manhã.
A associação Dilma-Lula será intensificada no horário eleitoral gratuito, que começará em 17 de agosto. Isso é uma má notícia para Serra, um candidato que ainda tem, na avaliação de analistas de pesquisas, uma fatia de eleitores que pode migrar para a petista. Seriam eleitores que optam no momento pelo tucano devido à sua taxa de conhecimento, o chamado "recall". Serra é candidato a presidente pela segunda vez. Já foi eleito governador e prefeito. Dilma faz a sua primeira incursão eleitoral.

Tudo indica que Dilma vem crescendo paulatinamente faz tempo. Ela não parou. Houve ondas de maior e de menor intensidade. De modo consistente, a petista tem sido cada vez mais vista pelo eleitorado como a herdeira de Lula. Aos poucos, o personagem principal da eleição vai passando o bastão para a ex-ministra da Cada Civil.

Registro presidencial

Lula já vem dizendo faz meses que a eleição elegerá Dilma no primeiro turno.

(*) Colunista da Folha.com e repórter especial da Folha em Brasília

sábado, 12 de junho de 2010

Obama não voltou

Kennedy Alencar (*)

Se as sanções ao Irã fossem eficientes, o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) não precisaria aplicar a quarta rodada de reprimendas ao país asiático. Soa como confissão de fracasso da ONU.
As novas sanções funcionam como satisfação dos Estados Unidos ao seu público interno. Mais uma vez, Barack Obama cede aos seus conservadores. No contexto internacional, a decisão capitaneada pelos EUA é mais um passo de uma velha política de Washington que não dá resultado.

Dos 15 integrantes do Conselho de Segurança da ONU, 12 votaram pelas sanções: Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, China, Áustria, Japão, Nigéria, Bósnia, Uganda, México e Gabão. Houve uma abstenção, a do Líbano. Brasil e Turquia se opuseram.

No placar, o Brasil perdeu. Politicamente, ganhou.

O episódio escancara a necessidade de reforma da ONU. Na semana em que ela viu Israel recusar o pedido de investigação internacional do ataque desproporcional a um navio com ajuda humanitária para Gaza, seu Conselho de Segurança aprovou sanções que deverão fortalecer Mahmoud Ahmadinejad e o regime dos aiatolás. O orgulho e a cegueira americanas são irmãs do fundamentalismo e do desrespeito aos direitos humanos no Irã.

Ahmadinejad ganhou discurso para se vitimizar na opinião pública internacional e para obter alguma coesão interna em torno de suas intenções nucleares. Obama talvez tenha ganho mais um refresco dos seus conservadores. O Brasil tentou articular um caminho diferente. Algo ingênuo? Talvez. Mas tentou.
Se falhar a quarta rodada de sanções, como parece que falhará, virão a quinta e a sexta? Ou os EUA vão arrumar uma terceira guerra simultânea? Tudo indica que não.

Tomara que Obama esteja comprando tempo e argumento para obter um segundo mandato. Quem sabe um dia ele volta.

(*) Jornalista e colunista da Folha.com e repórter especial da Folha em Brasília

sábado, 29 de maio de 2010

Cadê o discurso?

Kennedy Alencar (*)

Claro que a vaga de vice é um problema para a campanha do pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra. Mas encontrar o discurso parece ser um problema ainda maior.
Até agora não existe um mote, um ideia que sintetize a candidatura e que faça o grosso do eleitorado entender a razão de optar por ela.
Serra oscila entre maior e menor agressividade direta contra Dilma Rousseff e o PT, quase sempre poupando Lula. Há ataques a Lula, mas são cifrados demais para o grosso do eleitorado.

Alguns exemplos para não cansar. Insinuar que não teria boa relação com ditadores, porque Lula tem. Não lotear os cargos, porque com ele seria diferente, não teria essa coisa de ceder à fisiologia. Neste exemplo, o próprio Serra se esquece das boas relações que manteve e mantém com José Roberto Arruda e democratas, tucanos e peemedebistas que não ficam nada a dever à turma da pesada que apoia Lula.
Mas o que importa é que ele tenta ferir Lula. Discretamente, repita-se. Motivo: boa parte dos que hoje optam pelo tucano avalia bem o governo do presidente. Seria suicídio político brigar de frente com o petista.

Resta, portanto, bater no PT e em Dilma. Mais à frente, virá a chamada tentativa de desconstrução. Em outras palavras, ataques mais duros à pré-candidata do PT. Simultaneamente, fará um discurso algo doce para tentar mostrar a suposta superioridade no quesito preparo para governar. Mas, de novo, a pergunta: qual é o mote?
Dilma tem o seu: continuar a obra de Lula, de fácil compreensão para a maioria dos eleitores.

Sem discurso, começam a bater o desespero e o destempero no próprio candidato. E, aí, ocorrem ataques como o desferido contra a Bolívia. Ninguém entendeu a razão.
Especulação: pode ser uma tentativa de construir um discurso mais linha dura em relação à segurança pública, um dos temas de maior preocupação do eleitorado. O risco é soar meio malufista. Existe indício nesse sentido: o violento comportamento da Polícia Militar de São Paulo hoje em dia.

A PM paulista está matando mais, de acordo com dados do primeiro trimestre deste ano comparados com a mesma época do ano passado. Nesse período, em que Serra governava o Estado, cresceram 40% as chamadas ocorrências em que há resistência seguida de morte.
Falar mais duro em relação ao combate às drogas pode atrair uma fatia do eleitorado. No entanto, numa primeira avaliação, parece estreito para virar um discurso de campanha eficiente a fim de derrotar a candidata de um presidente com popularidade recorde.

(*) Colunista da Folha Online e repórter especial da Folha de São Paulo em Brasília