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sábado, 18 de abril de 2015

Tenho pressa, Santo Expedito

Alexandra Prado Coelho (*) 

São sete da noite de quarta-feira. O Chiado parece igual a qualquer outro dia. 
As esplanadas estão cheias apesar do frio, há turistas a fotografarem-se ao lado da estátua de Fernando Pessoa, há gente a olhar os livros na montra da Bertrand, outros a observar discretamente um homem-estátua. Há dois rapazes a dançar break-dance em frente à estátua do poeta Chiado. 

Mas eu vim para ir à igreja. Ou melhor, às igrejas. Passo em frente delas centenas de vezes e raras vezes entro. Nossa Senhora da Encarnação, do lado direito de quem vai descer o Chiado. Em frente dela, ligeiramente mais elevada, Nossa Senhora do Loreto, a igreja dos italianos. E à frente, um pouco mais a baixo, a Basílica dos Mártires. 

É quase hora da missa, e em cada uma estão meia dúzia de pessoas sentadas nos bancos, em silêncio. Algumas rezam. A Nossa Senhora do Loreto está um pouco mais vazia, um pouco mais escura, o tecto a precisar de restauro. Mas, tal como nas outras duas, é um mundo de altares, de figuras, de pormenores, e só o fraco ruído de vozes que entra por uma frincha da porta lateral nos recorda que lá fora é o Largo Camões. 

A Basílica dos Mártires é a mais grandiosa. Compro um desdobrável que conta a antiquíssima história, desde a sua fundação como pequena ermida, logo em 1147, o ano da conquista de Lisboa aos mouros por D. Afonso Henriques. Relata o texto que a intenção era nela “ser prestado culto à sagrada imagem de Nossa Senhora, trazida pelos Cruzados ingleses, diante da qual o Rei Afonso pediu auxílio e protecção à Mãe de Deus para conseguir aquilo que se propunha: fazer de Lisboa uma cidade cristã”. Foi chamada dos Mártires em memória dos soldados cristãos que morreram em combate. 

Apesar de a igreja barroca que existia antes do terramoto ter sido totalmente destruída na tragédia de 1755, ainda vemos, ao lado esquerdo de quem entra, a pia baptismal vinda da primitiva basílica. Numa placa na grade de ferro lê-se que “nesta paróquia se administrou o primeiro baptismo depois da tomada de Lisboa aos mouros”. 

Mas o mais surpreendente é a pequena estátua do Mártir Santo Expedito, do lado direito, quase totalmente coberta de ex-votos, pequenas placas metálicas agradecendo as graças concedidas. Muitas são de mães, ou de avós, que agradecem pelos filhos ou netos. Raramente aparece descrita a graça que foi concedida e em muitas apenas uma palavra: “Obrigado.” Procuro as mais antigas. Encontro algumas da década de 50, mas há outras em que as letras já não se decifram, e que podem ser anteriores. 

Quem era Santo Expedito? Um militar romano e cristão martirizado no século IV na Arménia, tendo sido decapitado com uma espada. Aparentemente é uma figura misteriosa, da qual se sabe pouco e que alguns questionam se terá mesmo existido (até sobre o nome há diferentes versões). Na Basílica dos Mártires, reparo que a cruz que segura na mão tem gravada a palavra “Hodie” — uma das lendas em torno deste santo é a de que terá sido tentado por um corvo que gritava “Cras! Cras!” [“amanhã!” em latim] numa tentativa de adiar a sua conversão ao cristianismo. Em resposta, Expedito terá dito: “Hodie! [hoje!]” 

E, no entanto, apesar de todas as dúvidas e lendas, é objecto de grande devoção em muitos países. Para o povo, ele não só existiu como continua a ajudar todos aqueles que lhe pedem. Expedito é, como o nome indica, o santo das causas urgentes. 

Mas a informação mais inesperada que encontro na Internet é que Expedito foi também adaptado como o santo dos hackers e dos nerds. Um texto da revista Wired, que parte de uma reportagem sobre este culto em Nova Orleães, conta que “a Igreja Católica não sabe o que fazer ao Santo Expedito, que é demasiado pagão para ser um verdadeiro santo, e demasiado popular para que as suas estátuas sejam simplesmente atiradas porta fora”. 

Segundo o artigo, em 2002, a Igreja propôs que São Isidoro de Sevilha fosse o santo dos programas de computador (terá sido ele a criar uma das primeiras bases de dados do mundo, no século VII, uma enciclopédia que pretendia reunir todo o saber do mundo). 
Mas aparentemente os hackers preferem o Santo Expedito. Nos tempos da Internet, um santo que concede as suas graças rapidamente tem grandes vantagens. 
Como explica uma das pessoas citadas pela Wired: “Um amigo meu diz que o Santo Expedito tem tudo a ver com fazer passar informação rapidamente.”
Não é isso que queremos? 

(*) Jornalista portuguesa do Jornal Público

domingo, 1 de março de 2015

Uma carta de São Paulo para o Rio de Janeiro

Fábio Santos (*) 

“Olá querida irmã 

Estou muito feliz que tenha chegado tão bem aos teus 450 anos. 

Sei que é uma data importante e venho por meio desta carta te parabenizar. 

Sei que muita gente anda dizendo que não nos damos bem e que somos completamente diferentes, mas não ligue para isso, pois, apesar de nossos desentendimento, te quero muito bem. 

Sei que te chamam de Cidade Maravilhosa enquanto me apelidam de Pauliceia desvairada, mas és realmente muito linda e eu um pouco amalucada. 

Não deixo essas eternas comparações interferirem no afeto que existe entre nós. 
Como mais velha, muita gente me vê como sisuda e dura. 

Por outro lado, você – como todo irmão mais novo – é paparicado e às vezes até mimado. Mas em toda família é assim, não é mesmo? Uma mistura de admiração, ciúmes e disputa. 

Nossa última briguinha foi, veja só, por causa de água. 
Mas teve aquela sobre a morte do samba, do melhor futebol e aquela muito triste de 1932. Mas tudo bem, são águas passadas. 

Apesar de você ser 11 anos mais nova, fico orgulhosa de suas conquistas tão precoces 
Tem coisas que eu nunca consegui e confesso que lhe invejo, como ser capital federal, sediar a final de uma copa e até uma Olimpíada. 

Mas ostento com orgulho o palco da independência de nosso país, um dos capítulos mais importantes do Brasil 

Sei também que ambas possuem muitos motivos para lamentar, principalmente no que diz respeito aos nossos cidadãos da periferia, ou, no teu caso, do subúrbio. 
Temos muito a aprender uma com a outra e, juntas, poderemos evoluir com maior facilidade. 

Por fim, fico feliz em saber que muitos dos meus encontraram um lugar para morar por aí, da mesma maneira que recebo de braços abertos teus filhos. Irmãzinha, continue sempre assim: jovem, irreverente e maravilhosa. 

Em 450 anos, você fez o mundo inteiro te admirar e cantar o seu nome. 
Estou muito orgulhosa. 

Com carinho, da sua irmã mais velha 

São Paulo “ 

(*) Jornalista e paulistano

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Controle de emissoras por políticos leva à falsificação da democracia

Carlos Gustavo Yoda (*) para CartaCapital 

Nesta segunda reportagem da série sobre os “coronéis da mídia”, vamos mostrar o que diz a legislação brasileira sobre o controle de emissoras de rádio e televisão por políticos e o que pode e vem sendo feito pelas organizações de defesa do direito à comunicação acerca das ilegalidade praticadas. 

Desde 2011, tramita no Supremo Tribunal Federal uma ação, intitulada Arguição por Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), elaborada pelo Intervozes, em parceria com o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), que pede a declaração de inconstitucionalidade à concessão de outorgas de radiofusão a emissoras controladas por políticos. A arguição - “acusação”, para desembrulhar o juridiquês, também afirma que, desde a posse, os parlamentares não podem mais ser proprietários, controladores ou diretores de empresa que goze de favor decorrente de contrato com pessoa jurídica de direito público, ou nela exercer função remunerada. Assim, defende como inconstitucional o ato de posse desses radiodifusores eleitos, pelo fato de os mesmos não terem deixado, antes, o controle de suas emissoras. 

A base da ADPF 246 é o artigo 54 da Constituição, que aponta, em seus dois primeiros parágrafos, como fundamento da República, que deputados e senadores não podem firmar ou manter contrato com pessoa jurídica de direito público, autarquia, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviço público. 
Além deste artigo, a ação também entende que a prática do coronelismo eletrônico viola o direito à informação (artigo 5º e 220 da Constituição Federal), a separação entre os sistemas público, estatal e privado de comunicação (art. 223), o direito à realização de eleições livres (art. 60), o princípio da isonomia (art. 5º) e o pluralismo político e o direito à cidadania (art. 1º). 

Além da Constituição Federal, o artigo 38 do Código Brasileiro de Telecomunicações, principal lei de rege o setor, aponta, em seu parágrafo primeiro, que não pode exercer a função de diretor ou gerente de concessionária, permissionária ou autorizada de serviço de radiodifusão quem esteja no gozo de imunidade parlamentar ou de foro especial. 

No entanto, a ADPF cita mais de 40 deputados federais e senadores, da atual legislatura, que controlam diretamente pelo menos uma emissora de rádio ou televisão em seu estado de origem. A tese da ação aponta diferentes órgãos como responsáveis pela ilegalidade. Em primeiro lugar, o Ministério das Comunicações e a Presidência da República, por concederem outorgas a empresas que não poderiam recebê-las e pela omissão na fiscalização das emissoras; o Congresso Nacional, também responsável pela autorização e renovação das outorgas e pela diplomação dos parlamentares; e o Poder judiciário, também responsável pela diplomação de candidatos eleitos. 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O silêncio de todos nós

Milton Pires (*) 

Meus amigos: 

Trabalhando desde junho de 2010 na UTI do Hospital Nossa Senhora da Conceição em Porto Alegre, minha contínua luta contra as barbaridades feitas contra a saúde pública no Brasil são do conhecimento de todos. 
No início de 2013, Ricardo Setti publicou em seu blog no site de VEJA o artigo com o título “Santa Maria e a Guerra do Vietnam”, uma séria advertência sobre a vinda dos médicos cubanos. Depois de “Carta à Presidente Dilma” e de outros textos publicados tanto no meu blog “Ataque Aberto” quanto no grupo de Facebook “Inglourious Doctor”, comecei a pagar, pessoalmente e profissionalmente, o preço das minhas opiniões políticas. 

Assassinar reputações de inimigos não é uma prática nova da esquerda brasileira. 
O doutor Romeu Tuma Júnior provou isso em seu livro. 
Trabalhando num grupo hospitalar que atende 100% dos pacientes pelo SUS, no qual entrei por concurso público e que é controlado por gente do PC do B, não é necessário ser um teórico da conspiração para compreender e admitir o que acontece quem se opõe ao modelo de gestão de saúde no Brasil. Antiga, mas eficiente, a tática é sempre a mesma – mau desempenho nas avaliações funcionais e relatos de conflitos e dificuldade de relacionamento no local de trabalho funcionam como estopim dos processos administrativos em que se pretende “limpar” o serviço público dos opositores. 

Neste 22 de setembro, chegando ao Hospital Conceição para trabalhar na UTI, fui notificado de que meu ponto estava “suspenso”. Encaminhado ao setor de RH, fui informado de que eu mesmo, como médico, estou suspenso do hospital por 60 dias, sem perda de remuneração. Argumenta a instituição que isso visa não prejudicar o processo administrativo disciplinar (PAD número 51/14, que tem como objetivo a minha exoneração. Desconheço os termos de acusação. 
Não sei ao que respondo e não tive, até agora, nenhuma chance de defesa. 

Em apelação administrativa de avaliação funcional prévia considerada muito insuficiente, testemunhas identificadas como “trabalhador da saúde 1,2,3,4..etc..” me acusam de “não examinar os pacientes, não lavar as mãos, de conflitos com familiares de pacientes da UTI , de jogar equipamentos no chão e não usar equipamentos de proteção individual”. 
Não sei, oficialmente, o nome de NENHUMA das pessoas que disseram isso naquele processo. Não lhes foi exigida prova alguma para que declarações que acabaram com a minha vida funcional se transformassem em VERDADES corroboradas por meus chefes. 

O que está acontecendo comigo não é exceção; é a regra aplicada aos médicos brasileiros que decidem contestar a maneira com que essa gente conduz a saúde pública. 
Minhas chances no processo administrativo, do qual sequer tenho cópia, não são muitas. Acredito que haja alguma alternativa na Justiça comum. Neste momento, resta-me apelar àquilo que essa gente mais teme: a publicidade, a divulgação em massa pela imprensa do que se pretende fazer em silêncio. Eles são especialistas em assassinar reputações, apoiados no total aparelhamento do serviço público e terror infundido nos seus subordinados. Os efeitos são garantidos por por lei. 
A Lei do Silêncio de todos nós. 

(*) É médico em Porto Alegre

sábado, 23 de agosto de 2014

Ex-médico Abdelmassih cumprirá 30 anos de prisão?

Luiz Flávio Gomes (*) 

Roger Abdelmassih foi condenado (por ora) a 278 anos de prisão, por ter cometido 52 estupros e atentados ao pudor contra suas pacientes. O ex-médico era um famoso especialista em reprodução assistida. Uma ex-funcionária foi a primeira que o denunciou. Diversas pacientes dele confirmaram os delitos e afirmam que eram atacadas quando estavam sozinhas ou sedadas. Fugiu do país em 2011 e acaba de ser preso em Assunção, no Paraguai. 

Mesmo que sua condenação esteja em grau de recurso, a prisão preventiva nesse caso é absolutamente necessária e constitucionalmente legítima. Nenhum juiz do país deixará de manter essa prisão preventiva (certamente), depois de ele ter fugido do país. 
O risco de nova fuga é evidente e patente. Caso típico de prisão cautelar. 

A pena total pode ter alguma redução nos julgamentos dos recursos ou na vara das execuções criminais. De qualquer modo, a pena total ainda será muito alta, em virtude da enorme quantidade de crimes. Tendo em vista a exorbitância da pena, estamos diante de um caso que poderá eventualmente significar o cumprimento do máximo previsto no Brasil: 30 anos (em regime fechado, para se evitar nova fuga).

Levando em conta o total de 278 anos, ele não terá direito a nenhum benefício penal. Quando a pena passa de 30 anos, na vara das execuções se faz a unificação delas para 30. Mas essa unificação, de acordo com a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (súmula 715), só serve para se saber a data máxima da execução, não sendo considerada para a concessão de outros benefícios, como livramento condicional ou progressão de regime. 

Qualquer tipo de benefício penal, portanto, deve ser computado — de acordo com o STF — pelo total da pena (não em cima dos 30 anos). Os crimes cometidos, de outro lado, são hediondos (estupro e atentado violento ao pudor). 

Nos crimes hediondos, o réu deve cumprir 40% da pena para conquistar o direito de progressão. Mas 40% de 278 anos significam 111 anos (há impossibilidade física e jurídica desse cumprimento). Mesmo que haja redução do total, a pena ainda será muito alta (40% sobre uma pena alta significa muito tempo). 

O caso, portanto, é de um possível cumprimento efetivo dos 30 anos, se a natureza permitir isso ao réu, que já tem 70 anos de idade. Não terá direito de saídas temporárias, que são válidas para o regime semiaberto e depois do cumprimento de 1/6 da pena. 
Não tem direito à prisão domiciliar, porque o regime fechado não a permite (somente o regime aberto). 

Até mesmo os indultos natalinos exigem o cumprimento de uma boa parte da pena. Qualquer que seja o percentual exigido no decreto presidencial, será sempre muito alto (em razão do total do castigo). 

(*) Jurista  é fundador da primeira rede de ensino telepresencial da América Latina.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Diagnóstico de depressão

Drauzio Varella (*) 

Depressão é a tristeza quando não acaba mais. É uma doença que ataca tão subrepticiamente, que a maioria dos que sofrem dela nem percebem que estão doentes. De cada dez pessoas que procuram o médico, pelo menos uma preenche os requisitos para o diagnóstico de depressão. 

Do início insidioso, a depressão evolui continuamente para quadros que variam de intensidade e duração. Nos casos mais simples, a pessoa pode curar-se por conta própria em duas a quatro semanas. Passado esse período sem haver melhora, os especialistas recomendam atenção e tratamento, porque a depressão prolongada pode levar a suicídio e mortes por causas naturais. 

Para ajudá-lo a identificar os sintomas da depressão acompanhe o algoritmo abaixo, retirado da quarta edição do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV): 

1) Durante o último mês, você esteve frequentemente chateado por se sentir deprimido e desesperançado? 

2) Durante o último mês você esteve frequentemente chateado por sentir falta de interesse nas atividades? 

Se a resposta foi não a ambas as perguntas, é pouco provável que você tenha depressão. Mas, se uma das respostas foi sim, esteja atento a outros sintomas da doença. 

O diagnóstico de depressão requer a presença de cinco ou mais dos seguintes sintomas que incluam obrigatoriamente espírito deprimido ou anedônia, durante pelo menos duas semanas, provocando distúrbios e prejuízos na área social, familiar, ocupacional e outros campos da atividade diária. 

1) Estado deprimido: sentir-se deprimido a maior parte do tempo, quase todos os dias; 
2) Anedônia: interesse ou prazer diminuído para realizar a maioria das atividades; 
3) Alteração de peso: perda ou ganho de peso não intencional; 
4) Distúrbio de sono: insônia ou hipersônia praticamente diárias; 
5) Problemas psicomotores: agitação ou apatia psicomotora, quase todos os dias; 
6) Falta de energia: fadiga ou perda de energia, diariamente;
7) Culpa excessiva: sentimento permanente de culpa e inutilidade; 
8) Dificuldade de concentração: habilidade frequentemente diminuída para pensar ou concentrar-se; 
9) Idéias suicidas: pensamentos recorrentes de suicídio ou morte. 

De acordo com o número de itens respondidos afirmativamente, o estado depressivo pode ser classificado em três grupos: 

1) Depressão menor: 2 a 4 sintomas por duas ou mais semanas, incluindo estado deprimido ou anedônia; 
2) Distimia: 3 ou 4 sintomas, incluindo estado deprimido, durante dois anos, no mínimo; 
3) Depressão maior: 5 ou mais sintomas por duas semanas ou mais, incluindo estado deprimido ou anedônia.

(*) Médico oncologista, cientista e escritor formado pela Universidade de São Paulo 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Toddynho está contaminado por bactéria

Drauzio Varella (*) 

Um dos achocolatados mais consumidos no País, principalmente por crianças, está contaminado. Segundo a empresa Pepsico, fabricante do Toddynho, 8 mil unidades do produto, do lote fabricado no dia 2 de junho e com validade até 29 de novembro, estão contaminadas com a bactéria Bacillus, responsável por causar intoxicação alimentar, cujos sintomas são enjoo, vômitos e diarreia. 

O bacilo, que se desenvolve devido ao resfriamento inadequado do produto, foi detectado em análises químicas realizadas pela empresa. A retirada da bebida foi cogitada após dois consumidores do Rio Grande do Sul relatarem, há duas semanas, alterações no sabor do achocolatado e problemas de saúde após o consumo. 

A Pepsi admitiu alteração nos padrões de controle de qualidade e erro na distribuição do lote, que estava bloqueado no centro de distribuição. 

Embora o lote represente menos de 0,5% do que é comercializado mensalmente no estado, é importante ficar atento à embalagem: tanto a empresa quanto a vigilância sanitária de Porto Alegre frisam que a leva GRU L 15 não deve ser consumida. 

Os clientes que adquiriram esse lote devem entrar em contato com o SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor) da Pepsi para a substituição da bebida, sem custo. 
O contato também pode ser feito pelo telefone 0800 703 2222 ou pelo e-mail sactoddynho@pepsico.com. O horário de atendimento telefônico é das 8h às 20h, de segunda a sexta, e das 8h às 14h aos sábados. Esse não é o primeiro caso de contaminação do produto. Em 2011, 80 mil unidades de Toddynho foram recolhidas dos supermercados por causa da presença de detergente na composição da bebida, fabricada em Guarulhos (SP) e distribuída no Rio Grande do Sul. Na época, 32 ocorrências de intoxicação foram notificadas. 

(*) Médico oncologista, cientista e escritor , formado pela Universidade de São Paulo

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Qualidade musical da safra dos anos 60 e 70 dificilmente será repetida

Toquinho para UOL 

Em seus variados gêneros, a música brasileira sempre foi envolvente, por sua estrutura técnica, por sua essência popular e pelo talento de seus compositores e intérpretes. 

No fluir do tempo e na diversificação dos ritmos, o povo reconhecia a energia nordestina de Luiz Gonzaga, a bossa de Noel Rosa e o eruditismo caipira de Villa-Lobos como eco de seus sentimentos. 

Vibrava com a dolência de Pixinguinha, a brasilidade de Ary Barroso e a simplicidade de Cartola e Nelson Cavaquinho. Sofria com as angústias de Dolores Duran, se apaixonava com a ternura de Lúcio Alves e Dick Farney e se enternecia com a malemolência de Dorival Caymmi. 

Envolvia-se tanto com os arroubos emocionais de Maysa e Lupicínio Rodrigues quanto com a expansividade de Emilinha Borba e Marlene e a suavidade de Elizeth Cardoso, adotando Orlando Silva, Francisco Alves, Silvio Caldas, Cauby Peixoto, Angela Maria e Nelson Gonçalves como guardadores de seu coração. 

Então, a qualidade dessa profusão melódica que tinha o samba tradicional como eixo rítmico começava a extravasar de uma forma diferente nas inflexões vocais de Agostinho dos Santos e nas harmonias dissonantes de Johnny Alf, já prenunciando o que viria a seguir no cenário musical brasileiro. 

Bossa Nova 
Quando Vinicius de Moraes convidou Antonio Carlos Jobim para musicar os poemas da peça "Orfeu da Conceição", em 1956, não imaginava que estava criando um marco de qualidade na história da música popular brasileira. Num admirável ímpeto de criatividade, criaram belezas musicais que invadiam os ouvidos da gente com uma sofisticada simplicidade. 

A música se fazia mais bela em seus quatro componentes: melodia, harmonia, poesia e ritmo. A melodia de Tom trazia informações harmônicas e estruturais de Debussy, de Ravel e de Villa-Lobos. Acrescentou-se a essa nova melodia expressões poéticas também inovadoras, carinhosas, ditas no diminutivo, coisas de um poeta bem-humorado, sensível, preocupado não apenas com a métrica. 

Toda essa transformação vinha embutida na canção "Chega de saudade" e na inovadora batida do violão de João Gilberto anunciando a morada da Bossa Nova. Havia na expressão Bossa Nova uma filosofia universal que a visão poética de Vinicius enxergava:
"... Bossa Nova é mais um olhar que um beijo; mais uma ternura que uma paixão; mais um recado que uma mensagem. 

Bossa Nova é o canto puro e solitário de João Gilberto buscando uma harmonia cada vez mais extremada e simples nas cordas de seu violão; Bossa Nova é a nova inteligência, o novo ritmo, a nova sensibilidade, o novo segredo da mocidade do Brasil...". 

Segredo revelado na melodia de Carlos Lyra, Roberto Menescal, Oscar Castro Neves e na visão poética de Ronaldo Bôscoli e Newton Mendonça. Logo depois, Baden Powell acrescentaria à Bossa Nova a vibração afro de seu violão, fortalecida pela poesia de Vinicius, que alimentava também, sem economia de versos, as melodias de Edu Lobo e Francis Hime. 

MPB 
Deixando já o caminho a ser trilhado pelos herdeiros da Bossa Nova, entre os quais eu me incluo, geração de talentos incomuns, formada a partir de 1965, com Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Jorge Ben Jor, Paulinho da Viola, Paulo Cesar Pinheiro, João Bosco, Ivan Lins, Djavan, Guilherme Arantes, que em meio à sofisticação da Bossa Nova recuperaram a música de raiz brasileira dando origem ao que passou a ser chamar de MPB. 

Toda essa criatividade avalizada e propagada pelas vozes de Elis Regina, Maria Bethânia e Gal Costa. Instrumentistas de destaque também apareceram, como Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, César Camargo Mariano, Mauro Senise; mais recentemente, Raphael Rabello, Yamandu Costa, Hamilton de Holanda, Toninho Ferragutti, Proveta e sua Banda Mantiqueira... 

Até o final do século passado, outros talentos de qualidade se destacaram, como Zeca Baleiro, Zeca Pagodinho, Renato Teixeira, Lenine; as vozes de Maria Rita, Mônica Salmaso, entre outras, mantendo a tradição da variedade musical e da criatividade flexiva da música popular brasileira. Sem dúvida, é uma safra de grandes valores. 

Mas a qualidade da safra dos anos de 1960 e 1970 dificilmente será repetida... 

Nestes primeiros anos do século XXI podemos citar alguns nomes como Chico Saraiva, Antonio Loureiro, Bruno de la Rosa, Diogo Nogueira. E tem muita gente vindo por aí.

A música é nosso maior patrimônio – a mistura de raças nos proporcionou a maior diversidade musical do mundo. 

(*)É cantor, compositor e violonista 

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Ode à irresponsabilidade

Cidinha Campos (*)

Uma hora e meia de irresponsabilidade: foi o que se viu no programa da Regina Casé na tarde de um domingo 15 dias atrás. A polícia ainda não disse o que aconteceu no Pavão-Pavãozinho, mas a vítima, o dançarino DG, já foi canonizada como um misto de Rudolf Nureyev e São Francisco de Assis. 

Eu lamento a morte desse rapaz, assim como lamento a morte de Edilson dos Santos, o jovem com deficiência metal morto na mesma operação, e todos os PMs assassinados por bandidos nas UPPs e fora delas. Para esses, não se dedicou um programa na TV nem se produziu uma torrente de lágrimas em cadeia nacional. 

DG era lindo, alegre, pontual, como disse Regina Casé. Mas o que fazia ele pulando de um prédio para o outro em plena madrugada? A polícia afirma que ele estava com o bandido maior da área, o tal de Pitbull, foragido da cadeia, que naquela noite promovia um churrasco na comunidade, quando o tiroteio começou. 

É fato que o dançarino gostava de companhias pouco recomendáveis. 
No seu Facebook, postou que era “amigo eterno do Cachorrão” (traficante morto na mesma comunidade em janeiro) e chegou a dizer que os moradores iriam descer o morro “cheios de ódio na veia e bico na mão” para vingar a morte do facínora. 

No mesmo domingo do programa, um grupo fez uma manifestação na Avenida Atlântica, mãe da vítima à frente tocando um bumbo, gritando “Fora, UPP!”. 
Certamente, preferem que os traficantes continuem donos das favelas. 
Uma repórter do jornal O DIA foi agredida na manifestação. Agora virou moda. 
Não faz muito tempo, jornalistas e qualquer serviço do estado só subiam a favela com autorização do tráfico. Quem tem saudades desta época? 

Nunca houve no Brasil um programa de combate ao domínio do tráfico tão determinado e corajoso quanto a UPP. É mentira que a ocupação social não esteja acontecendo.
Pode não ser na velocidade que desejamos, mas acontece na velocidade possível. 
Só quem não mora no Alemão pode ignorar o teleférico, o cinema, as creches, escolas, biblioteca, centro de computação. O mesmo vale para a Rocinha, para o Santa Marta, Chapéu Mangueira e tantas outras comunidades. 

A esquerda caviar, que ganha dinheiro mostrando a cultura da favela, mas gosta de passar férias em Angra e Paris, não vai reconhecer nunca o trabalho do governo, a menos que ganhe cachê para isso. As UPPs são a nossa chance de retomar o Rio para os fluminenses. Alimentar o discurso contra elas equivale a voltar para um passado que uma emissora com a responsabilidade da TV Globo não tem o direito de esquecer. 

(*) Jornalista, radialista e deputada estadual pelo PDT no Rio de Janeiro 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

'Tão' Ela ...

Dannie Oliveira (*) 

Ela via filmes e lia livros eróticos. Por mais que a sociedade julgasse esse parâmetro de comportamento, porque uma mulher jamais poderia fazer esse tipo de coisa, esse era um daqueles traços que a tornava marcante e que eu admirava nela. Essa liberdade de poder fazer o que bem quer. E quando algum conservador vinha questionar esse seu jeito de ver o mundo ela sorria e gentilmente o mandava tomar no c%. Eu sei que não é uma coisa muito bonita de se dizer, mas ela tinha uma carinha, usava um tom tão suave e meigo que até dizendo um xingamento ou algo tão feio ela conseguia ser a mais delicada das mulheres. 

Eu adorava nossos momentos únicos, como quando ficávamos deitados no carpete da sala dela olhando para o teto ouvindo a seleção das músicas mais antigas do U2, eu dando uns ‘pegas’ no baseado e ela tomando um gole daquela bebida com pouco álcool. Tardes em que falávamos da vida, das ‘marcadas’ de outrora, das viagens futuras sem saber se amanhã ainda estaríamos juntos. Era sempre especial estar do lado dela, eu uso essa palavra porque não dá pra definir o que a sua companhia significava pra mim. 

Ela sabia ser marcante mesmo vestida com a minha camiseta cinza, cabelo desgrenhado e uma cara de sono, ao me surpreender as 04h00 da manhã escrevendo um novo texto sobre ela para meu novo livro ou algum pensamento qualquer. Inevitavelmente essas surpresas sorrateiras sempre acabavam em uns ‘amassos’ na mesa do computador, que seguiam para uma louca transa, com direito a realização de todas as nossas fantasias. Ela era sexy, não precisava ter um padrão de mulher volupiosa, os seus pequenos seios, aquela boca delicada eram suficientes para me enlouquecer e me provocar tirando minha concentração quando ela inesperadamente me mandava uma foto nua, bem no meio do expediente de trabalho. 

Ela conseguia ser a criatura mais sensível do mundo, e às vezes quando a via chorar durante um filme com cachorrinho perdido, eu me perguntava se aquela mulher que vivia desafiando o mundo era a mesma pessoa ao meu lado deitada no sofá. E por mais que nossa relação fosse a mais louca e intensa eu sabia que deveria viver cada dia como se fosse o último. Eu sabia que cada vez que ela se entregava deixando que percorresse seu corpo todo com a língua, dos dedos dos pés a sua boca, que aquele momento era só meu. Que aquele olhar marcante era todo meu e certamente jamais existiria para nenhum outro homem. E no final de tudo eu sabia que todo amor dura o tempo suficiente para nos fazer feliz. 

(*) Jornalista e Diretora de Jornalismo na empresa Vox Green s/A em Santarém (PA)

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Mulher é protagonista do próprio parto; entenda o parto humanizado

Giovanna Balogh para o Blog Maternar 

Atualmente muito tem se falado e muitas mulheres têm buscado o tal parto humanizado. Mas, afinal o que é ele? Se engana quem pensa que ter um parto humanizado é simplesmente ter um parto normal ou que para conseguir um só é possível tendo o bebê em casa. Não existe, no entanto, uma regra do que é ou não feito em um parto humanizado, mas sim uma visão de total respeito ao protagonismo da mulher no momento do parto, que é a personagem principal daquele evento, deslocando do médico esse status. 

Permitir que a mulher tenha um acompanhante de sua escolha durante o parto, estimular a movimentação da gestante durante o trabalho de parto e oferecer métodos não farmacológicos de alívio da dor, como massagens, utilizar água morna em um banheira ou chuveiro, entre outros recursos, são o pontapé inicial para a humanização no atendimento à parturiente. A médica obstetra Juliana Giordano Sandler diz que o parto humanizado nada mais é do respeitar o “protagonismo da parturiente e sua capacidade de parir sem nenhuma interferência da equipe na imensa maioria das vezes”. 
Isso não quer dizer, por exemplo, que no parto humanizado a mulher não pode pedir uma anestesia se estiver com muita dor. Mas isso só é feito, diz a médica, com o consentimento da parturiente, ou seja, nenhum procedimento é feito se não for o desejo da paciente. 

Ela diz ainda que os profissionais humanizados não fazem, por exemplo, episiotomia de rotina (corte feito entre a vagina e o ânus na hora do nascimento do bebê) e permitem que a mãe fique imediatamente com o bebê assim que ele nasce, o chamado contato ‘pele a pele’. 

Segundo ela, muitos médicos ainda não seguem recomendações “baseadas em evidências científicas recentes” e que, infelizmente, ainda não fazem parte da maioria dos protocolos assistenciais das maternidades públicas e privadas no Brasil. 
“Seja por uma questão cultural ou por interesses socioeconômicos diversos, essas evidências mostram que se forem seguidas reduzem as complicações maternas e fetais”, comenta a médica. 

Parto humanizado 
Mas, como conseguir um parto humanizado? “Infelizmente vivemos no país campeão de taxas de cesáreas, um procedimento cirúrgico maravilhoso, teoricamente desenvolvido para salvar vidas maternas e fetais, mas que atualmente está absolutamente banalizado e atua como um dos grandes responsáveis pelas complicações e mortes maternas e dos recém-nascidos”, diz a médica. 

Nesse cenário, fica difícil imaginar que uma gestante consiga facilmente ser parte dos apenas 10% de partos vaginais na rede privada ou 50% na pública – sendo que o recomendável pela OMS (Organização Mundial da Saúde) é de 85% de partos normais. 
 “Na rede pública, a mulher muito provavelmente estará exposta a várias violências obstétricas, como a privação da alimentação durante o trabalho de parto e a separação precoce do seu bebê após o nascimento”, comenta. 

As mulheres que querem um parto respeitoso precisam primeiramente de muita informação com grupos de apoio – presenciais ou até mesmo pela internet – que incentivam o parto natural. Em São Paulo, as mulheres contam com a Casa Moara e o Gama (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa) que fornecem palestras gratuitas. 
Na internet, também é possível encontrar blogs com mais informações, como o Amigas do Parto. 

“É fundamental que as mulheres se informem e busquem durante o pré-natal pensar imaginar o que desejam para seus partos, o chamado plano de parto , que é muito recomendado pela OMS e pouco difundido no Brasil”, comenta. No plano de parto, a mulher descreve as suas escolhas e quais as implicações reais de cada uma delas. “Além disso, é importante que busquem equipes, hospitais ou casas de parto que trabalhem realmente na filosofia escolhida, para isso é necessário além de visitar os locais, conhecer as histórias de outras mulheres que passaram pela equipe/instituição escolhida”. 

“Tudo o que enfraquece o papel da parturiente não é parte do parto humanizado, como exemplo tratá-la no diminutivo, despersonificando e infantilizando, como chamando a mulher de ‘mãezinha’, privá-la de comida e dos seus acompanhantes, oferecer analgesia antes que ela peça, pedir para não gritar, obrigá-la a parir em uma determinada posição [normalmente de pernas para cima], ordenar puxos [dizer como e quando fazer a força]”, explica. 

A médica diz não acreditar que possa haver cesárea humanizada. 
“Acredito que existe sim uma forma de conduzir uma cesárea que demonstre o respeito àquele momento e não o banalize, que tente deixar o ambiente cirúrgico o mais acolhedor possível, que estimule o contato pele a pele sempre que o bebê nascer bem”, comenta. Ela explica que quando uma mãe acaba indo para uma cesárea necessária é possível, por exemplo, ter o bebê no colo ainda no centro cirúrgico e amamenta-los nos primeiros minutos de vida. Isso, é claro, se estiver com uma equipe humanizada. 

Plano de Parto  
Apesar de não haver nenhum respaldo legal, muitas mulheres são orientadas e optam em fazer o plano de parto. Nesse papel, elas colocam todos os seus desejos durante o trabalho de parto e no parto em si. O plano de parto pode ser protocolado, por exemplo, no hospital ou na casa de parto onde ela dará à luz para dar ciência prévia sobre as suas vontades. Segundo advogados especializados em direitos das mulheres, ele pode servir de embasamento para uma ação futura na justiça caso o medicou ou a unidade de saúde, por exemplo, não responda ou responda negativamente sobre os itens colocados no plano de parto. A obstetriz Ana Cristina Duarte ensina você a fazer o seu. Mais informações também pode ser conferidas no site Amigas do Parto. 

terça-feira, 25 de março de 2014

BR 163, Exército, corrupção e incompetência

Exército vira sinônimo de corrupção e incompetência por causa de obras na BR-163 

Paulo Leandro Leal (*) 

Foi-se o tempo que o Exército era sinônimo de competência, retidão e ética em nossa região. A disciplina rígida dos quartéis parecia ser uma arma contra males tão comuns na administração pública. Graças a um esforço contínuo e continuado do Batalhão de Engenharia e Construção de Santarém (8º BEC) e, mais recentemente do 9º BEC de Cuiabá, o Exército se tornou sinônimo de incompetência e, o que é pior, corrupção. 

O 8º BEC é o responsável pela manutenção e construção de um trecho de 217 quilômetros da Rodovia BR-163, entre as cidades de Santarém e Rurópolis. E parece fazer um esforço absurdo para nunca concluir a pavimentação. A manutenção da estrada é precária. 
O senso comum que prevalece na região é que um mar da lama e corrupção encobre o trabalho do 8º BEC, causando prejuízos incalculáveis à sociedade regional. 

O ritmo das obras tocadas pelo 8º BEC é risível. Se colocassem os bichos preguiça da Amazônia para tocar as obras, talvez já teríamos a mesma concluída. 
Antigamente, se pensava que o BEC era lento, mas ao menos as obras eram de qualidade. Isso não procede mais. A qualidade da pavimentação entregue pelo Exército é péssima. Em muitos trechos, o asfalto entregue em menos de dois anos já está completamente esburacado, ou mesmo destruído. 

A pergunta que não cala: Para onde foram os recursos liberados pelo governo? 

A participação do 8º BEC neste trecho da rodovia é uma verdadeira caixa preta. 
Milhões e milhões de reais em recursos públicos já foram liberados, mas o que se vê são obras de má qualidade e lentas. Outro problema grave: os aterros feitos pelo Exército, em sua maioria, estão cedendo, provocando deformações na estrada e causando até mesmo acidentes. Não se sabe se os engenheiros do BEC fugiram da escola, ou se trata mesmo de desvio de recursos e uso de material de má qualidade. 

Enquanto isso, entre o quilômetro 30 e a cidade de Itaituba, o 9º BEC também dá demonstrações claras de absoluta incompetência. Um aterro feito chegando a Miritituba cedeu há quase dois anos, pois foi feito fora das especificações. 
Um enorme buraco surgiu no meio da pista. 
O BEC fez porcamente um desvio, que oferece risco a todos que trafegam por ali. 
Várias pessoas morreram em acidentes e, mais recentemente, diversas carretas transportando soja tombaram. O local é mal sinalizado. 
Enquanto isso, em Mirirituba, milhões em equipamentos do 9º BEC apodrecem sob o Sol e a chuva, sem qualquer medida para evitar isso. 

Apesar das demonstrações claras de incapacidade técnica, financeira e administrativa de estar à frente destas obras, ninguém faz nada. Ninguém se atreve a investigar o uso dos recursos pelo Exército. O Ministério Público Federal, que tem poder para investigar, nunca fez nada. Os políticos da região não se mexem. Enquanto isso, o Exército continua à frente das obras, sem dar qualquer satisfação à sociedade. E o povo que mora nas margens desta rodovia sofre, calado. 

Até quando? 

(*) Jornalista e agora também empresário

sexta-feira, 14 de março de 2014

Carta aberta a Letícia Spiller

Rodrigo Constantino (*) 

Prezada Letícia, 

Antes de mais nada, gostaria de dizer que admiro seu talento como atriz e também te considero muito bonita. Infelizmente, você tem endossado certas ideias um tanto estapafúrdias, aplaudido regimes nefastos como o cubano, e alegado que se arrepende de ter usado uma camisa com a bandeira americana no passado, chegando a afirmar que se fosse hoje usaria uma com o Che Guevara. 

Ontem, sua casa no Itanhangá foi assaltada por bandidos armados, que lhe fizeram de refém enquanto sua filha dormia logo ao lado. Lamento o que você passou, pois deve ser, sem dúvida, uma experiência traumática. Nossa casa é nosso castelo, e se sentir inseguro nela é terrível, especialmente quando temos filhos menores morando com a gente. A sensação de impotência é avassaladora, e muitos chegam a decidir se mudar do país após experiências deste tipo. 

O que eu gostaria, entretanto, é que você fosse capaz de fazer uma limonada desse limão, ou seja, que pudesse extrair lições importantes desse trauma que ajudassem a transformá-la em uma pessoa melhor, mais consciente dos reais problemas que nosso país enfrenta. 
Se isso acontecesse, então aquelas horas de profunda angústia não seriam em vão. 

Como você talvez saiba, sou o autor do livro Esquerda Caviar, que fala exatamente de pessoas com seu perfil (aproveito para lhe oferecer um exemplar autografado, se assim desejar). Artistas e “intelectuais” ricos, que vivem no conforto que só o capitalismo pode oferecer, protegidos pela polícia “fascista”, mas que adoram pregar o socialismo, a tirania cubana ou tratar bandidos como vítimas da sociedade: eis o alvo da obra. 

Essa campanha ideológica feita por esses artistas famosos acaba tendo influência em nossa cultura, pois, para o bem ou para o mal (quase sempre para o mal), atores e atrizes são formadores de opinião por aqui. Quando um Sean Penn, por exemplo, abraça o tiranete Maduro na Venezuela, ele empresta sua fama a um regime nefasto, ignorando todo o sofrimento do povo venezuelano. Isso é algo abjeto. 

No Brasil, vários artistas de esquerda têm elogiado ditaduras socialistas, atacado a polícia, o capitalismo, as empresas que buscam lucrar mais de forma totalmente legítima, etc. Muitos chegaram a enaltecer os vagabundos mascarados dos black blocs, cuja ação já resultou na morte de um cinegrafista. 

Pois bem: a impunidade é o maior convite ao crime que existe. Quando vocês tratam bandidos como vítimas da sociedade, como se fossem autômatos incapazes de escolher entre o certo e o errado, como se pobreza por si só levasse alguém a praticar uma invasão dessas que você sofreu, vocês incentivam o crime! 

Pense nisso, Letícia. Gostaria de perguntar uma coisa: quando você se viu ali, impotente, com sua propriedade privada invadida, com armas apontadas para a sua cabeça, você realmente acreditou que estava diante de pobres vítimas da “sociedade”, coitadinhos sem oportunidade diferente na vida? Ou você torceu para que fossem presos e punidos por escolherem agir de forma tão covarde contra uma mãe e uma filha em sua própria casa? 

Che Guevara, que você parece idolatrar por falta de conhecimento, achava que era absolutamente justo invadir propriedades como a sua. Afinal, o socialismo é isso: tirar dos que têm mais para dar aos que têm menos, como se riqueza fosse jogo de soma zero e fruto da exploração dos mais pobres. Você se enxerga como uma exploradora? 
Ou acha que sua bela casa é uma conquista legítima por ter trabalhado em várias novelas e levado diversão voluntária aos consumidores? 

Nunca é tarde para aprender, para tomar a decisão correta. 
Por isso, Letícia, faço votos para que esse desespero que você deve ter sentido ontem se transforme em um chamado para uma mudança. Abandone a esquerda caviar, pois ela não presta, é hipócrita, e chega a ser cúmplice desse tipo de crime que você foi vítima. 
Saia das sombras do socialismo e passe a defender a propriedade privada, o império das leis, o fim da impunidade e o combate ao crime, nobre missão da polícia tão demonizada por seus colegas. 

Te espero do lado de cá, o lado daqueles que não desejam apenas posar como “altruístas” com base em discurso hipócrita e sensacionalista, daqueles que focam mais nos resultados concretos das ideias do que no regozijo pessoal com as aparências de revolucionário engajado. Será bem-vinda, como tantos outros que já acordaram e tiveram a coragem de reconhecer o enorme equívoco das lutas passadas em prol do socialismo. 

Um abraço, 

 Rodrigo Constantino (*)

(*) É economista e colunista brasileiro. Foi articulista da revista "Voto" e escreve regularmente para os jornais "Valor Econômico" e "O Globo"

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

BBB14 é o mais apelativo e moralista da história

Marco Antonio Araújo (*) 

Realities shows, em larga medida, substituem as novelas (ou, mais provável, as complementam). Não é mais o caso de gostar, assistir, detestar ou não. Tornaram-se um fenômeno de massa, com tudo que isso representa: interferem no imaginário popular, lançam tendências e propagam valores. Aí a conversa muda de figura e passa a ser relevante debater as causas e consequências que sustentam esse amplo nicho da indústria do entretenimento. 

Sem muito sociologismo, no entanto, é possível afirmar que o BBB14 é o programa mais apelativo e desesperado da história da TV Globo. A audiência em baixa corrobora a tese e não me deixa mentir. Se for sinal de esgotamento, ótimo para todos. Tudo que é bom, um dia acaba. Coisa ruim, então, merece um empurrãozinho. Lá vai. 

O apelo sexual dos realities sempre foi algo (para os padrões brasileiros) mascarado, sugerido ou exposto com parcimônia. Pois mandaram às favas qualquer pudor. O cafofo, o edredom, os banhos acanhados, as relações apenas afetivas, isso tudo foi simplesmente eliminado num paredão secreto. Agora, é botar pra quebrar. Sim, porque nada que se passa no programa acontece sem que ordens expressas partam de Boninho & Cia. É assim que funciona: nada de improviso, naturalidade ou “vou ser eu mesmo”. Cada um sabe muito bem qual é o seu papel. 

Como os diálogos nunca foram o ponto forte da atração, sussurro e gemidos de corpos nus se tocando é o que de melhor você vai ouvir. Sem nenhuma sutileza, é uma profusão de strip-teases, mergulhos exibicionistas em piscinas, um desfilar de genitálias expostas por figuras que vão do ejaculador precoce Diego às atrevidas meninas que se pegam até em ménage à trois. 

Casal de lésbicas se tornou a moda verão da Globo: tanto na novela das nove quando no BBB, vemos espécimes caricaturais se pegando. Antes que o movimento gay estoure rojões por essa suposta aceitação, eu, aqui com meus botões héteros, desconfio que o efeito seja danoso para a categoria. Da forma como está sendo patrocinado, esse tiro vai sair pela culatra: o público vai associar homossexualidade com gente promíscua. Batata. 

Moralista não é perceber essas manifestações como nocivas à saúde mental da população. Moralista é quem, deliberadamente, associa sexo à disputa por prêmios, dinheiro, exposição fugaz, grosserias, futilidade, machismo, perversão e plataforma para os quinze segundos de fama. Bem, garanto, não faz. O estrago já está feito. E não há controle remoto capaz de mudar esse caminho. Já era. 

(*) Jornalista desde 1987. Foi diretor de redação do jornal Gazeta Esportiva. Foi professor e coordenador de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Outra canalhice do governo federal

Governo federal nega direito à prevenção do câncer de mama 

O governo federal decidiu, unilateralmente, que mulheres com até 49 anos não têm mais o direito de detectar precocemente o câncer de mama. 

A Portaria nº 1.253, editada em novembro de 2013 pelo Ministério da Saúde, restringe o repasse de verbas da União aos municípios a mamografias em pacientes na faixa etária de 50 a 69 anos. A medida contraria a Lei 11.664/08, em vigor desde 29 de abril de 2009, segundo a qual todas as mulheres têm direito à mamografia a partir dos 40 anos. 

Além disso, a Portaria nº 1.253 refere um procedimento condenável pelos médicos: a meia mamografia, denominada mamografia unilateral, isto é, exame em apenas uma das mamas. Pelo que estabelece texto, os municípios têm a opção de arcar sozinhos com o custeio de mamografias para mulheres com até 49 anos e podem remunerar somente a mamografia unilateral. A mamografia é um exame que exige a comparação das duas mamas. 

Com a publicação da Portaria, pode-se interpretar que é possível realizar a mamografia unilateral. Mas não há como selecionar um dos lados a examinar sendo que a lesão procurada muitas vezes não é palpável. Tampouco se pode admitir a espera de que o tumor cresça para se examinar a mama com maior chance de câncer. 

Além disso, a chamada mamografia unilateral reduziria pela metade o número de casos diagnosticados. Se este impropério continuar, será inevitável o aumento de mortes e de retirada de seios (mastectomias) que poderiam ser evitadas. 

Diante do subfinanciamento da saúde no Brasil, com diminuição progressiva da participação da União no custeio do Sistema Único de Saúde e consequente oneração dos municípios, na prática a referida portaria nega às mulheres com até 49 anos a prevenção e o tratamento precoce do câncer de mama. De acordo com parecer da Comissão Nacional de Mamografia – formada pelo Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), estudo internacional aponta redução de 26% a 29% na mortalidade em mulheres entre 40 e 49 anos comparadas a pacientes não submetidas ao rastreamento (mamografia preventiva). 

A Comissão também cita estudo brasileiro mostrando que 42% dos casos de câncer de mama registrados em Goiânia (GO) ocorreram em pacientes abaixo dos 49 anos.
O levantamento de um grande hospital oncológico de Curitiba (PR) aponta que, de 2005 a 2009, 39,8% das pacientes operadas com diagnóstico de câncer de mama tinham até 49 anos. O índice passou a 37,1% de 2010 a 2011. 

Dessa forma, o CBR, a Febrasgo e a SBM afirmam que as determinações da Portaria nº 1.253 não se enquadram na boa prática médica e são prejudiciais à saúde da mulher brasileira. Defendemos o rastreamento mamográfico para todas as mulheres assintomáticas acima de 40 anos. 

Enfatizamos também que, no caso das pacientes que apresentem sintomas mamários, não existe limitação quanto à faixa etária para a avaliação mamográfica, que sempre deve ser bilateral (denominada de mamografia diagnóstica). 

Enquanto estudamos contestar a Portaria nº 1.253 na Justiça, se não houver abertura de diálogo por parte do Ministério da Saúde, recomendamos aos médicos que continuem prescrevendo a mamografia de rastreamento para pacientes acima de 40 anos e não aceitem a chamada mamografia unilateral. 

Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR) 
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) 
Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM)

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Indústria farmacêutica, mentiras e (muito) dinheiro

Martha Rosenberg, para o Blog Outras Palavras 

Quando um medicamento causa efeitos colaterais, esta informação muitas vezes não é exposta durante anos, o que permite à indústria farmacêutica continuar ganhando muito dinheiro. 

O Food and Drug Administration (FDA) [órgão governamental dos EUA para alimentos e medicamentos] e a indústria farmacêutica argumentam que os efeitos colaterais perigosos em uma droga só aparecem quando é usada por milhões de pessoas – e não no grupo relativamente pequeno de pessoas que fazem testes clínicos. Mas existe outra razão pela qual os consumidores acabam sendo cobaias. Os remédios são levados apressadamente ao mercado, após um período muito curto (de apenas seis meses) para que a indústria possa começar a ganhar dinheiro, enquanto a segurança ainda está sendo determinada. 

Tanto a droga para os ossos Fosamax, repleta de riscos, quanto a analgésica Vioxx, ambas da indústria Merck, foram ao mercado após seis meses de revisão. No caso da Vioxx, isso ocorreu porque “o medicamento potencialmente provia uma vantagem terapêutica significativa sobre outras drogas já aprovadas”, disse a FDA. 

Obrigado por isto. E cinco drogas (Trovan, Rezulin, Posicor, Duract e Meridia), que entraram no mercado em 1997 por pressões da indústria e do Congresso sobre a FDA, diz a Public Citizen, foram em seguida retirados. 

Abaixo, algumas drogas cujos riscos não impediram que seus fabricantes fossem autorizados a colocá-las a venda e exercer seu “valor de patente”. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Obstrução pulmonar crônica

Drauzio Varella (*) 

A doença pulmonar obstrutivo-crônica (DPOC) é traiçoeira. Evolui silenciosa, durante anos ou décadas, mas, quando se manifesta, as limitações respiratórias são definitivas. 

O primeiro sintoma é a falta de ar para correr, subir escadas ou ladeiras. Como a instalação é gradativa, as pessoas negam que lhes falta o ar, dizem que se cansam porque estão mais velhas ou fora de forma. 

Com a progressão, entra em cena um cortejo de sintomas: tosse, secreção pulmonar, chiado no peito, respiração pesada e a sensação de que o ar não chega ao fundo dos pulmões. Gripes e resfriados duram mais tempo, e podem evoluir com complicações bacterianas. 

Mais tarde, tomar banho, subir alguns degraus ou amarrar os sapatos exigem repouso para recuperar o fôlego. As crises de exacerbação tornam-se comuns, geralmente acompanhadas por pneumonias que requerem hospitalização. 

É um problema grave de saúde pública. Um estudo realizado entre adultos com mais de 40 anos mostrou que cerca de 10% apresentavam sinais de obstrução das vias aéreas de moderada intensidade, pelo menos. Nos últimos 30 anos, o número de mortes causadas pela doença duplicou. 

O cigarro é de longe o maior culpado. O aumento da mortalidade entre as mulheres que começaram a fumar nos últimos 30 anos confirma a relação entre causa e efeito.A exposição a poluentes industriais também é fator de risco, bem como o fogão a lenha das casas pobres, malventiladas. 

O esforço respiratório para manter a oxigenação altera a forma do tórax (tórax em barril), retrai as costelas inferiores à inspiração e prolonga a fase de expiração. 

O diagnóstico é feito pela espirometria, exame no qual o paciente faz expirações forçadas num tubo ligado a um aparelho que mede uma série de parâmetros relacionados ao fluxo de ar e à capacidade dos pulmões. Para conter o declínio da função respiratória é essencial parar de fumar. A abstinência diminui a frequência das crises, melhora a qualidade de vida e reduz a mortalidade. 

Nos casos mais graves os sintomas podem ser aliviados com broncodilatadores administrados por inalação. Há broncodilatadores de ação rápida, ideais para alívio imediato, e outros de longa duração, cujo efeito pode persistir por 24 horas ou mais. 

A inalação de corticosteroides é outra modalidade terapêutica, capaz de melhorar a respiração e reduzir a frequência das crises em 15% a 20%. 

Dois estudos avaliaram o papel da administração de oxigênio nos casos mais avançados. O primeiro comparou 15 horas diá- rias de oxigênio com um grupo-controle que não fez uso dele. No segundo, foi feita a comparação de 18 horas diárias, com 12 horas de uso por dia. Nos dois estudos a mortalidade caiu 20%. 

Quando há indicação de oxigenioterapia, a recomendação atual é de administrá-la por pelo menos 18 horas diárias, inclusive durante o sono.

Os pacientes devem receber vacina contra a gripe todos os anos, bem como vacina contra o pneumococo. Fisioterapia para reabilitação pulmonar é indicada em todos os casos.  

(*) Médico oncologista, cientista e escritor , formado pela Universidade de São Paulo 

Qual o limite dos protestos?

Luciano Martins Costa (*) 

A temporada de protestos em São Paulo está de volta ao noticiário, com uma diferença interessante em relação à cobertura das manifestações de junho do ano passado: a chamada mídia tradicional parece ter melhorado sua capacidade de descrever os eventos, oferecendo mais detalhes dos fatos. No entanto, pode-se observar a ocorrência de falhas importantes nos relatos sobre a sequência de movimentos que levaram da interrupção do trânsito na Avenida Paulista aos choques com a Polícia Militar, dos quais resultou um jovem ferido a bala. 

A tentativa da Folha de S. Paulo de desenhar um perfil dos manifestantes que foram detidos, supostamente os mais agressivos, retrata uma maioria de jovens oriundos da periferia, estudantes do segundo grau e indivíduos com profissões variadas, de professor a assessor parlamentar. Por outro lado, tenta-se também adivinhar qual seria o plano de ação das autoridades para conter ou reduzir os danos provocados pelas passeatas, mas os relatos se limitam aos momentos mais dramáticos, quando a situação já havia escapado a qualquer possibilidade de controle. 

A manifestação de sábado (25/1), que se iniciou com uma concentração na calçada do Museu de Arte de São Paulo, pode ser descrita como a evolução de um processo conhecido, cujo desenlace poderia ser previsto e alterado por uma estratégia mais eficiente da polícia. Por volta das 17h havia mais pessoas passeando na calçada oposta, onde casais dançavam tango, do que no bloco dos manifestantes. 
Além disso, o número de policiais alinhados no canteiro da avenida e em frente ao parque Siqueira Campos era maior do que o dos jovens que paralisavam o trânsito. 

Antes de começar a caminhada, um grupo de pessoas com máscaras nas mãos ou penduradas no pescoço se mantinha distante do bloco principal, tomando cerveja no bar da esquina com a Alameda Casa Branca. Alguns dele carregavam mochilas, onde provavelmente estariam os artefatos que mais tarde seriam lançados contra fachadas de bancos e usados para provocar tumulto na Praça da República, onde ocorria o principal espetáculo comemorativo do aniversário da cidade. 

A quem interessa? 

Essa rápida descrição, que pode ser feita por uma única pessoa que tratasse de observar atentamente os prelúdios da manifestação, permite deduzir que os protestos, que agora têm como tema declarado atrapalhar a realização da Copa do Mundo, contam com uma organização paralela de características mais complexas do que faz supor o noticiário. 

Tudo indica que o propósito do grupo que é chamado genericamente de “black bloc” era causar pânico na festa que reunia uma multidão, com crianças, idosos e mulheres, no centro da cidade. Essa informação é importante para analisar o noticiário, onde pontificam duas vertentes básicas: a agressividade de alguns manifestantes, que atuam quase sempre escondidos por máscaras e lenços, e o descontrole de alguns policiais militares, chamados a intervir apenas quando a violência já está deflagrada. 

As prisões efetuadas no calor dos choques não apanham os organizadores da violência, que sabem se manter a salvo nos confrontos com a polícia. É interessante observar a logística dos “black blocs”, que atuam em torno de “municiadores”, que circulam a pé ou de bicicleta em volta das passeatas, com mochilas às costas, onde se encontram os artefatos incendiários. O jovem que foi baleado em Higienópolis, segundo a descrição dos jornais, era um desses “municiadores”. 

A discussão na imprensa e nas redes sociais sobre a proporcionalidade da ação policial, que poderia ter feito a detenção sem disparar um tiro, é parte relevante da história, mas seria interessante também mostrar o “outro lado”, ou seja, que propósito teria alguém andando por aí com explosivos numa mochila? 

Sob o regime democrático, há poucos argumentos razoáveis para justificar uma ação tão radical quanto provocar o pânico numa multidão que inclui mulheres e crianças. Com toda a distância que se pode demarcar entre um fato e outro, a tática tem alguma semelhança com o plano fracassado do atentado no Riocentro, em abril de 1981, quando um grupo de militares planejou explodir bombas durante um show musical no Rio de Janeiro. 

Esse detalhe recomenda especial atenção aos apressados que se disponham a tomar partido nos protestos contra a Copa do Mundo. 

O velho preceito latino deve ser sempre lembrado: Cui bono? – quem se beneficia com isso? 

(*) Jornalista e escritor com especialização em gestão de qualidade e estratégia, ex-diretor de indústria e de empresas de comunicação e serviços. É analista de mídia e apresentador do programa Observatório da Imprensa no Rádio e membro do conselho do Projor - Instituto para o desenvolvimento do jornalismo