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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A economia da redundância

Gustavo Cerbasi  (*) 

Pagar impostos deveria ser uma troca social em que contribuintes cooperam para que o Estado se organize e, dessa forma, possa promover uma sociedade com serviços adequados à capacidade contributiva de seus cidadãos. O pagamento de impostos só faz sentido, do ponto de vista de quem paga, se o Estado retribuir com serviços públicos minimamente adequados. 

A reflexão que quero levantar não é sobre ausência e ineficiência de serviços públicos – disso todos já estão cientes. O problema é quanto custa para a economia o esforço para suprir serviços que faltam. Quem paga impostos vive, no Brasil, a economia da redundância. 

Quem tem automóvel paga impostos sobre a compra, sobre o combustível, sobre a manutenção e também sobre a propriedade (o IPVA). Em troca, o Estado deveria prover transportes públicos para quem não tem automóvel e também condições viárias adequadas para quem contribui. Mas a realidade é que os donos de automóvel são obrigados a gastar mais com reparos de danos causados por vias mal pavimentadas, ou por uso de combustível adulterado e não fiscalizado, ou pelo desgaste excessivo causado pelas horas gastas no trânsito mal planejado. 

O trânsito que desgasta os automóveis também afeta a saúde, cujos serviços públicos deveriam ser excepcionais diante de nosso nível de arrecadação. A realidade é que quem pode paga planos de saúde caros. Quem não pode perde mais saúde na espera, na ansiedade e no sofrimento. Essa dinâmica reduz ainda mais a produtividade dessas pessoas e sua capacidade de contribuir para a economia. 

Pagamos caro também para garantir a segurança de nossas moradias e a educação de nossos filhos. Perdemos muito tempo e dinheiro para driblar a burocracia insana dos serviços públicos. Tudo isso ocorre no âmbito das famílias. 

Na realidade empresarial, temos o trabalhador que custa para a empresa o dobro do que ele recebe, os gastos com segurança que o Estado não garante, o alto custo da logística feita em vias mal planejadas e o preço para se adequar ou para driblar a fiscalização corrupta. 

A ineficiência do Estado em transformar em serviços o que arrecada nos obriga a pagar por tudo em dobro. Pagar por uma educação que já foi paga, custear bens que se depreciam pela má gestão pública e gastar em dobro com a saúde torna nossas empresas e nosso trabalho menos competitivos. Encarece o que já é caro e joga pelo ralo o discurso de que o país está evoluindo. Estamos em alta velocidade na contramão do desenvolvimento. É possível mudar com investimento maciço em educação, planejamento e eficiência. 

A questão é: há interesse em mudar? 

(*) É consultor financeiro e escritor. Escreva para ele em www.maisdinheiro.com.br.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A bolha de crédito e o ajuste no padrão de vida dos brasileiros

Reinaldo Domingos (*) 

Muito se vem falando nos últimos meses sobre projeções negativas para a economia para os próximos anos e muitos problemas macroeconômicos são tidos como culpados, o que faz com que não se perceba que a situação pode se agravar nos próximos anos, pois já vivemos uma verdadeira bolha de crédito, que está preste a estourar, fazendo com que avanços que alcançamos possam regredir. 

Hoje, os dados são assustadores, sendo que temos no Brasil cerca de 57 milhões de inadimplentes, isto é, pessoas que assumiram compromissos financeiros e não conseguiram pagar. É um dado temeroso. 

E o que mais preocupa é que as ações que vejo serem tomadas são, em sua grande parte, paliativas, como utilizar dinheiro extra para ajuste dessas situações, participar de feirões limpa nome, etc. Não se percebe que a solução está na educação financeira das pessoas, o que proporciona que essa situação não se repita mais. 

Ocorre que vivemos em um momento no qual, depois de 20 anos que conquistamos nossa estabilidade econômica macro, principalmente, com o controle da inflação, tivemos, na sequência, o aumento do acesso das pessoas a diversas ferramentas de crédito, dando assim uma falsa sensação de aumento de padrão de vida. 

Contudo, não foi observado que esse aumento de padrão não ocorreu de forma sustentável, mas sim com o comprometimento cada vez maior da renda com o crédito e, agora, se observa um risco cada vez maior de a chamada nova classe C voltar para a D ou até mesmo a E, pois, agora, enfrentam o desequilíbrio e a realidade de um falso aumento de padrão de vida. 

Agora, todos buscam culpados, e esses não faltam; pode ser o marketing publicitário, o fácil acesso ao crédito, a conjuntura econômica ou até mesmo o resultado da eleição. Contudo, não se percebe que o problema é um só: sofremos com a falta de educação, nosso sistema educacional se mostra falido. De um lado, com a progressão continuada e, de outro, com conteúdos que visam apenas que se passe no vestibular ou mesmo titulações sem conteúdos. 

Infelizmente, deixamos de lado que temos que educar as pessoas para a vida, para a realidade que enfrentarão no futuro. Assim, mais do que nunca, é necessário que, no processo educacional, se tenha uma grande reflexão sobre projeto de vida. Hoje, não se tem a essência primordial do ensino de projetar os sonhos, isso porque nossa população segue sempre a mesma fórmula, não percebendo que não se pode mudar fazendo sempre tudo igual. 

Esse é o ponto primordial que trata a educação financeira, pois ela aborda a relação com dinheiro de forma comportamental, em busca da sustentabilidade. 
Vivemos uma era de ansiedade, de consumo imediato, que leva ao consumo não consciente, que nos levou a bolha do endividamento. 

Não quero, com isso, ir contra ao consumo, muito pelo contrário, pois, quando se tem educação financeira, com certeza, o consumo irá crescer; quando se combate o endividamento e insere a educação financeira, também se proporciona à população maior capacidade de compra, além de incentivar a cidadania. 

Enfim, chegou a hora de enfrentarmos a situação da bolha de endividamento de forma séria. O problema não é apenas macroeconômico, mas também micro. 
Temos que deixar de pensar nas pessoas como apenas números e tratá-las como cidadãos possuidores de sonhos e desejos, que devem – e podem – ser realizados. 

Para isso, o único caminho é a educação. 

(*) É educador financeiro e presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin)

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Dois caminhos

Samuel Pessôa (*) 

O poder no Brasil tem sido disputado por dois partidos sociais-democratas, PT e PSDB. Ambos concordam que o Estado tem que prover as redes básicas de proteção social bem como promover a igualdade de oportunidades. 

Assim, o Estado deve oferecer educação básica pública e gratuita e ter forte presença na oferta direta ou no financiamento da educação superior, como são os casos do Prouni e do Fies. Adicionalmente deve ofertar universal e gratuitamente serviços de saúde. 

Outras atribuições são os seguros contra a pobreza, como o programa Bolsa Família e os benefícios não contributivos da Previdência Social; contra o desemprego, como o seguro-desemprego; contra a doença, como o auxílio-doença; contra a invalidez permanente, como a aposentadoria por invalidez; e contra a carência habitacional, como o programa Minha Casa, Minha Vida, entre outros. 

A forte elevação da carga tributária das últimas duas décadas decorreu da necessidade de construir e manter essa extensa rede de proteção social. 

Nenhum dos candidatos competitivos nesta eleição se posicionou por outro modelo. 
O motivo é que a sociedade, nas diversas vezes em que foi chamada às urnas, tem se pronunciado favoravelmente a esse modelo. O contrato social da redemocratização não está em discussão. Ele é um dado. Na eleição do próximo domingo, o eleitor será chamado a se pronunciar em relação a dois caminhos diferentes para que continuemos a progredir na direção de uma sociedade com maior nível de renda e mais igualitária. 

O caminho do atual governo, conhecido por nova matriz econômica e que venho chamando de ensaio nacional-desenvolvimentista, aposta no fortíssimo intervencionismo estatal na economia. 

Para os formuladores do atual regime de política econômica, devemos perseguir um pacote assemelhado ao adotado pelos países de desenvolvimento rápido do Leste da Ásia, como Japão, Coreia do Sul, Taiwan e mais recentemente a China continental.

Políticas como a forte presença de bancos públicos no financiamento do investimento, fechamento da economia para proteger setores, desoneração tributária seletiva, entre tantas outras medidas, foram inspiradas nessas experiências asiáticas. 

Para os críticos da nova matriz econômica, como é meu caso, o sucesso das economias asiáticas não está associado ao pacote intervencionista, mas sim ao fato de essas sociedades terem construído sistemas públicos de educação básica de elevadíssima qualidade e de terem negociado um contrato social – em geral de forma não democrática – que produziu no período de rápido desenvolvimento econômico níveis de poupança doméstica sempre acima dos 30% do PIB, com destaque para a elevadíssima taxa de poupança das famílias. 

Por exemplo, as famílias na China poupam o equivalente a 22,5% do PIB chinês, o que significa algo próximo a 50% de sua renda disponível. 
O motivo é que essas sociedades contrataram – quase sempre de forma não democrática, é bom repisar – que a seguridade social é uma responsabilidade individual. 
As elevadíssimas taxas de poupança das famílias e as baixíssimas cargas tributárias resultam dessa “escolha”. É por esse motivo que a nova matriz econômica não funcionou e não funcionará e é por esse motivo que o crescimento sob Dilma despencou dos 4% anuais nos oito anos de Lula para o nível atual de 1,6%. 

A nova matriz econômica tropicaliza a parcela do modelo asiático que não é a responsável pelo crescimento acelerado vivenciado por essas sociedades. 

O caminho alternativo é retornarmos a um modelo de Estado regulador que vigorou nos oito anos do governo FHC e no primeiro mandato de Lula. Esse modelo deu certo e explica a aceleração do crescimento no governo Lula. 

A presidente Dilma, o ministro Mantega e os demais formuladores da política econômica atual não perceberam que a nova matriz econômica e o contrato social da redemocratização não cabem no Orçamento do Estado brasileiro. Insistir na nova matriz econômica é dar murro em ponta de faca. 

(*) É professor da pós-graduação em economia da Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro (EPGE/FGV), chefe do Centro de Crescimento Econômico do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE/FGV) e editor da revista “Pesquisa e Planejamento Econômico”. 
É também doutor em economia pela Universidade de São Paulo (USP), bacharel e mestre em física pela mesma universidade. É especialista em crescimento, flutuações e planejamento econômico. 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Isaac Newton e a economia brasileira

Ricardo Amorim (*) 

Dia 5 de julho de 1687, Isaac Newton publica sua obra prima, Princípios Matemáticos da Filosofia Natural. Descreve as três leis do movimento e redefine a ciência, em especial a Física. O notável é que as três Leis de Newton ajudam a compreender também a economia. 

Primeira Lei do Movimento: um objeto continua em repouso, ou continua a se mover a uma velocidade constante, a menos que seja levado a mudar de estado por alguma força externa. Resumindo, objetos em movimento tendem a continuar em movimento e objetos parados tendem a continuar parados. 

Idem para a economia. Em países que crescem de forma sustentada e ritmo acelerado, a confiança dos empresários e consumidores no futuro é grande, o que os leva a investir e consumir muito, fazendo com que estes países continuem crescendo rapidamente. 
Já em países que, como o Brasil de hoje, crescem pouco ou nada, empresários e consumidores perdem a confiança e pisam no freio. Dilma tem razão quando diz que o pessimismo atrapalha o crescimento, mas esquece de dizer que o pessimismo foi inicialmente causado pelo crescimento pífio anterior. 

Para a economia brasileira voltar a crescer velozmente e sustentar sua expansão, a desconfiança tem de passar. Para que a confiança dos empresários volte, é necessário estimular a produção e não apenas o consumo, como tem acontecido aqui há mais de 10 anos. Como? Reduzindo impostos, burocracia e intervencionismo estatal e aumentando investimentos em infraestrutura, educação e treinamento. Se o próximo governo fizer isso, os investimentos crescerão e, com eles a geração de empregos, a confiança dos consumidores e as compras. 

Segunda Lei de Newton: a mudança de movimento é proporcional à força externa. 
A economia funciona da mesma forma. O desempenho da economia brasileira será diretamente proporcional à força que a impulsionar. Quanto mais significativas as mudanças de política econômica, maior pode ser a recuperação. 

Porém, segundo Newton, força é um vetor que corresponde à massa multiplicada pela aceleração. Em vetores há dois componentes: um de magnitude, outro de direção. 
Com a economia não é diferente. Não importa apenas se as mudanças são significativas, mas se levam à direção certa. Mudanças incoerentes, na melhor das hipóteses, anulam-se e a economia do país não sai do lugar. Na pior, fazem a economia encolher, como aconteceu no Brasil no primeiro semestre. 

Terceira Lei de Newton: para toda ação, há sempre uma reação igual e contrária. Trazendo para nossa realidade, mudanças que são boas para todo o país não são necessariamente boas para todos no país. Os prejudicados farão o que puderem para evitá-las. Corruptos não querem que sequem suas fontes, burocratas não querem leis mais simples, beneficiários de programas de governo, sejam do Bolsa-Família, de quotas educacionais ou de financiamentos subsidiados do BNDES querem sempre mais recursos. 

Desmontar nosso Estado paternalista e ineficiente é um desafio hercúleo. 
Os benefícios de cada mudança são difusos, divididos por todos os brasileiros; as perdas, são concentradas nos atuais beneficiários. Para cada mudança individual, todos ganhariam um pouco, mas poucos perderiam muito. Por isso, quem tem a perder opõe-se com toda força às mudanças. Grandes mudanças, e particularmente as que precisam de aprovação no Congresso, só são possíveis quando um presidente recém eleito toma posse, chancelado pelo apoio de dezenas de milhões de brasileiros. 

Voltar a crescer bem é totalmente possível, mas se o próximo governo não tomar as medidas necessárias já em seus primeiros meses de mandato, teremos de esperar mais quatro anos por outra chance. 

(*) É economista, apresentador do programa Manhattan Connection da Globonews e presidente da Ricam Consultoria. É colunista da Revista IstoÉ 

sábado, 27 de setembro de 2014

Cargill + Copersucar :: doce união

Paulo Costa (*) para a coluna BioAgroEnergia da Revista Exame 

A notícia: 
“O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou sem restrições a joint venture entre as gigantes Cargill e Copersucar para combinar suas atividades globais de comercialização de açúcar. O despacho da Superintendência-Geral do órgão foi publicado nesta segunda-feira no “Diário Oficial da União”. 

O negócio foi anunciado no fim de março. 
A Copersucar, que une a produção de quase 100 usinas de açúcar no Brasil, é considerada a maior comercializadora de açúcar e etanol no mundo. 
A Cargill, uma das maiores empresas do mundo com capital fechado – tem 140 mil funcionários e atua em 65 países -, origina açúcar nos principais países produtores ao redor do mundo, incluindo o Brasil. A empresa tem sede nos Estados Unidos e faturamento de US$ 137 bilhões com diversos negócios agropecuários.” (Fonte: Valor) 

O comentário: 
Esta união anunciada em março passado e agora aprovada sem restrições pelo Cade é emblemática e insuperável para o difícil negócio do comércio internacional de açúcar no mundo e o ápice de um longo processo de amadurecimento de ambas as empresas ao longo de uma década.* 

A Copersucar alterando sua estrutura corporativa e criando uma Sociedade Anonima para gerenciar seu comércio, independentemente da cooperativa. 
A Cargill aprimorando sua participação no mercado internacional e deixando de lado o interesse em investir na área de produção, erro que tanto custa para suas concorrentes Bunge e LDC/Biosev. 

De um lado junta-se a força da originação e logística interna da Copersucar, aliás já com experiência de alguns clientes de destino, com a pujança da Cargill nos mercados internacionais e mais o seu domínio em operações de Bolsas de Mercadorias, seja em NY ou Londres, além de forte presença no mercado de fretes marítimos. 
Aliás, ambas as empresas detêm possibilidade de armazenamento e embarque de grandes volumes de açúcar em portos brasileiros e a complementariedade de suas atividades no setor é o que os americanos chamam de uma “win-win situation”, que certamente vai marcar a vida deste mercado. 

(*) O articulista tem a honra de ter trabalhado nestas duas empresas, ambas com culturas corporativas marcantes e procedimentos éticos irretocáveis. 

(**) É consultor em agronegócios e bioenergia.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Patrocinadores-Fifa isentos de impostos na Copa

Bob Fernandes (*) 

A lei aprovada pelo congresso e sancionada pela presidência, inicialmente em 2010, permite que a Fifa não pague inúmeros impostos na Copa. E não apenas a FIFA. Nenhum dos 14 patrocinadores estrangeiros pagará impostos (os patrocinadores locais são outros 8).  
Em todas as Copas e em todos os países tem sido assim. 
Outra entidade tem proporcionado a mesma condição para seus parceiros: o Comitê Olímpico Internacional (COI). 

Governos e entidades de controle de países têm debatido as imposições de megaeventos como Copa e Olimpíada. 
A Controladoria Geral da União (CGU) do Brasil tem participado desse debate. 

Na Olimpíada de Londres, britânicos engoliram o mesmo tipo de exigências que irrita os brasileiros. E até mais. Prédios residenciais tinham baterias de mísseis nos telhados e Londres teve 17 mil soldados e seguranças. Os Jogos custaram, em reais, 29 bilhões. 
Antes da Olimpíada, 53% da população inglesa era contra. 
Para evitar engarrafamentos e a superlotação no metrô, boa parte dos londrinos trabalhou em casa durante os Jogos. Os ingleses engoliram tudo, menos a isenção de impostos. 

E quem provocou a reação, além de entidades independentes, foi um site, o "38 degrees" . O nome da campanha, iniciada às vésperas da Olimpíada, foi: 
"Patrocinadores olímpicos, paguem a sua parte". 
No site, o nome de cada patrocinador, quanto faturava e como, mundo afora, habitualmente driblava impostos via paraísos fiscais. 

Em poucos dias centenas de milhares de adesões à campanha. 
Nas redes sociais, exposição das marcas multinacionais e a pressão da opinião pública: um a um os grandes patrocinadores abriram mão da isenção de impostos. 
E comunicaram, também via redes sociais, que pagariam os impostos . 

Há um ano, com a reação nas ruas do Brasil, o jornal inglês Guardian constatou: 
- Os brasileiros tiveram coragem de dizer o que os britânicos não tiveram. Mas sem nada quebrar-daquela vez- os britânicos derrubaram na prática a isenção de impostos aprovada por governo e parlamento. 

Faltam três semanas para o início da Copa do Mundo no Brasil. 

PS: Desde o início da tarde desta segunda, 26, o escritório da FIFA no Rio de Janeiro foi contatado. Por telefone, por duas vezes inicialmente, às 14 hs 51 e às 15 e 20. 
O terceiro contato telefônico se deu às 18 hs 16. 
Por recomendação da própria assessoria, o primeiro de dois e-mails foi encaminhado às 15 hs 27. Até o início da manhã desta terça-feira, 27, Terra Magazine ainda não havia recebido resposta para a pergunta enviada. 

(*) Foi redator-chefe de CartaCapital. Trabalhou em IstoÉ (BSB e EUA) e Veja. Repórter da Folha de S.Paulo e JB, fez "São Paulo, Brasil" no GNT/TV Cultura. 
Comentarista da TVGazeta e Rádio Metrópole (BA) C

domingo, 25 de maio de 2014

O pavor dos abastados: a desigualdade e a taxação das riquezas

Leonardo Boff (*) 

Está causando furor entre os leitores de assuntos econômicos, economistas e principalmente pânico entre os muito ricos um livro de 700 páginas escrito em 2013 e publicado em muitos países em 2014. Transformou-se num verdadeiro best-seller. 
Trata-se de uma obra de investigação, cobrindo 250 anos, de um dos mais jovens (43 anos) e brilhantes economistas franceses, Thomas Piketty. 
O livro se intitula O capital no século XXI (Seuil, Paris 2013). 
Aborda fundamentalmente a relação de desigualdade social produzida por heranças, rendas e principalmente pelo processo de acumulação capitalista, tendo como material de análise particularmente a Europa e os USA. 

A tese de base que sustenta é: a desigualdade não é acidental mas o traço característico do capitalismo. Se a desigualdade persisitir e aumentar, a ordem democrática estará fortemente ameaçada. Desde 1960, o comparecimento dos eleitores nos USA diminuiu de 64% (1960) para pouco mais de 50% (1996), embora tenha aumentado ultimamente. 
Tal fato deixa perceber que é uma democracia mais formal que real. 

Esta tese sempre sustentada pelos melhores analistas sociais e repetida muitas vezes pelo autor destas linhas, se confirma: democracia e capitalismo não convivem. 
E se ela se instaura dentro da ordem capitalista, assume formas distorcidas e até traços de farsa. Onde ela entra, estabelece imediatamente relações de desigualdade que, no dialeto da ética, significa relações de exploração e de injustiça. 
A democracia tem por pressuposto básico a igualdade de direitos dos cidadãos e o combate aos privilégios. Quando a desigualdade é ferida, abre-se espaço para o conflito de classes, a criação de elites privilegiadas, a subordinação de grupos, a corrupção, fenômenos visíveis em nossas democracias de baixíssima intensidade. 

Piketty vê nos USA e na Gran Bretanha, onde o capitalismo é triunfante, os países mais desiguais, o que é atestado também por um dos maiores especialistas em desigualdade Richard Wilkinson. Nos USA executivos ganham 331 vezes mais que um trabalhador médio. Eric Hobsbown, numa de suas últimas intervenções antes de sua morte, diz claramente que a economia política ocidental do neoliberalismo “subordinou propositalmente o bem-estar e a justiça social à tirania do PIB, o maior crescimento econômico possível, deliberadamente inigualitário”. 

domingo, 11 de maio de 2014

A economia repetida como farsa

Rolf Kuntz (*) 

Bem-vindos de volta aos anos 50, ou, melhor, bem-vindos ao arremedo dos anos 50, a história repetida como farsa. As professoras do curso primário ainda apresentavam o Brasil, naquele tempo, como "um país essencialmente agrícola", apesar da onda de mudanças – a criação recente da grande siderurgia, a fundação da Petrobrás, a organização do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico, a expansão das fábricas de bens de consumo e a bandeira da industrialização acelerada. 

Hoje, como há seis décadas, a exportação depende dos produtos básicos. De janeiro a abril deste ano, só essa categoria proporcionou uma receita maior que a de um ano antes. Esse faturamento, US$ 33,91 bilhões, foi 4,2% superior ao dos primeiros quatro meses de 2013. Ao mesmo tempo, recuaram as vendas de industrializados. Também como nos tempos de Getúlio e JK, incentivos especiais e esquemas de proteção comercial são usados para favorecer a indústria local. Mas essa indústria há muito tempo deixou de ser nascente, a substituição de importações perdeu sentido e muitos países naquele tempo subdesenvolvidos tornaram-se potências dinâmicas e competitivas. 

Na repetição farsesca dos anos 50, o governo atribui à oposição o desejo de privatizar a Petrobrás, quando a privatização de fato é promovida pelo grupo no poder, ao aparelhar, lotear e submeter as estatais a interesses partidários e pessoais dos governantes e de seus aliados. Esse mesmo padrão de comando levou a Petrobrás a negócios desastrosos, prejudicou sua receita, dificultou seus investimentos, converteu-a na empresa mais endividada do mundo – como noticiou a imprensa internacional – e corroeu seu valor de mercado. Tudo isso bastaria para compor uma história de incompetência, irresponsabilidade e abuso, mesmo sem o complemento das suspeitas de pilhagem, das prisões e da investigação criminal. 

Na farsa do retorno aos anos 50, a sexta ou sétima economia mundial aparece em 22.º lugar entre os exportadores e só escapa de uma posição mais humilhante graças ao agronegócio e a um setor de mineração ainda com sinais de vitalidade. A nova pesquisa da indústria, recém apresentada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com universo mais amplo e ponderação atualizada, serviu principalmente para confirmar as más condições do setor. Pelas novas contas, a produção industrial cresceu 2,3% em 2013, quase o dobro da taxa indicada pelo velho critério, 1,2%. Mas esse crescimento mal bastou para compensar o recuo do ano anterior, 2,3%. 

domingo, 4 de maio de 2014

Mais de 50 mi na 'folhona' de pagamentos da União

Roberto Macedo (*) 

Certa vez, em conversa com o economista Raul Velloso, um dos maiores especialistas em finanças públicas do País, ele me falou desse imenso número de pessoas no que chamou de "a grande folha" de pagamentos do governo federal. Grandes números não surpreendem neste enorme país, mas esse é de levantar sobrancelhas e contrair o rosto. 
O Brasil tem enorme território, população já na casa dos 200 milhões e é recordista de carga tributária na segunda divisão do campeonato mundial de desenvolvimento, a dos times com renda per capita insuficiente para levá-los à primeira. 

Chega lá jogando com os pés da tal "pátria de chuteiras", mas sem cabeça para se aproximar mais dos efetivamente ricos. Nosso governo federal vende como lema a ilusão de que "país rico é país sem miséria". Mas, com o perdão da tautologia, país rico é o que tem mais riqueza acumulada, inclusive para lidar com seus menores bolsões de pobreza muitíssimo melhor que o Brasil. Aqui são "bolsoezões" e mal cuidados. 

Com a carga tributária mais empréstimos, nosso governo como um todo toma perto de 40% do produto interno bruto (PIB), e esse total tem que ver com a folhona de que fala Velloso, pois é alta a pressão que coloca mais gente nela e há também aumentos dos valores que o governo paga, em particular com propósitos eleitoreiros. 

Velloso apresentou seus números na última reunião mensal de conjuntura que a Fipe-USP realiza há anos, sob a competente condução do professor Fernando Homem de Mello. 
Ao iniciar, Velloso gentilmente disse que, entre outras razões, estava lá para me entregar os números que me prometera na citada conversa, e lhe sou muito grato. 
Ele falou das cifras do Orçamento de 2012 e de suas perspectivas atuais, mas, quanto aos números da folhona da União, os que tinha eram de 2008. Muito úteis, mais adiante mostrarei que os atuais já são bem maiores. 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Porque o Brasil não produz startups de 1 bilhão de dólares?

Gustavo Guida Reis (*) 

Pela segunda vez me deparei com a lista do Wall Street Journal das startups mundiais avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares. E pela segunda vez fiquei decepcionado – o Brasil não consta na lista. 

Aqui segue a lista (OBS. escrevo esse artigo em 21/4/2014, então não se espante se alguma entrar e/ou outra sair da lista): 





Antes de endereçar a questão do porquê não tem nenhuma empresa brasileira na lista (nem sul americana, nem latino-americana!) vamos olhar os dados mais no detalhe. 

Das 46 startups, 36 ficam nos EUA, 7 na China e 3 na Europa. Isto é 78% das startups de mais de US$ 1 bilhão ficam nos EUA, 15% na China e 7% na Europa. 

A soma dos valuations das startups da lista é de US$ 129 bilhões, com 72% disso com as norte-americanas, 20% com as chinesas e 8% com as europeias. 
O valuation médio das startups nos EUA é de US$ 2,59 bilhões; na China é de US$ 3,64 bilhões e na Europa de US$ 3,47 bilhões. 

Do total de US$ 17,8 bilhões de funding que todas as startups da lista receberam, na média, startups norte-americanas recebem US$ 355 milhões em 5,4 rodadas de investimento. Montante parecido com a Europa, (US$ 352 milhões) só que, nessa região são distribuídos em 7,7 rodadas em média. 
Já na China o investimento médio é de US$ 570 milhões em menos rodadas, 3,8 em média. 


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Vândalos nos mercados

Vinicius Torres Freire (*) 

A bolsa brasileira foi a que mais apanhou ontem no mundo. As ações da Petrobras entraram no picador de papel. Não haveria muito jeito de as ações da petroleira escaparem, pois têm muito peso na Bolsa daqui. Enfim, quase tudo aqui estava caindo pelas tabelas. 

A Petrobras apanha, de resto, por causa do paniquito com o preço de matérias-primas, que supostamente iria para o brejo, dada a supostamente perigosa desaceleração da economia chinesa. Por fim, a Petrobras deve estar apanhando também porque está no bico do urubu, dada a política equivocada de preços do governo, entre outras. 

Como se sabe, o governo tabelou o preço da gasolina, combustível que a Petrobras é obrigada a importar caro e a vender barato no Brasil. Em reais, o preço dos combustíveis está cada vez mais caro, dada a desvalorização do real. 
Logo, a Petrobras perde mais dinheiro. 

O caso do Brasil, ainda mais o da Petrobras, foi só um dos barcos fazendo água na tormenta do mercado financeiro internacional, que por ora, ao menos, está destrambelhado. 

O tumulto está de bom tamanho desde a semana de 22 de janeiro. 
O problema era a Turquia. Depois, Turquia e Argentina. Depois, uma meia dúzia de "emergentes". Agora, os donos do dinheiro grosso nos Estados Unidos e demais centros do mundo rico estão atirando nos próprios pés. 

O que teria havido ontem, de específico, se é que dá para discutir essa maluquice desse modo? Foram divulgados mais dados fracos da produção industrial da China e dos EUA. 

A lerdeza chinesa, além do medo da quebra de fundos chineses, faz uns dez dias havia balançado os "emergentes" (que terão problemas em financiar suas contas caso a China cresça bem menos, dado que o capital já estava em parte voltando para os EUA). Agora, veio esse dado fraco americano. 

Mas a economia americana não estava se recuperando? Estava, aparentemente está, embora ainda não estivesse claro o ritmo. De qualquer modo, indicadores de atividade econômica de apenas um mês e de um setor não dizem lá grande coisa. 

No entanto, isso bastou para mexer nos preços dos ativos financeiros. 
Tempere-se esse caldo com rolos em muitas parte do mundo relevante ("emergentes grandes", China etc.) com uma colherada de propensão à histeria dos "mercados" e pronto. O caldo entorna. 

A princípio, poderia até não ser nada sério, poderia ser que a coisa se acalmasse já hoje, terça-feira. Mas pode ser que não. O fato de haver essas chacoalhadas loucas no mercado pode causar acidentes graves. 

Sim, há problemas reais. A China desacelera, sim, mas ninguém sabe quanto; o capital emigra dos "emergentes", sim, muitos dos quais estavam meio de calças curtas, consumindo demais. Mas nenhum desses fatores era desconhecido na semana passada. 

No entanto, há medo. Donos do dinheiro grosso tiram dinheiro das Bolsas americanas e de ativos "emergentes", inflados por anos de capital barato. Migram para os títulos do Tesouro americano faz uns 15 dias. 

Desde quinta, o juro dos títulos brasileiros de dez anos está acima de 7% REAIS (isto é, além da inflação). Faz um ano, estava em 3,5%. Viaja para as alturas na companhia do dólar." 
Bom dia, presidenta Dilma. Os arruaceiros batem à porta. Está na hora de acordar. 

(*) Jornalista e está na Folha desde 1991. Foi secretário de Redação, editor de 'Dinheiro', 'Opinião', 'Ciência', 'Educação' e correspondente em Paris. Em sua coluna, aborda temas políticos e econômic

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O pior do pior de 2013 (e da década!)

Paulo Rabello de Castro (*) 

No ano velho, o dispêndio público federal mais uma vez explodiu, como em cada ano desta década, sem "falhar" um único período desde 2004. O governo converteu-se num gastador compulsivo e dissimulado. Em 2013 o rega-bofe tornou-se um escárnio: o gasto total do governo cresceu quase 15%, o dobro do crescimento do produto interno bruto (PIB) tributável, que paga a gastança - o PIB nominal só aumentou cerca de 8% no ano passado. 

Recordes de arrecadação são comemorados como algo positivo. Não é casual. 
O Estado gasta demais, a sociedade paga a conta e isso se transformou no grande nó que amarra o desenvolvimento do País. O estouro da despesa pública em todos os níveis está no centro da explicação - a única plausível - para o baixo desempenho da economia brasileira. A afirmação pode soar contraintuitiva. Mas é exata. 
No Brasil, o governo é que impede o desenvolvimento que ele mesmo se propõe a conduzir. Nem Keynes discordaria: sua lição de ampliar gastos públicos como remédio numa severa recessão em nada se aplica para justificar a explosão do gasto público total. Tendo a despesa pública brasileira se tornado veneno, como podemos denunciar e combater essa tragédia coletiva no debate eleitoral de 2014? 
Será que os candidatos sabem e compreendem a natureza do mal da despesa pública excessiva? 

A natureza nos ensina. No cultivo de cítricos, a doença mais grave de um pomar é o "declínio". De origem desconhecida, o declínio vai atingindo as árvores mais vulneráveis, sempre de modo gradual. A árvore não morre, mas já não consegue produzir como antes. Algo a devora por dentro, como um câncer. A anterior vitalidade é substituída por uma produtividade recessiva da planta. Como no declínio dos cítricos, também alguma coisa consome o vigor da economia brasileira. E por ser algo lento e mudo, torna-nos desatentos à malignidade do processo. 

No declínio da economia, a única estrutura que explode em crescimento é o próprio governo, devorando o resto à sua volta. Ao crescer, por uma década, ao dobro do ritmo da economia produtiva, o setor público vai inchando em patológica progressão. Instala-se um processo de substituição das forças da sociedade e dos mercados pela articulação típica dos processos facciosos na decisão de gastar. Gasta-se para nada. Gasta-se para agradar a grupos, para pacificar descontentes, comprar mais poder, para ir ficando. 

Vamos aos números. No Plano Real, há duas décadas, o gasto total do Estado nacional, nos seus três níveis de comando, ainda era a quarta parte do PIB brasileiro, o que já representava um nível superior ao de países de semelhante estágio de renda per capita. Hoje o tamanho do setor público atinge 40% do PIB, ombreando-se com a velha Europa, mas sem qualidade de serviço público. Está aí o cerne da questão. 
O Estado brasileiro explodiu, consumindo tudo à sua volta. Avançou como uma célula anormal, devorando o resto sem piedade. A enorme velocidade com que isso tem ocorrido é o traço essencial que distingue o caso da expansão do Estado no Brasil. 
Não existe paralelo mundial para o que vem sucedendo aqui. 
O tamanho do Estado quase dobrou, empurrando a carga tributária para um patamar insuportável, ao tornar o País um dublê de selva burocrática e manicômio tributário. 

A extração de meios para a "sobrevivência" do governo é alcançada pelo confisco da poupança das famílias e pela derrama sobre o caixa gerado nas empresas. 
Ano após ano, as famílias deixam de fazer poupanças voluntárias e as empresas deixam de investir seus lucros, levados pelos escorchantes impostos que se recolhem ao longo do processo produtivo. O Estado extrator, ao contrário, quer sempre mais. 
Pior: os recursos extraídos da sociedade passam longe dos investimentos sociais e da melhoria da infraestrutura. Como a capacidade investidora do Estado é incomparavelmente menor que a dos contribuintes, trocamos avanços do setor privado pela debilidade investidora do Estado. Não é surpresa que nossa taxa de investimento seja a mais baixa entre todos os nossos vizinhos na região e uma das mais baixas do mundo emergente. 

Capa da revista britânica The Economist estampou o Brasil como um foguete descontrolado - de fato, a estátua do Cristo Redentor caindo do Corcovado, numa insólita expressão do humor trash dos britânicos.
A revista fazia referência a outra capa, de 2010, em que o Cristo Redentor decolava do morro, exprimindo a esperança dos estrangeiros na força investidora do Brasil naquele momento. Má avaliação e equívoco flagrante de prognóstico. 
O Brasil nunca contratou o progresso acelerado antevisto pela publicação inglesa. 

Estamos nos comendo por dentro. Apenas temos muito para devorar antes de fenecer. 
Não é progresso, é mera transferência da vitalidade de uma grande nação para um insaciável aparelho estatal que, no caminho, vai distribuindo "o peixe", em vez de entregar a vara de pescar. Minamos as chances de progresso verdadeiro. 
Mantemos, apesar da arrecadação pantagruélica, uma educação de baixa qualidade e um sistema de saúde pública de fancaria. Nada senão o excesso de gasto explica o mal que nos acomete. 

O diagnóstico do excesso da despesa pública é a grande razão por que as eleições de 2014 são tão importantes. O debate eleitoral poderá propiciar nossa última chance de constatar duas coisas: primeiro, quão distantes estão os candidatos de um diagnóstico verdadeiro do que realmente tem sufocado o progresso nacional; e, por fim, quão próximos ainda estamos de repetir, em 2014, mais um ato continuísta da trágica política econômica do "declínio". Para conter o avanço do Estado e resgatar as chances de progresso da sociedade brasileira é fundamental pactuar uma regra clara de crescimento da despesa corrente pública. 

(*) É economista e coordenador do Movimento Brasil Eficiente (www.brasileficiente.org.br).

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Os caças suecos e a lógica de supermercado

Oliveiros S. Ferreira (*) 

A solução dada ao problema da compra dos novos caças para a FAB deve ser observada num horizonte mais amplo. Cabe ao Comando da Força Aérea perceber que já há quem aponte, discretamente, que o governo gastará bilhões com a compra de equipamento militar enquanto populações civis sofrem e morrem em inundações e secas que se repetem. 

Procurando examinar a questão de perspectiva diferente da usual, o primeiro ponto para o qual desejo chamar a atenção é este: o tempo perdido na solução permite reafirmar que a "classe política" (tanto Executivo quanto Legislativo) não presta a mínima atenção aos problemas de Estado. Demorar tantos e tantos anos para decidir uma questão que afeta a defesa do território, das populações e do próprio Estado brasileiros apenas indica, quando não prova, que as questões de governo, às vezes as eleitorais, tiveram e ainda têm prioridade. Para não dizer que a política posta em prática nas últimas décadas - perdidas do ponto de vista estratégico - reforça a tese dos que veem principalmente na política militar dos governos do PT a clara intenção de deixar os problemas de defesa (consequentemente, os das Forças Armadas) em plano secundário. 

Um estagiário em informática de uma empresa qualquer que não cuidasse de copiar os arquivos antes de substituir o sistema dos computadores seria sumariamente demitido, pela simples e boa razão de que teria posto em risco toda a documentação arquivada. Observe-se que a decisão sobre a compra dos caças se deu poucos dias antes que os Mirages da FAB realizassem seu último voo. O que permite que se faça um raciocínio simples, partindo de algumas premissas administrativas, nada mais. 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Repulsa aos sócios

Celso Ming (*)  

Nas últimas semanas do ano, a diretoria da Petrobrás fez novo esforço para convencer o mercado financeiro de que adotou o procedimento correto para a recuperação dos preços dos derivados de petróleo. 

Mas continua a falta de transparência sobre as regras do jogo. Os subsídios ao consumidor, pagos, em última análise, pelo caixa da Petrobrás, não provocam estrago apenas na capacidade de investimentos e de endividamento da empresa. 

Já é fato mais do que conhecido de que a falta de equalização dos preços internos aos externos provoca enormes distorções. 

A primeira delas é a já mencionada deterioração das finanças da Petrobrás que pode levá-la a perder o grau de investimento dos seus títulos e, com isso, a ter de pagar juros mais altos nos novos empréstimos. 

Outra distorção é a desidratação que provoca em outro setor antes promissor da economia, o dos biocombustíveis, especialmente o do álcool e o do biodiesel. O achatamento dos preços impõe uma competição desleal aos seus produtores e os enfraquece. 

Uma terceira distorção tem a ver com a queima excessiva de combustíveis. Preços subsidiados artificializam o consumo e são uma das causas dos exasperantes congestionamentos de trânsito nas grandes cidades brasileiras. 

Mas há outra distorção, menos comentada. Trata-se da impossibilidade da Petrobrás em firmar parcerias para a construção de novas refinarias. Só os investimentos na construção da Refinaria do Nordeste (Abreu e Lima), cujo primeiro trem de refino deverá ser inaugurado em novembro de 2014, estão orçados em algo entre US$ 17 bilhões e US$ 20 bilhões. As refinarias construídas em décadas passadas estão tecnologicamente ultrapassadas e precisam tanto de reformas quanto de aumento da capacidade de produção. Além das duas refinarias em obras, ambas com atrasos, a Petrobrás prevê a construção de mais quatro unidades com capacidade para processar 1,2 milhão de barris de petróleo por dia. 

Os investimentos em novas refinarias não cumprem apenas o objetivo de garantir a geração de empregos internos. Em sete anos, a Petrobrás deve dobrar a produção de petróleo e de gás . Sem nova capacidade de refino, será obrigada a exportar petróleo bruto e, até 2020, a importar nada menos que 30% dos combustíveis consumidos no Brasil, obviamente a preços mais altos. 

A empresa já tem enormes investimentos programados nas áreas do pré-sal e quer sócios para os projetos de refinaria, como demonstrou no empenho em que procurou atrair capitais venezuelanos, que acabaram gorando. Mas, atenção, sem total transparência nas regras de preços dos derivados, não haverá interesse dos sócios em potencial. Nem mesmo governos estaduais se sentirão encorajados a juntar-se à Petrobrás em projeto de construção de refinaria, se depois tiverem de perder preço em consequência de uma política populista, como a adotada hoje pelo governo Dilma.

Isso significa que regras firmes e confiáveis de jogo não são apenas aspiração da diretoria da Petrobrás; são de interesse de Estado. 

(*) Jornalista é colunista econômico do jornal O Estado de São Paulo 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Há alguém de parafuso solto na GM

Elio Gaspari (*) 

Alguém está com um parafuso solto na diretoria da GM brasileira. Ela é presidida por Jaime Ardila, um quadro da elite da empresa. Ainda assim, na véspera do Ano Novo, mandou um telegrama a centenas de funcionários de sua unidade de São José dos Campos, informando-os que estavam desempregados. 

Podiam fazer isso na próxima semana, evitando o mal-estar nas famílias das vítimas. A medida não parece ter sido produto da pura malvadeza. Parece coisa pior. A montadora criou um fato social para pressionar o governo, que determinou o retorno gradativo da alíquota do IPI dos automóveis aos níveis de 2012. 

As empresas temem uma queda nas vendas. Segundo as montadoras, a volta do tributo poderá provocar um aumento médio de 2,2% no preço dos carros só com a mudança destes dias. 

A coincidência de datas, com as demissões ocorrendo junto com a restauração gradativa do IPI, sugere que nela está embutida a estratégia da tensão: você encarece meu carro, eu demito trabalhadores. Nos próximos meses o retorno do imposto elevará a alíquota para 7%. 

A GM está com um parafuso solto porque tem todos os argumentos para fechar uma de suas fábricas de São José dos Campos. Outras sete da região continuarão funcionando. A empresa investiu R$ 5,7 bilhões em quatro outras unidades e a carta das demissões estava no baralho desde janeiro de 2013. 

Foram dadas férias coletivas e licença remunerada aos trabalhadores que agora perderam o emprego. Nenhuma empresa pode ser obrigada a manter uma linha de produção que se mostrou inviável. Ademais, segundo a montadora, suas fábricas de São José dos Campos têm um custo de produção elevado. 

Até onde o sindicato dos trabalhadores finge surpresa, não se sabe. Já o Ministério da Fazenda entrou no lance com a parolagem típica do doutor Guido Mantega. Informou que um acordo com as empresas garantia que a elevação do IPI não provocaria alta nos preços, nem demissões de trabalhadores. 

Se alguém fez esse acordo, entrou nele achando que o outro era bobo. Ou ambos continuam tratando os consumidores como tolos. Numa época em que o governo da doutora Dilma faz mágicas fiscais, assiste-se à ressurreição da lorota dos acordos com empresários, coisa comum ao tempo em que se fabricava inflação. 


As montadoras não querem que o retorno da alíquota do IPI reduza suas vendas. Os consumidores também não querem carros mais caros, mas Brasília quer arrecadar, para gastar sabe-se lá onde. Essa é a discussão verdadeira. Demitir funcionários nos últimos dias do ano é chutar o cachorro manso. 

As manifestações de junho mostraram que houve uma mudança nos sentimentos do andar de baixo. O próprio doutor Ardila expôs a questão com clareza: “Não pedem a derrocada do governo. Pedem melhores serviços públicos. O que pode ser mais razoável?” A rua roncou contra governadores e prefeitos que subiram tarifas de transportes e mandaram a polícia cuidar do caso. (Geraldo Alckmin e Fernando Haddad foram para Paris, onde formaram uma dupla cantando “Trem das Onze” num ágape.) 

Salvo a ação de baderneiros, ninguém se mobilizou contra empresas. A turma de parafuso solto da GM e a guilda das montadoras desafia um ato do governo desempregando trabalhadores às vésperas do Ano Novo. Má ideia. 

(*) É jornalista.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Mistura tóxica: inflação, estagnação e crise fiscal

Rolf Kuntz (*)

Ninguém vai jogar a toalha. A inflação já estourou a meta, com 4,95% até novembro. A economia encolheu 0,5% no terceiro trimestre e cresceu apenas 2,3% em 12 meses. Mas a presidente Dilma Rousseff ainda poderá falar em vitória se o ano terminar com alta de preços inferior a 5,84%, resultado final de 2012, e expansão do produto em torno de 2,5%. Nessa altura, poucos lembrarão a maior parte dos micos de 2013, incluída a entrevista ao jornal El País, quando ela anunciou a revisão do crescimento do ano passado para 1,5%. Houve revisão, sim, mas de 0,9% para 1%, como informou nesta semana o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Talvez numa próxima correção apareça a taxa de 1,5%, mas quem se importará, além da presidente? 

Em qualquer país governado por gente comum, a mistura de crescimento econômico em torno de 2,5% com inflação acima de 5% seria considerada um desastre. Neste Brasil de governantes incomuns, as autoridades torcem por esse resultado. Que mais poderiam ambicionar, neste momento? Além disso, cantam vantagem, apontando países com crescimento menor, mas, curiosamente, em posição bem melhor na escala de risco de crédito. Agências de classificação cometeram erros notáveis nos últimos 20 anos, mas seus critérios, de modo geral, fazem sentido e suas avaliações são levadas a sério no setor financeiro. 

No mercado, todo mundo sabe do risco de rebaixamento da nota do Brasil. O ministro da Fazenda até já se mostrou preocupado com essa possibilidade. Mas nem por isso decidiu cuidar seriamente das contas públicas, admitir os problemas e pôr de lado a contabilidade criativa e a política de remendos fiscais. Há poucos dias o ministro desistiu de mais uma operação para maquiar as contas federais - uma jogada com participação da Caixa e da Eletrobras. Mas só mudou de ideia quando uma reportagem do Valor escancarou a manobra e toda a imprensa foi atrás da história. A armação de um lance desse tipo havia sido mencionada algum tempo antes na cobertura do Estado. 

Segundo o plano, a Caixa financiaria, com garantia do Tesouro, pagamentos devidos por subsidiárias do setor de energia a um fundo setorial. Isso pouparia ao Tesouro uma transferência de R$ 2,6 bilhões. Assim ficaria um pouco mais fácil obter o superávit primário de R$ 73 bilhões prometido pelo ministro. Se o governo alcançar esse resultado, será principalmente graças a manobras e a receitas extraordinárias, como os bônus de concessões de infraestrutura e as parcelas do programa de refinanciamento de dívidas tributárias, o Refis. Este programa deverá render uns R$ 20 bilhões. Só a Vale deverá entrar com uns R$ 6 bilhões nessa coleta. E só o bônus do leilão do campo de Libra, no pré-sal, deverá proporcionar R$ 15 bilhões. A soma desses valores garantirá quase metade do resultado primário fixado para o governo central. 

O desarranjo das contas públicas tem sido apontado como um dos principais fatores da inflação. A alta de preços está obviamente vinculada ao descompasso entre a demanda e a oferta interna, reconhecido por boa parte dos analistas e de novo mencionado na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom/BC). O presidente do BC, Alexandre Tombini, citou num discurso, nesta semana, o recuo das taxas acumuladas de inflação, mas é necessário muito otimismo para festejar os números conhecidos. 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Desarmados e endividados

Alexandre Garcia (*) 

Nunca antes na História deste país o brasileiro esteve tão endividado. Só para os bancos, os brasileiros estão devendo 1 trilhão e 215 bilhões de reais. Isso no mês das compras de Natal e no mês do 13º salário. Aliás, a soma das dívidas com os bancos é oito vezes o montante que os brasileiros vão receber como 13º. São dados do Banco Central. Os juros são altíssimos. O do cheque especial é de 149% ao ano - quer dizer, duas vezes e meia o valor da dívida. Quem tirou mil reais fica devendo 2.500 ao fim de um ano. 

A dívida do crédito rotativo pelo cartão, segundo o Banco Central, tem o astronômico juro de 194% ao ano. Ou seja, ao fim de um ano, a dívida quase triplica. Mil reais se convertem em 2.940,00. No empréstimo pessoal, o juro é de 45% ao ano, em média. Tirou mil, devolve 1.450. O financiamento bancário para comprar automóvel é o menos exorbitante: 21,7% ao ano, em média. É para o governo estimular a indústria automobilística, além da redução do IPI. Nos últimos 10 anos, a frota de veículos subiu de 35 milhões para 80 milhões, mas os veículos não têm como circular livremente nem dispõem de área para estacionar. O caos no trânsito desestimula as pessoas a sair de casa. 

E o governo estimula as pessoas a se endividar. Quando era presidente, Lula apelava aos brasileiros para que continuassem comprando. O Brasil teve crescimento com base no consumo, mas agora a capacidade de comprar está se esgotando. Os bancos oficiais oferecem crédito. Fazem propaganda como se o crédito fosse uma mercadoria essencial, como se vê na publicidade do Banco do Brasil, do BNDES e da Caixa Econômica. A Caixa chega a fazer propaganda de uma contravenção: o jogo de azar - e estimula as pessoas a contraírem o vício do jogo. 

Enquanto isso, o governo finge não ter entendido a mensagem do referendo sobre desarmamento, em que dois em cada três eleitores foi contrário à proibição do comércio de armas. No país sem segurança, as pessoas precisam exercer seu direito de defesa. Nos Estados Unidos, onde toda família tem arma em casa, ninguém invade residência e os homicídios são 15 mil por ano, em 300 milhões de habitantes. Aqui, com as restrições às armas, os bandidos ficam à vontade e há 50 mil homicídios em 200 milhões de habitantes. Querem que sejamos cidadãos desarmados e endividados. Será que assim enfraquecidos seremos mesmo cidadãos ou cordeirinhos? 

(*) Jornalista sediado em Brasília

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Quando existe a consciência dos gastos de quem paga a conta

Cidadãos de Munique dizem “não” aos Jogos Olímpicos 

Jamil Chade (*)  para o Estado de São Paulo 

Munique não sediará os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022. O problema não foi a falta de dinheiro, falta de tradição nos esportes e nem a falta de infraestrutura. O motivo foi o “não” da população ao projeto cujo valor era incerto e que, no final das contas, quem pagaria seriam os contribuintes. Numa votação realizada no final de semana, os habitantes de uma das cidades mais ricas da Europa foram às urnas votar se queriam ou não o evento. A decisão foi de rejeitar o projeto, numa atitude que está tendo um forte impacto e começa a ser considerada como um exemplo a ser seguido em outros países democráticos. 

Em diversas partes do mundo as autoridades, políticos e cartolas insistem que Jogos Olímpicos e Copa do Mundo são eventos que todos adorariam ter em suas cidades. Mas a realidade é que poucos tem a coragem de submeter esses projetos aos eleitores.

Em Munique, o resultado apontou para uma vitória do não com mais de 52% da população rejeitando a ideia. Ludwig Hartman, deputado do Partido Verde e líder do grupo que se opunha ao projeto, o voto não foi um sinal “contra o esporte”. “O voto foi um sinal contra a não-transparência, a cobiça e os lucros do COI”, insistiu. 

Para as federações que queriam o evento, o “não” significará que a Alemanha por anos não terá um grande evento esportivo internacional e vem justamente no ano que um alemão, Thomas Bach, se transforma no novo presidente do COI. 

Até a próxima quinta-feira, cidades interessadas em sediar o evento teriam de apresentar suas candidaturas. Sem a candidatura alemã no páreo, as favoritas são Oslo, Lviv (Ucrânia) e Pequim. 

A iniciativa de Munique começa a ganhar espaço. Populações em diversas partes da Europa acompanharam de perto o voto, justamente como exemplo do que poderão exigir da próxima vez que Paris, Roma ou Madri tentem sediar grandes eventos. 

Em um editorial, o Financial Times também elogiou a votação e apontou que a medalha de ouro já tem dono: Munique e sua iniciativa de consultar a população que, certamente, seria quem pagaria pelo evento. 

Imagina na Copa… 

(*)  Bacharel em Relações Internacionais pela PUC-SP e Mestre em Política Internacional pelo Instituto de Altos Estudos de Genebra

sábado, 26 de outubro de 2013

No setor externo, um desastre made in Brazil

Rolf Kuntz (*) 

A presidente Dilma Rousseff deve terminar o ano com mais um troféu econômico, o pior resultado das contas externas em mais de uma década - exportações estagnadas, importações em alta e um enorme buraco na conta corrente do balanço de pagamentos. Nos 12 meses terminados em setembro o déficit na conta corrente chegou a US$ 80,51 bilhões, equivalentes a 3,6% do produto interno bruto (PIB), informou nesta sexta-feira o Banco Central (BC). No relatório recém-divulgado foram mantidas as projeções para 2013: saldo comercial de US$ 2 bilhões, déficit em conta corrente de US$ 75 bilhões (3,35% do PIB) e investimento estrangeiro direto de US$ 60 bilhões. Alguma melhora será necessária, portanto, para se chegar ao fim de dezembro com o cenário estimado pelo BC. Um quadro mais positivo, neste e no próximo ano, dependerá principalmente de uma recuperação da balança comercial e nesse quesito o País continua muito mal. 

A exportação rendeu neste ano US$ 192,59 bilhões até a terceira semana de outubro, 1,1% menos que no ano passado em igual período. A importação consumiu R$ 193,19 bilhões, 8,7% mais que um ano antes, segundo os dados oficiais. O saldo acumulado em quase dez meses, US$ 605 milhões, só foi possível graças ao resultado favorável obtido nas três primeiras semanas do mês, um superávit de US$ 1 bilhão. Mas esse resultado embute uma exportação meramente contábil de uma plataforma de petróleo no valor de US$ 1,9 bilhão. Outras plataformas foram contabilizadas nos meses anteriores, mas foram sempre vendas fictícias, vinculadas à concessão de benefícios fiscais. 

Se esses números fossem eliminados, o quadro do comércio exterior brasileiro, já muito feio pelos números oficiais, seria bem menos favorável. Para acertar as contas seria também preciso, poderiam dizer os mais otimistas, eliminar as importações de combustíveis efetuadas em 2012 e registradas só neste ano graças a um arranjo especial da Petrobrás. É verdade, mas é indispensável lembrar uma diferença entre essas compras e as vendas de plataformas. Estas só ocorreram na contabilidade, mas as compras de combustíveis foram realizadas e seria necessário incluí-las nos cálculos em algum momento. Se tivessem entrado nas contas do ano passado, o superávit comercial teria ficado bem abaixo dos US$ 19,41 bilhões divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. 

Se as projeções do BC estiverem corretas, o Brasil vai faturar neste ano US$ 241 bilhões com as vendas ao exterior. O gasto com produtos estrangeiros chegará a US$ 239 bilhões. O valor exportado será 0,6% menor que o do ano passado e 5,8% inferior ao de 2011. A importação terá custado cerca de 7% mais que em 2012 e 5,6% mais que dois anos antes. A deterioração é inegável e a causa mais importante é o enfraquecimento da indústria brasileira, por falta de investimentos, aumento de custos e dificuldade crescente para enfrentar uma disputa mais dura em mercados mais apertados. Isso vale para o mercado nacional. 

As medidas protecionistas impostas pelo governo foram insuficientes para barrar o ingresso de produtos estrangeiros. Além do mais, nenhuma barreira tornaria os produtores brasileiros mais capazes de competir fora das fronteiras, mesmo em áreas antes consideradas campos de caça tranquilos, como o Mercosul e a maior parte da vizinhança. Também na região outros produtores têm conseguido ocupar espaços crescentes sem muita oposição brasileira. 

Quando se aponta a piora do balanço de pagamentos - especialmente da balança comercial -, ministros costumam citar a acumulação de reservas para mostrar a segurança do setor externo. Mesmo com intervenções no mercado cambial, como reação às turbulências do meio do ano, o BC conseguiu, graças a uma estratégia bem desenhada, evitar a perda de moeda estrangeira e preservar mais de US$ 370 bilhões. Esse é, sem dúvida, um importante fator de segurança, mas de nenhum modo pode substituir a eficiência produtiva e os acordos internacionais favoráveis à expansão do comércio. 

A política brasileira tem falhado nas duas frentes. A deficiência de investimentos, o desperdício de recursos, o erro na escolha de prioridades (na política educacional, por exemplo) têm dificultado ganhos gerais de produtividade. Se as concessões derem certo, a taxa de investimentos chegará a 22,5% do produto interno bruto até 2018, segundo estimativa do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Muitos países latino-americanos já estão acima desse padrão, enquanto a taxa brasileira continua oscilando entre 18% e 19%. 

Como as condições de produção foram geralmente negligenciadas nos últimos dez anos, a começar pela infraestrutura, o potencial de crescimento diminuiu, como seria previsível. Hoje esse problema é assunto da pauta internacional, pouco importando os desmentidos e esperneios do governo brasileiro. 

Na outra frente, a escolha das parcerias prioritárias, também se acumularam erros desastrosos. A diplomacia comercial pôs no alto da agenda a aproximação com mercados pouco importantes, com exceção do chinês. Mas o comércio com a China virou uma relação semi colonial, com o Brasil praticamente limitado a vender commodities, em geral de pouca ou nenhuma elaboração, e a importar manufaturados. 

Os imperialistas, desprezados pela diplomacia de passeata dos governos petistas, continuam como compradores relevantes de manufaturados - e poderiam comprar muito mais se tivessem sido assinados acordos de livre-comércio. Mas nem todos criticam a estratégia comercial brasileira e o desprezo petista aos grandes mercados. No caso dos chineses e outros exportadores realistas e dinâmicos, a fantasia terceiro-mundista vivida em Brasília nos últimos dez anos elimina um possível competidor de peso. 

(*) Jornalista

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Palácio e os ‘movimentos sociais’

Demétrio Magnoli (*) 

“É um absurdo vender isso. A sociedade não participou do debate sobre o tema. Nossa tentativa é sensibilizar o governo para negociar e discutir”. 

As sentenças, de Francisco José de Oliveira, diretor da Federação Única dos Petroleiros (FUP), referiam-se ao leilão de Libra, na faixa do pré-sal. Mas a lógica subjacente a elas, expressa na segunda frase, nada tem de singular. 

Nas duas últimas décadas, os “movimentos sociais” repetem aborrecidamente a ladainha sobre “a sociedade” excluída do “debate”, enquanto invadem órgãos públicos em nome da “participação”. Vivemos nos tempos do super corporativismo, um ácido corrosivo derramado sobre o material de nossa democracia. 

O Brasil moderno nasceu, pelo fórceps de Getúlio Vargas, sob o signo do corporativismo. A “democracia social” do Estado Novo cerceava os direitos do indivíduos, subordinando-os a direitos coletivos. 

Na definição do historiador Francisco Martinho, “o cidadão nesse novo modelo de organização do Estado era identificado através de seu trabalho e da posse de direitos sociais e não mais por sua condição de indivíduo e posse de direitos civis ou políticos” (“O corporativismo em português”, Civilização Brasileira, 2007, p. 56).

Inspirado no salazarismo português e no fascismo italiano, o corporativismo varguista organizou a sociedade como uma família tripartida: governo, sindicatos patronais e sindicatos de trabalhadores. O super corporativismo, uma obra do lulopetismo, infla o balão do corporativismo original até limites extremos.