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sexta-feira, 29 de maio de 2015

Viva o Brasil

País tem 350 mil ONGs e todas elas se empanturram com dinheiro público 

Sérgio Pires (*) 

Alguém aí tem ideia de quantas Organizações Não Governamentais, também conhecidas por ONGs, existem no Brasil? Há quem fale em 450 mil. Mas a própria Associação Nacional das ONGs reconhece 350 mil. 

Ou seja, 350 mil entidades que não precisam, no geral, prestar contas a ninguém, que recebem vultosas somas de dinheiro público – milhões, milhões e milhões – e que se dizem não ligadas ao governo, ou seja, não teriam porque receber verbas dos cofres públicos. 

Há muitas delas que realmente funcionam, que são importantes para setores da comunidade, que ajudam principalmente aquela faixa da população mas carente. 
Mas há milhares que apenas se aproveitam do país, que são componentes ativos de um sistema nacional de corrupção que está quase fora do controle. Formam, no geral, uma espécie de super caixa preta, onde entra muita grana, mas ninguém sabe para onde ela vai. 

Só na Amazônia, segundo estatísticas constantemente divulgadas, inclusive em vários sites da internet, atuam mais de 100 mil ONGs, de todos os tamanhos e defendendo todos os interesses – raramente os do nosso país – e algumas recebem polpudas verbas oficiais, sem dar nada em contrapartida. A não ser para seus padrinhos, que recebem o dinheiro sujo e enchem seus bolsos. 

A presidente Dilma Rousseff, depois de tantas escândalos descobertos – como o recente caso do Ministério dos Esportes – tomou a decisão de, durante pela menos um mês inteiro, impedir o repasse de um só centavo a qualquer uma dessas 340 mil ONGs. 

Ao fim de 30 dias, muitas delas sumirão, porque não suportam qualquer investigação. Outras tantas serão fechadas na marra. Vão sobrar ainda umas 250 mil. 

Se a Presidente fechar a torneira do dinheiro para as ONGs por, pelo menos um ano, estará dando um passo decisivo para acabar com o grosso da corrupção que campeia em seu governo. É só começar a agir... 

(*) É jornalista 
     email: ibanezpvh@yahoo.com.br

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Em busca de uma política para o etanol

Plínio Nastari (*) 

O setor sucroenergético continua afetado pela falta de uma política geral que oriente o setor de combustíveis de forma transparente e previsível. Depois de quase 5 anos de preços de gasolina defasados em nível médio de 16% e máximo de 27% é prematuro e irresponsável classificar como tarifaço o atual descompasso de 15,5% com o preço internacional, já que não houve qualquer alteração no preço de referencia nas refinarias. A continuar a desvalorizado do real, ou havendo alguma recuperação do preço do petróleo, em breve ele poderá deixar de existir. A recomposição da CIDE sobre a gasolina no nível de 22 centavos por litro recoloca-a em nível equivalente à metade do que representou antes de ser gradualmente eliminada a partir de 2008. 

Políticas populistas de incentivo ao uso de combustíveis através de baixo preço tem estimulado o consumo muito acima do que seria esperado. O preço atual da gasolina é ainda 22% inferior em termos reais ao vigente 12 anos atrás. Em 2014, o consumo de ciclo Otto subiu 9,2%, desde 2002 o crescimento foi de 112%, e a resultante importação de gasolina só não foi maior no ano passado porque o consumo de etanol hidratado subiu 20,1%, impulsionada por uma produção recorde de etanol, superando as dificuldades por que passa o setor. Apesar disso, em janeiro a importação de gasolina somou 358 milhões de litros, 2,2 vezes o volume do mês anterior. 

Os fundamentos que justificam a estratégia de desenvolver no Brasil a produção e o uso intensivos de etanol combustível continuam válidos como nunca. É crucial substituir gasolina importada paga com divisas geradas à custa da exportação de bens que embutem elevado uso de recursos naturais, como água e recursos minerais. Desde 1975, já foram substituídos pelo etanol 2,41 bilhões de barris de gasolina, um grande marco para um país que possui reservas estimadas entre 13,3 e 16,6 bilhões de barris dependendo do conceito utilizado, incluindo o Pré-Sal. O valor da gasolina substituída atinge 185 ou 381 bilhões de dólares, dependendo da inclusão ou não dos custos da divida externa evitada, enquanto nossas reservas são de 372 bilhões de dólares sem levar em conta as operações de swap cambial. Em 2014, as exportações líquidas de açúcar e etanol geraram um resultado de 10,1 bilhões para a balança comercial. Sobre esse valor devem ser acrescidos 14,7 bilhões de dólares de gasolina substituída pelo etanol. 

O governo tem a oportunidade de elevar a mistura de etanol na gasolina para 27%. 
Esta medida, além de contribuir para reduzir a importação de gasolina, está em linha com as mais modernas tendências do mercado automotivo, que através de maior octanagem no combustível permitem o desenho de motores menores e mais eficientes. Permitem principalmente a substituição de aromáticos contidos na gasolina, que por seu elevado conteúdo energético consomem muito petróleo para serem produzidos, e são altamente nocivos à saúde. Aromáticos são cotados a premio de 30% a 45% sobre o preço da gasolina, e é este o valor que deveria ser considerado referencia para o etanol. 

O setor pode também ser solução para o aumento da oferta de eletricidade no curto prazo, bem como economia de água nas hidroelétricas. 

Enquanto não houver uma política de longo prazo que valorize a produção de cana, açúcar e etanol pelo que representa para o desenvolvimento, o país estará fadado a consumir volumes crescentes de combustível fóssil importado e a perder espaços no mercado internacional duramente conquistados no passado. 

(*) É presidente da DATAGRO que é a maior consultoria de etanol e açúcar e uma das maiores do mundo.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Lixo, um inimigo invisível

Paulo Terron 

Cada vez mais presente em nossas vidas e, ainda assim, muitas vezes invisível, o lixo é um dos maiores inimigos do mundo contemporâneo. É possível acabar com ele? 

O ritual de colocar o lixo para fora de casa traz uma sensação irreal; a de que a nossa relação com aqueles resíduos termina ali, distante da intimidade dos nossos lares. 
Uma pesquisa do Ibope, há dois anos, apontava o tratamento e acúmulo de lixo como a quarta preocupação do brasileiro sobre o meio ambiente, atrás de desmatamento, poluição da água e aquecimento global. 
"Como na maior parte do Brasil existe coleta de lixo, ele parece ser objeto de um passe de mágica; você o coloca para fora de casa e alguém o leva", explica Helio Mattar, diretor-presidente do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente. "O problema vem de um impacto que não é perceptível", completa. 

Para Mattar, a falta de conhecimento sobre os impactos do lixo no meio ambiente ajuda nessa passividade. "Para as pessoas, uma vez que o lixo sai dos domicílios, alguém está cuidando dele. O suposto é que o problema está sendo resolvido. 
Mas o impacto da decomposição nos lixões, que gera enormes quantidades de chorume que entram pela terra e poluem lençóis freáticos, é algo que não é visto. 
É completamente invisível, opaco." 

Em 2013, cada habitante do Brasil produziu em média pouco mais de 1 quilo de lixo ao dia. Esse número - que não considera, por exemplo, dejetos industriais - é parecido com a média de outros países, como Suécia e Estados Unidos. A diferença, entretanto, está no destino desse lixo. 

Resolver a questão pode não ser simples, mas há alguns caminhos para isso. Afinal, a maior parte dos resíduos pode ser reaproveitada, especialmente na compostagem (para orgânicos), reciclagem e até na polêmica queima para geração de energia. 
A Política Nacional de Resíduos Sólidos, lei aprovada em 2010 depois de mais de duas décadas de debate e impasse, é um marco nesse sentido. 

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Água diminui, represa sobe

Fernando Reinach (*) 

Para não ficar cantando durante o banho, verifico antes como anda o Cantareira. Na quinta-feira, 15, restavam 8,2% do volume útil. Suspiro e banho rápido. 

Nesta sexta-feira, 16, repeti minha rotina. Levei um susto. O Sistema Cantareira estava com 26,7%. Como o volume de água no reservatório poderia ter aumentado 18% em uma noite? Curioso, entrei no Diário do Sistema Cantareira, no site da Sabesp. Informava que havia começado o bombeamento do "volume morto" (quantidade de água que fica no fundo da represa) do Sistema Cantareira. O texto dizia: "Com isso, o nível do Sistema Cantareira será acrescido de 182,5 bilhões de litros de água, o que fará com que o nível suba 18,5% a partir desta sexta-feira". 

Se não estivesse acompanhado essa enorme crise ambiental que assola São Paulo, teria tomado um banho longo e despreocupado, afinal o Cantareira estava salvo! Mas não se engane: os 26,7% são uma ilusão retórica. 

O que aconteceu foi que, com o começo do funcionamento das bombas, a quantidade de água disponível para ser vendida em São Paulo realmente aumentou. Estamos sugando o fundo da represa, o chamado "volume morto" ou, como prefere a Sabesp, a "reserva técnica". Na lógica do marketing, se esse volume passou a ficar disponível, porque não somá-lo ao nível da represa? Parece simples. Talvez seja purismo, mas, na minha opinião, essa soma é uma forma de desonestidade intelectual que prejudica a compreensão da crise que estamos vivendo. 

O discurso honesto seria dizer que o Sistema Cantareira está no limite de sua capacidade e que sua maior represa, responsável por 83% do volume, está com somente 1,7% de sua capacidade útil. Quando a capacidade útil chega a zero, o sistema deixa de ser capaz de fornecer água para São Paulo. 

O Sistema Cantareira abastece de água quase 9 milhões de pessoas. Se ele deixar de levar água para São Paulo, boa parte dessas pessoas não terá água em suas casas. Felizmente, parte dessas residências pode ser abastecida por outras represas, mas metade delas não pode ser abastecida de outra maneira e teria de receber água de caminhão-pipa ou ser desocupada.

Dada a seriedade do problema foi decidido instalar uma série de bombas capazes de coletar parte do "volume morto". Esse é o volume de água que garante a recuperação da represa e sua sobrevivência no longo prazo. Essa decisão foi inevitável e vai garantir o abastecimento por alguns meses, talvez até o inicio do próximo período de chuva. Mas é importante dizer que essa decisão envolve riscos. Se gastarmos a maior parte do "volume morto" durante este ano e não chover no final do ano, talvez não exista sequer água para organizar um racionamento em 2015. Além disso, a retirada dessa água vai dificultar, atrasar ou mesmo impedir a recuperação do Sistema Cantareira. 

Mas discurso honesto é difícil. 

Para entender o problema, é preciso saber que quando uma represa é projetada, é praxe não colocar o túnel que capta a água no ponto mais profundo da represa. Isso garante a existência de um volume que nunca é retirado, o que permite a recuperação do reservatório. É o "volume morto". Além disso, os engenheiros definem um mínimo operacional, abaixo do qual é recomendável reduzir drasticamente a retirada de água de modo que o reservatório possa cumprir sua função por mais tempo. Quando o Sistema Cantareira foi construído, o nível mínimo operacional foi definido em 829 metros (é o número de metros acima do nível do mar em que se encontra a superfície da água) e o "volume morto" começava aos 820,8 metros. 

Como eu descrevi no artigo da semana passada, durante a seca de 2004, o reservatório ficou abaixo de 829 metros, e os governos estadual e federal decidiram redefinir o nível do volume mínimo, que passou a ser igual ao início do volume morto (820,8 metros). Naquela época foi usado o mesmo truque retórico. Da noite para o dia, o volume do Sistema Cantareira "cresceu" quase 20%. O equivalente aos 8 metros entre 829 e 820,8.
Foi a primeira vez que o Cantareira "subiu" de nível sem que entrasse uma gota de água. Agora chegamos nos 820 metros, e foi necessário instalar as bombas. E, com elas, o "nível" cresceu novamente. A água diminui, mas a represa sobe. 

Como disse Ésquilo: "A primeira vítima de uma guerra é a verdade".

(*) Biólogo , Professor titular , Professor universitário, colunista do Estadão

sexta-feira, 28 de março de 2014

A Amazônia como esperança e solução

Washington Novaes (*) 

As maiores inundações das últimas décadas em Rondônia, principalmente em Porto Velho, por causa do Rio Madeira e das hidrelétricas nele construídas, segundo muitos especialistas; as enchentes no Acre e o bloqueio de rodovias abertas há décadas; a polêmica sobre deficiências no estudo de impacto ambiental no Rio Madeira - tudo isso trouxe a Amazônia de volta ao centro de discussões, em que se envolveu até a presidente da República. 

Na questão do Rio Madeira, segundo técnicos, o problema da contribuição das hidrelétricas para as enchentes calamitosas se deve a que seu estudo de impacto ambiental (EIA) não levou em consideração os aumentos dos fluxos de água vertida pelos reservatórios, vindos para o Brasil em decorrência do derretimento de gelos nos Andes - fenômeno observado há décadas pelos cientistas da área do clima. Mas a presidente da República criticou a visão dos técnicos.

O debate logo se ampliou para toda a questão de hidrelétricas na Amazônia, já que estão planejadas também usinas para a bacia do Tapajós e para a área do Rio Teles Pires (igualmente criticadas por técnicos e ambientalistas). Em meio a tudo, voltou à cena parecer do Ibama, de 2007, que sugerira se dobrasse a área alagável prevista nos projetos do Madeira e sugerira um EIA-Rima mais abrangente, incluindo a Bolívia. 
Também na Amazônia, a Justiça de Rondônia mandou agora rever os estudos do EIA-Rima de outra usina, Belo Monte. A Fundação Nacional do Índio lembrou (Estado, 19/3) que, das 31 condicionantes estabelecidas para essa usina, 22 estão atrasadas ou não saíram do papel - principalmente as que são de responsabilidade do próprio governo. 

Polêmicas sobre hidrelétricas na Amazônia são antigas. Basta lembrar a que cercou a construção da Usina de Tucuruí, principalmente para fornecer energia mais barata que a do mercado a empresas fabricantes de alumínio, que vieram até de outros países. 
Ou a própria polêmica sobre a Usina de Belo Monte, em que a construtora se recusa agora a assinar termos de compromisso para garantir a execução dos projetos de mitigação de impactos para grupos indígenas. 

Outra discussão é a dos impactos decorrentes dos fluxos de migrantes gerados por projetos como esses - e outros. Agora mesmo, em Porto Velho, um dos problemas está exatamente na ausência de infraestruturas para receber esses fluxos, centenas de milhares de pessoas (que já se fixaram em Porto Velho). Em Tucuruí também foi assim, como já está sendo em Altamira, por causa de Belo Monte. E já ocorrera em projetos de outras áreas, como o Jari. Ao todo, há 366 projetos hidrelétricos em oito países amazônicos, já planejados (soldepandobolivia, 19/3), em implantação ou em operação. 

Usinas não são a única questão na Amazônia. 
Quem se preocupa em quantificar os efeitos das migrações de centenas de milhares de pessoas para áreas beneficiadas por projetos de incentivos fiscais (isenção de impostos) para indústrias? Que ocorreu em Manaus, por exemplo, onde, por causa da poluição, grande parte da população que migrou tem de consumir apenas água subterrânea, embora a cidade seja cercada por rios do porte do Solimões e do Negro. 
E em Belém, onde apenas 8% da população dispõe de coleta de esgotos e estes são despejados nos rios. 

Mas nada demove os planejadores oficiais. 
Não anunciou a própria presidente o lançamento de edital para a implantação da Hidrovia Tocantins-Araguaia, que começará pelo derrocamento (remoção de pedras submersas) do Pedral do Lourenço, com a construção de um canal de calado mínimo de 3 metros e largura de 145 a 160 metros no Tocantins (Agência Brasil, 21/3)? 

Projeto semelhante tem sido defendido para um canal no Rio Araguaia, mais extenso que o Canal do Panamá, para assegurar um leito navegável, já que o rio recebe resíduos de erosões que mudam o leito navegável de lugar de ano para ano (milhões de metros cúbicos anuais, já medidos por hidrólogos da Universidade Federal de Goiás). 

Nas duas obras, quem pagará? Que fará para remover os resíduos conduzidos pelo rio e os o que forem retirados na implantação? E não é para finalidades como as da hidrovia que se está acabando de implantar a Ferrovia Norte-Sul? 

O Brasil precisa de uma estratégia para a Amazônia, que deixe de considerar a floresta ou os povos que a habitam como "obstáculos" ao progresso. 
A floresta é um dos habitats da biodiversidade brasileira (pelo menos 15% da planetária), fonte de novos medicamentos, novos alimentos, novos materiais que substituirão os que se esgotarem. E vários estudos mostram que áreas indígenas são o melhor caminho para a conservação dessa biodiversidade, mais eficiente até que parques e áreas de proteção legalizados. 

A Floresta Amazônica é também essencial para a parte brasileira (12%) da água superficial no planeta - alto privilégio. E para o clima. O mundo continua a perder áreas florestais -15,5 milhões de hectares por ano, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, em 21/3). Mesmo aqui, embora tenha diminuído bastante o desmatamento, há lugares (Mato Grosso, principalmente) e períodos em que ele recrudesce. 

Também não se pode postergar mais a preparação de projetos competentes para a área do clima. O Ministério do Meio Ambiente tem dito que não consegue aplicar R$ 90 milhões com essa destinação, que poderiam ir para convênios com Estados e municípios, que não os fazem. Os graves problemas do clima que estamos enfrentando podem repetir-se. 

Não podemos fazer da Amazônia um problema - ela deve ser uma solução. 
Nem podemos perder a esperança. Há uns 20 anos o autor destas linhas perguntou a uma jovem nordestina, que carregava um recém-nascido no colo e migrara para a última fronteira da penetração em Rondônia, se ela e o marido tinham esperança de enriquecer ali. E ela, serena, respondeu: "Nós já semo rico de esperança". 

(*) É jornalista. E-mail: wlrnovaes@uol.com.br.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Crônica de uma morte anunciada

José Goldemberg (*) 

O que está acontecendo com o sistema que produz eletricidade no Brasil lembra bem o maravilhoso romance de Gabriel García Márquez que conta a história de um assassinato premeditado. Acusado por Angela Vicario de tê-la desonrado, o jovem Santiago Nasar é morto a facadas pelos irmãos dela. Toda a localidade fica sabendo com antecedência da vingança premeditada, mas nada salva Santiago do seu trágico destino, anunciado logo na primeira linha do romance. 

Mais de 80% da energia elétrica gerada no Brasil se origina em usinas hidrelétricas, nas quais a força das águas movimenta as máquinas que produzem a eletricidade.
Elas dependem, portanto, de chuvas regulares e de reservatórios que acumulem a água para ser usada nos meses (ou anos) em que chove menos. 

Reservatórios, às vezes, inundam terras férteis ou áreas cobertas com florestas. 
É preciso que as empresas que constroem as hidrelétricas reassentem a população afetada - alguns milhares de pessoas em geral - e reduzam ao mínimo os impactos ambientais decorrentes da formação dos reservatórios. Há muitos casos em que isso foi feito com sucesso, como em Itaipu. Em outros, como Balbina, os cuidados devidos não foram tomados em tempo. 

Sucede que desde 1985, nas usinas hidrelétricas construídas no País, os reservatórios de água foram negligenciados, tornando-se cada vez menores. A razão para tal foi a falta de visão e coragem de sucessivos governos para enfrentar os problemas tanto sociais como ambientais, que não eram considerados prioritários. 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Santarém-Cuiabá, ilusão e mentiras de 162 anos

Manuel Dutra (*) 

Nos dias de hoje ainda ouço a voz pausada do general Geisel, a voz metálica do general Figueiredo, a promessa solene de Maluf, (Collor nada disse), mas FHC o disse em duas campanhas, e Lula disse em quatro: “meu governo (o deles!!!) concluirá a Santarém-Cuiabá”. Na década de 50 JK já dissera o mesmo. Não faz muito tempo, foi a vez de Marina Silva, a atual candidata a presidenta: "Nós conseguimos impedir o asfaltamento de uma grande rodovia na Amazônia". ****************************************************************************** 

Este artigo eu publiquei do Diário do Pará em 2002. Quase uma década depois, não perde a sua atualidade, como, aliás, as demais realidades da Amazônia, onde coisas velhas permanecem aí como se novas fossem. 

“Meu pai trocou o Marajó pelo Baixo Amazonas aos 18 anos, depois que meu avô ouviu umas conversas de que haveria emprego farto na construção de uma estrada de ferro por aquelas bandas."

Meu pai morreu em 1997 com 92 anos e a Santarém-Cuiabá ficou pela metade, chão raspado, poeira total no verão e lama intransponível no inverno. Nas suas margens, dezenas de milhares de famílias, roçados, fazendas e vários municípios há pouco criados, a despeito do isolamento. 

Para os que não conhecem o assunto, é preciso dizer que aquela estrada já existe há mais de 30 anos, o que falta é concluí-la dentro do território paraense, extensão de cerca de 800 quilômetros não asfaltados. 

A primeira “conversa” de que se tem notícia, de construir uma estrada ligando o Centro do Brasil à Bacia Amazônica, data de 1851, quando Augusto Leverger, Barão de Melgaço, na qualidade de presidente da Província de Mato Grosso, informou ao Imperador Pedro II sobre o traçado de uma ferrovia que se propusera estudar o Imperial Corpo de Engenharia, para comunicar os dois pontos do território brasileiro, a partir das vilas de Santarém e de Cuiabá. 

Outras “conversas” podem ser datadas: 1864, 1865, 1878, 1880, 1883, 1893 e 1895. Neste último ano o Congresso Estadual do Pará autorizou o governador Lauro Sodré a contratar uma empresa para a construção de uma linha férrea entre o Pará e o Mato Grosso. 

Desse ano até 1997 podemos conferir 40 outros momentos em que se anunciou a construção da estrada ou adoção de medidas a respeito do projeto que, aos poucos foi virando projeto de rodovia. 

A ideia de ligação do Centro Oeste ao coração da Amazônia, porém, é bem mais antigo. Os registros das primeiros expedições partindo da região central em direção ao Pará levam a 1747, viagens que hoje nos parecem loucuras, transpondo cachoeiras, descobrindo rios, contactando grupos indígenas, encontrando ouro e pedras preciosas onde séculos depois seriam os imensos garimpos do Tapajós e adjacências. 

As primeiras projeções visavam ao transporte fluvial, depois à ferrovia e, por fim, à rodovia e, novamente por fim, o inacabamento de um projeto, ou mais uma ilusão de gerações e gerações daqui e de lá que, a despeito do abandono, travam contato comercial há mais de 250 anos, quando carregavam fardos em canoas rústicas e nas costas nas transposições dos alagados e corredeiras. Por esse aspecto, o coração da Amazônia acha-se, relativamente, ligado ao coração do Brasil há 2 séculos e meio. 

Nos dias de hoje ainda ouço a voz pausada do general Geisel, a voz metálica do general Figueiredo, a promessa solene de Maluf, (Collor nada disse), mas FHC o disse em duas campanhas, e Lula disse em quatro: “meu governo (o deles!!!) concluirá a Santarém-Cuiabá”. Na década de 50 JK já dissera o mesmo. 

Ano passado li que “o Ministério do Meio Ambiente realiza oficina para consolidar as ações para o plano de desenvolvimento sustentável na área de influência da rodovia Cuiabá-Santarém”. E que a ministra Marina Silva esteve presente à “oficina”, quando declarou:
"É o primeiro experimento de fazer uma estrada com governança na Amazônia" (O que será isso?!). 

Num programa de TV em rede nacional, disse a mesma ministra:
"Nós conseguimos impedir o asfaltamento de uma grande rodovia na Amazônia". 

A mentira agora, pelo menos, está explícita. A secular idéia da estrada, ao contrário do que pensam alguns, tem menos a ver com Santarém e com Cuiabá do que com a geopolítica centralista dos governos do Brasil. Integrar o território amazônico ao país, por trilho ou asfalto, é algo até agora inaceitável para as elites do poder maior da Avenida Paulista ou, com mais crueza, do Porto de Santos, ambos apoiados por fortes bancadas no Congresso. 

E a questão ambiental? A verdade, como já dito, é que a estrada já existe e lá vivem milhares de famílias, bem ou mal produzindo. Se o asfaltamento ou os trilhos são fatores de penetração da agressão ambiental, então a nossa geração nada mais tem a fazer. 
Se somos uma sociedade incapaz de impor a lei em todo o espaço nacional, fracassamos. Para terminar: a agressão ambiental já está implantada ao longo da BR-163, com toda a poeira do verão e a lama das invernadas. Talvez com asfalto ou trilho será (será?) mais fácil impedir ou diminuir a agressão...” 

 (*) Jornalista, professor universitário com especialização em Educação Ambiental e mestrado em Planejamento do Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido,

sábado, 9 de novembro de 2013

Que árvores existem na Amazônia?

Fernando Reinach (*) para O Estado de S.Paulo 

Quantas espécies de árvores existem na Amazônia? Você não sabe? Não se preocupe, porque ninguém sabe. Mas agora cientistas obtiveram uma primeira estimativa. São aproximadamente 16 mil espécies. Essa descoberta veio com uma surpresa. As 227 espécies mais frequentes são responsáveis por 50% de todas as árvores presentes na região. 

Mais de uma centena de cientistas se juntaram para estudar 1.170 quadrados de mata espalhados pelos 6 milhões de quilômetros quadrados de florestas que compõem a região amazônica. Cada um desses quadrados de 100 por 100 metros (o tamanho de um quarteirão) foi vasculhado palmo a palmo. As árvores foram contadas, identificadas e classificadas (a definição de árvore usada pelos cientistas é qualquer planta com um tronco com mais de 10 centímetros de diâmetro). Dado o tamanho da amostra, e a distribuição desses quadrados por toda a região, os cientistas acreditam que esses dados são suficientes para inferir a real biodiversidade de árvores presentes na região. 

Nos 1.170 quadrados foram identificadas e classificadas 639.639 árvores, o que indica que na Amazônia a densidade média é de 565 árvores por hectare e o total de árvores existente na região é de 3,9 x 1011. Isso equivale a mais de 50 árvores por habitante do planeta Terra (somos aproximadamente 7,1 x 109 pessoas). Se cada um de nós derrubar uma árvore por dia, em menos de 2 meses liquidamos a floresta. 

Nessa amostra de 639.639 árvores foram identificadas 4.962 espécies. O resultado mais surpreendente foi a distribuição das diferentes espécies. As 227 espécies mais abundantes da floresta representam 50% de todas as árvores presentes na amostra. As outras 4.750 espécies representam os outros 50% da amostra. 

Em seguida, os cientistas organizaram as 4.962 espécies por ordem de representatividade na floresta. Para tanto, colocaram no eixo vertical de um gráfico a quantidade de indivíduos de cada espécie, e no eixo horizontal a posição da espécie no ranking de representatividade. Esse gráfico permite extrapolar uma reta que cruza o eixo horizontal na espécie de número 16 mil. É com base nessa extrapolação que os cientistas acreditam que devem existir aproximadamente 16 mil espécies de árvores nesse ecossistema. Esse número é muito parecido com o número de 15 mil espécies estimado por diversos outros métodos. 

A distribuição desigual de espécies significa que, apesar da grande biodiversidade de árvores, um número pequeno de espécies é responsável por grande parte de todas as árvores, enquanto as outras espécies possuem poucos exemplares na região. 

Essa desigualdade é enorme: 227 espécies cobrem 50% da floresta, 5.853 espécies cobrem 49,88% da floresta e as restantes 10 mil espécies cobrem 0,12% da floresta. Isso significa que as 6 mil espécies menos frequentes na Amazônia são extremamente raras. Os cálculos feitos pelos cientistas indicam que provavelmente elas possuem menos de 1 mil indivíduos em toda a região amazônica. 

Essa descoberta tem implicações importantes para os estudos da região amazônica. Como grande parte da floresta é composta por um pequeno número de espécies, os cientistas acreditam que a floresta é provavelmente muito menos resistente às mudanças ambientais do que se imaginava. Se o ambiente se tornar desfavorável para uma fração das espécies dominantes, grande parte da floresta desaparece. 

Além disso, a baixa frequência das espécies mais raras (com menos de 1 mil indivíduos em toda a região) torna praticamente impossível fazer um levantamento completo de todas as espécies presentes na região. É provável que muitas dessas espécies desaparecerão muito antes de serem identificadas. 

Esse estudo é um bom exemplo do pouco que sabemos sobre a biodiversidade da Amazônia. Tal como a caixinha de Pandora, a floresta é cheia de surpresas. 

(*) É biólogo

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

A terra usurpada

Lúcio Flávio Pinto (*) 

Em 1971 o governo federal se apropriou de dois terços das terras devolutas da Amazônia Legal, com seus quase cinco milhões de quilômetros quadrados. Foi o maior ato de usurpação fundiária da história da humanidade, realizado através de um pedaço de papel, um instrumento jurídico característico dos regimes de exceção: o decreto-lei, que é a intromissão do Executivo na esfera de competência do Legislativo. 

Mas não houve reação. O Brasil estava no auge da ditadura, sob o governo do general Garrastazu Médici (1969/74). Os Estados se achavam totalmente submissos ao poder central. A opinião pública estava anestesiada. E, ainda por cima, predominava a crença de que a União era mais eficiente, sábia e justa do que os entes federados. /;/;/;/ Essa crença perdurou até recentemente sobre as áreas de várzeas da Amazônia. Com base em uma regra centenária, considerava-se que as áreas situadas a até 33 metros de profundidade, em terra a partir da linha do preamar médio de 1831, por serem terras de marinha, pertenciam à União. 

Era uma regra legal, que se legitimava na certeza de que seria melhor assim. No princípio, para a defesa da costa contra agressões externas. Em seguida, para ação agrária. Esse entendimento está chegando ao fim, por ser obsoleto, e nem ao menos profícuo. As cortes supremas (STF e STJ) e a própria justiça federal de primeiro grau parecem dispostas a estabelecer agora a verdade: essas terras são da jurisdição estadual. 

Na contramão dessa tendência, o SPU (Superintendência do Patrimônio da União) anda pelas ilhas e várzeas se apossando de áreas de ocupação antiga por gerações de paraenses. Alega que, assim, promoverá regularização fundiária e assentamento rural, transformando as condições sociais de vida, que causam desigualdades e injustiças. Uma espécie de reforma agrária pervertida, realizada através de burocracia, papel no lugar de realidade (ainda que seja papel de primeira qualidade, usado para a impressão dos documentos avalizados pela SPU). 

domingo, 22 de setembro de 2013

Estamos preparados para o pré-sal e o gás de xisto?

Washington Novaes (*) 

Anuncia-se que em novembro vão a leilão áreas brasileiras onde se pretende explorar o gás de xisto, da mesma forma que estão sendo leiloadas áreas do pré-sal para exploração de petróleo no mar. Deveríamos ser prudentes nas duas direções. No pré-sal, não se conhecem suficientemente possíveis consequências de exploração em áreas profundas. No caso do xisto, em vários países já há proibições de exploração ou restrições, por causa das consequências, na sua volta à superfície, da água e de insumos químicos injetados no solo para "fraturar" as camadas de rocha onde se encontra o gás a ser liberado. Mas as razões financeiras, em ambos os casos, são muito fortes e estão prevalecendo em vários lugares, principalmente nos Estados Unidos. 

No Brasil, onde a tecnologia para o fraturamento de rochas ainda vai começar a ser utilizada, há um questionamento forte da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da Academia Brasileira de Ciências, que, em carta à presidente da República (5/8), manifestaram sua preocupação com esse leilão para campos de gás em bacias sedimentares. Nestas, diz a carta, agências dos EUA divulgaram que o Brasil teria reservas de 7,35 trilhões de metros cúbicos em bacias no Paraná, no Parnaíba, no Solimões, no Amazonas, no Recôncavo Baiano e no São Francisco. A Agência Nacional de Petróleo (ANP) estima que as reservas podem ser o dobro disso. Mas, segundo a SBPC e a ANP, falta "conhecimento das características petrográficas, estruturais e geomecânicas" consideradas nesses cálculos, que poderão influir "decisivamente na economicidade de sua exploração". 

E ainda seria preciso considerar os altos volumes de água no processo de fratura de rochas para liberar gás, "que retornam à superfície poluídos por hidrocarbonetos e por outros compostos", além de metais presentes nas rochas e "dos próprios aditivos químicos utilizados, que exigem caríssimas técnicas de purificação e de descarte dos resíduos finais". A água utilizada precisaria ser confrontada "com outros usos considerados preferenciais", como o abastecimento humano. E lembrar ainda que parte das reservas está "logo abaixo do Aquífero Guarani"; a exploração deveria "ser avaliada com muita cautela, já que há um potencial risco de contaminação das águas deste aquífero". 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Belo Monte, a guarda do paraíso

Lúcio Flávio Pinto (*) para O Estado do Tapajós  

Construir a primeira grande hidrelétrica na Amazônia sob uma ditadura foi relativamente fácil, desafios de engenharia à parte. Em pouco mais de uma década a usina de Tucuruí, no rio Tocantins, no Pará, a quarta maior do mundo, saiu das pranchetas e começou a funcionar, em 1984. Esse modelo foi seguido até o início da construção da segunda grande hidrelétrica, que avançaria no rumo oeste, chegando ao rio Xingu. Ela também não devia enfrentar resistências incontornáveis. Acabaria se consumando pela força da sua própria formulação; 

Na semana passada esse modelo chegou novamente ao impasse e bem próximo da exaustão. O principal canteiro de obras da usina de Belo Monte foi de novo ocupado por índios, desta vez em número ainda maior (170 deles), e dispostos a resistir ao desalojamento. Tão dispostos que simplesmente rasgaram a ordem de reintegração da posse do local pelo consórcio construtor. 

Apesar de o mandado ter sido assinado por um juiz federal, Sérgio Wolney de Oliveira Guedes, da subseção judicial de Altamira, os índios desprezaram o documento. Depois de o destruírem, cantaram e dançaram para reafirmar sua decisão de se manter no sítio Pimental, sob o cerco de tropa militar e da polícia. 

É pouco provável que qualquer agrupamento de não-índios ousasse tanto. Mas aqueles que voltaram pela segunda vez em maio a interromper as obras da hidrelétrica tinham motivos reforçados para essa atitude. Os munduruku, os mais numerosos, tinham visto um dos seus integrantes ser morto durante escaramuça (ainda não completamente elucidada) mais a oeste ainda, no rio Tapajós. A Força Nacional decidiu investir contra os munduruku que tentavam impedir os trabalhos preliminares visando uma nova usina de grande porte. Houve reação, choque e violência. 

Além desse precedente em sua própria terra, os índios estavam também sensibilizados pelo conflito que irrompeu durante outro cumprimento de mandado judicial, em Mato Grosso do Sul, numa área de litígio entre os terena e um fazendeiro. O índio Oziel Gabriel foi morto a tiro. Para os ocupantes do canteiro de Belo Monte esse foi um estímulo à radicalização: só aceitariam negociar se fosse diretamente com o ministro Gilberto Carvalho, chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República. Não em Brasília, como ele queria: no Xingu mesmo. 

Depois de conversas tensas, aceitaram ir até o ministro, com quem acertaram audiência para esta terça-feira, 4. Aceitaram que os serviços no canteiro fossem retomados, sem deixar o local. A expectativa foi transferida para a reunião na capital federal. Os índios querem que a construção no Xingu e o início das obras do complexo hidrelétrico do Tapajós sejam condicionados a ouvi-los e obter-lhes a aprovação. Pela legislação, essa audiência prévia tem caráter consultivo e não deliberativo. 

A grande maioria da população brasileira apoiaria também uma radicalização do governo, convencida que os índios violaram a lei, abusaram dos seus direitos e ultrapassaram os limites do bom senso. A minoria é que se posiciona em favor da causa indígena, atribuindo-lhe prioridade sobre os sempre lembrados objetivos do desenvolvimento (e mesmo da segurança) nacional. 

sábado, 8 de junho de 2013

Lixo: muita sujeira para baixo do tapete

Reinaldo Canto (*)  

A sociedade brasileira, com raras e honrosas exceções, segue acreditando em mágica e fenômenos milagrosos dignos de feiticeiros e curandeiros dos tempos mais primitivos. Só a completa ignorância a envolver autoridades públicas, iniciativa privada e população em geral para desconhecer de maneira tão persistente e descontrolado aumento na geração de lixo, ou melhor, resíduos sem que isso traga consequências nefastas para todos. 

A crença semelhante aos de mitos tradicionais como Papai Noel e Coelhinho da Páscoa é, nesse caso, transposto sem qualquer dificuldade para um mundo pretensamente adulto, em relação ao fantástico desaparecimento dos sacos de lixo. Algo extraordinário a rivalizar com as maiores façanhas de grandes mágicos. Pois basta colocar na porta de casa ou ao fim de um dia de trabalho intenso de uma loja ou restaurante para que aquele material descartado simplesmente desmaterialize de maneira inodora e indolor. 

Só assim para entender as conclusões do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, divulgado recentemente pela Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais). Em 2012 a geração de lixo por habitante chegou à casa dos 383 quilos anuais, o que representou quase 64 milhões de toneladas de resíduos gerados no País durante o ano passado. Os números correspondem a um aumento de 1,3% em relação ao relatório de 2011, maior do que o crescimento populacional de 0,9% constatado no mesmo período. 

terça-feira, 21 de maio de 2013

Gás de xisto, uma nova revolução energética?

José Goldemberg (*) 

A Revolução Industrial teve início no fim do século 18 e foi baseada no uso do carvão. A Inglaterra, com suas amplas reservas desse mineral, liderou a revolução. Com o correr do tempo, contudo, o petróleo começou a substituir o carvão por causa de suas características mais atraentes, como ser líquido e mais fácil de transportar. Finalmente, em meados do século 20, o gás natural, que é mais limpo, começou a dominar o cenário energético. 

O que vemos aqui é a confirmação do malicioso comentário atribuído ao secretário-geral da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) de que "a Idade da Pedra não acabou por falta de pedras", mas pela descoberta de que metais eram melhores para fazer machados (ou lanças) do que pedras. 

Hoje, no mundo, o carvão representa 26% do consumo de energia; o petróleo, 32%; e o gás natural, 20%. O petróleo é ainda dominante, mas a produção mundial está se concentrando no Oriente Médio porque nos Estados Unidos (o maior consumidor mundial) e na maioria dos demais países ela está caindo. 

Os Estados Unidos importam do Oriente Médio metade do petróleo que consomem (cerca de 10 milhões de barris por dia), a um custo de mais de US$ 300 bilhões por ano, e não são poucos os que acreditam que as guerras naquela região do mundo (principalmente no Iraque) têm que ver com a necessidade de obter garantias de fornecimento por governos mais amistosos. 

domingo, 14 de abril de 2013

Elefantes brancos na Amazônia

Lúcio Flávio Pinto (*) 

Com seus 1.800 quilômetros de extensão, a linha de transmissão de energia de Tucuruí a Macapá e Manaus não é a mais extensa do Brasil. Mas é a de maior complexidade. Ela possibilitará que a capital do Estado do Amazonas, a cidade de maior população da Amazônia (com dois milhões de habitantes), saia do seu atual isolamento e passe a fazer parte do Sistema Interligado Nacional. 

O SIN une o Brasil quase por inteiro, sob um controle centralizado (do Operador Nacional do Sistema). O ONS compatibiliza cada uma das bacias hidrográficas, despachando energias de uma área com excesso de geração para outra, com escassez. É sistema único no mundo, em tais dimensões. 

Mas para que chegue ao Amazonas, ao Amapá e à margem norte do Pará, a linha terá que atravessar o rio Amazonas, que pode atingir 40 quilômetros de largura em alguns trechos. Uma alternativa era o lançamento de cabos subaquáticos. A hipótese foi descartada. A solução foi fazer a travessia aérea. 

Duas torres possibilitarão a passagem por sobre o mais extenso e volumoso rio do planeta, cuja bacia drena 8% da água doce superficial da Terra. Em cada margem do rio, as duas torres serão as maiores já erguidas em qualquer parte do mundo. Sua altura, de 295 metros, supera à da Torre Eiffel, o cartão postal de Paris. 

domingo, 7 de abril de 2013

As florestas no centro das grandes estratégias

Washington Novaes (*) 

É impressionante como boa parte da sociedade e dos meios empresariais - no Brasil e fora daqui - continua a entender que temas como conservação de florestas, biodiversidade e mudanças climáticas nascem da fantasia de "ambientalistas" desocupados e extravagantes. Não levam em conta, na sua visão crítica dos "ambientalistas", os impactos negativos da predação dos ecossistemas, principalmente na área da produção econômica - ainda que sejam cada vez mais frequentes os estudos que alertam para essas consequências. 

Quem estiver nessa posição deve prestar atenção às palavras do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, diplomata competente e experimentado, capaz de coordenar a convivência de quase 200 nações, com autoridade sobre departamentos e órgãos científicos, conferências e acordos internacionais. Nas recentes comemorações do Dia Internacional da Água, Ban Ki-moon fez um apelo em favor da redução do desmatamento e da perda de florestas no mundo, pois elas cobrem um terço da superfície do planeta e influem decisivamente em serviços vitais para a sobrevivência humana - fluxos de água, regulação do clima, fertilidade do solo etc. (e esses serviços prestados gratuitamente pela natureza, já foi comentado neste espaço, valeriam três vezes mais que todo o produto bruto mundial se tivessem de ser substituídos por ações e tecnologias humanas). 

Segundo o secretário-geral da ONU, 2 bilhões de pessoas dependem de florestas para sua subsistência e sua renda e 750 milhões nelas vivem; ali nasce mais de metade das águas do planeta; nelas está grande parte da diversidade de ecossistemas e metade das espécies terrestres de animais e plantas. Mas além da exploração comercial em busca de madeiras, da derrubada para implantar culturas e pastagens, as florestas sofrem porque 3 bilhões de pessoas ainda usam madeira como combustível. Pelas mesmas razões, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) tomou idêntica posição, lembrando ainda que a perda de florestas afeta a segurança alimentar, principalmente das populações mais pobres, já prejudicadas pelo desperdício de mais de 1 bilhão de toneladas anuais de alimentos. 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Belo Monte já nasceu velha

Paulo Leandro Leal (*) 

A Usina Hidrelétrica de Belo Monte é uma obra essencial para o Brasil. Sem ela, teríamos dificuldades de atender a demanda da energia elétrica nos próximos anos. Por isso o governo decidiu enfrentar organizações ambientalistas poderosas e o lobby indigenista e construir a mega hidrelétrica. A idéia era fazer do empreendimento um modelo de grande projeto na Amazônia dentro de um novo paradigma: a sustentabilidade. Mas Belo Monte nasceu com um problema de origem grave, unindo o atrasado oligarquismo brasileiro ao novo nacionalismo-estatismo. Belo Monte já nasceu velha. 

O maior problema de Belo Monte não é a questão ambiental. Muito menos indígena. O maior problema do projeto se chama Norte Energia S/A. A empresa que venceu a concessão pública do empreendimento é um mostrengo criado pelo governo às vésperas da licitação. Deveria ser privada, mas na prática funciona como um braço do estado, controlado pelo governo federal, através de empresas estatais e dos fundos de pensão. Reúne a conhecida incompetência estatal brasileira à voracidade de um capitalismo que já deveria ter morrido no século passado. 

Tudo somado, a Norte Energia reúne o que há de mais atrasado no Brasil em matéria de divisão entre o que é público e o que é privado. Na empresa, esta divisão simplesmente não existe, confundindo-se interesses de grandes empresas aos do governo, ou mesmo servindo para acomodar interesses de velhas oligarquias políticas que há muito deveriam estar desalojadas do coração do poder. A empresa se transformou numa espécie de órgão governamental a serviço do lucro de grandes empreiteiras e traders do setor elétrico e da mineração. 

O resultado não poderia ser pior. Uma empresa que parece pairar acima do bem e do mal. Com poderes para destituir de presidentes do Ibama até calar membros do Ministério Público Federal, ou ainda perseguir aqueles que ousam atravessar o seu caminho. É o braço pesado da União na sua pior forma. Por isso a Norte Energia não faz nenhuma questão de dialogar com a sociedade regional, que foi engana e vê a hidrelétrica sendo construída sem que as contrapartidas prometidas pelo governo sejam cumpridas. 

A região sob influência do projeto está sofrendo todos os velhos problemas causados por grandes projetos na Amazônia. A economia está aquecida, mas tão logo os milhares de trabalhadores comecem a ser demitidos, tudo tende a voltar a ser como antes: desemprego, falta de infraestrutura. O cenário é de terra arrasada. Tudo por conta de uma empresa que não aceita críticas, faz questão de descumprir o que determina o licenciamento ambiental e de mudar as regras do jogo a qualquer momento. 

Belo Monte vau cumprir seu papel fundamental que é gerar a energia que o Brasil precisa para crescer. Mas dificilmente será modelo de projeto na Amazônia. Tudo aponta para um caminho tortuoso: mais um grande projeto implantado na Amazônia a toque de caixa, com total desrespeito às sociedades locais e dando em troca algumas migalhas, deixando um legado de injustiças sociais e desigualdade. O governo criou o monstro, e parece alimentá-lo para que cresça ainda mais, ao invés de tentar corrigir os erros. 

(*) Jornalista, empresário, empreendedor na Amazônia. É presidente da empresa Ecoamazônia Comunicação e Marketing, sócio da empresa LCTP Empreendimentos & Construções

sábado, 16 de março de 2013

Não faltam avisos: cuidado com o clima

Washington Novaes (*) 

É preciso insistir e insistir: as grandes cidades brasileiras - mas não apenas elas - precisam criar com urgência políticas do clima que as habilitem a enfrentar com eficiência os "desastres naturais", cada vez mais frequentes e intensos e que provocam um número cada vez maior de mortos e outras vítimas; precisam arrancar do fundo das gavetas projetos que permitam evitar inundações em áreas urbanas; criar planos diretores que incorporem as novas informações nessa área; rever os padrões de construção, já obsoletos, concebidos em outras épocas, para condições climáticas muito mais amenas - e que se mostram cada vez mais vulneráveis a desabamentos; incorporar as universidades nessa busca de formatos científicos e tecnológicos. 

Segundo este jornal (21/2), de 12 locais alagados em uma semana no mês passado na cidade de São Paulo, 11 já sofriam com inundações há 20 anos - entre eles, alguns dos pontos com mais veículos e pessoas, como o Vale do Anhangabaú, a Avenida 23 de Maio, a Rua Turiaçu. E a Prefeitura de São Paulo promete desengavetar 79 obras antienchentes, algumas delas abafadas há 15 anos. Inacreditável. O governo do Estado assegura que vai trabalhar em 14 piscinões (outros 30 caberão a parcerias público-privadas), além de aplicar mais R$ 317 milhões em desassoreamento do Rio Tietê, onde já foi gasto R$ 1,7 bilhão (terá de gastar muito mais enquanto não decidir atuar nas dezenas de afluentes do rio sob o asfalto, que carregam sedimentos, lixo, esgotos, etc.). A população paulistana ficará muito grata - ela e 1 milhão de pessoas que entram e saem diariamente da cidade (Estado, 27/2).

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Quem poderá salvar os guarani-caiovás?

Washington Novaes (*) 

w-novaes.jpg (667×1010)Há mais de 20 anos - 15 dos quais nesta página - o autor destas linhas escreve sobre a situação dramática dos índios guarani-caiovás, em Mato Grosso do Sul (MS). Naquele tempo já eram centenas os casos de suicídio entre essa gente (a segunda maior etnia indígena no País, 45 mil pessoas). E já nesse tempo eles não tinham onde viver segundo seus formatos próprios - as terras para as quais gradativamente os expulsavam eram muito pequenas, não permitiam manter a tradição de plantar, colher, caçar, pescar. Fora de suas terras, sem formação profissional adequada, seguiam a trajetória fatal: trabalhar como boias-frias, tornar-se alcoólatras, mendigos, loucos. E suicidas, como o jovem de 17 anos que se matou no dia seguinte ao de seu casamento - enforcou-se numa árvore e, sob seus pés, na terra, deixou escrito: "Eu não tenho lugar". 

Quando ganhou espaço na comunicação a atual crise em dois hectares onde vivem 170 índios (Estado, 29/10), dois dias antes se suicidara um jovem de 23 anos, pelas mesmas razões. Felizmente, a desembargadora Cecília Mello, do Tribunal Regional Federal, determinou que os guarani-caiovás permaneçam na área até que se conclua a delimitação da que lhes deve caber - e onde estão "em situação de penúria e falta de assistência", o que, segundo ela, "reflete a ausência de providências do poder público para a demarcação das terras". Dizia o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), nesse momento, que 1.500 guarani-caiovás já se haviam suicidado. 

Só pode levar ao espanto trazer à memória que havia 5 milhões de índios ocupando os 8,5 milhões de quilômetros quadrados em 1500, quando aqui chegaram os colonizadores - ou seja, cada um com 1,7 quilômetro quadrado, em média. E hoje os guarani-caiovás da aldeia em questão precisam ameaçar até com suicídio coletivo para manterem 170 pessoas em dois hectares, 20 mil metros quadrados, menos de 120 metros para cada um, pouco mais que a área de um lote dos projetos habitacionais de governos. Mas nem isso lhes concedem. 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Belo Monte e o garimpo bilionário

Belo Monte abre caminho para garimpo bilionário no Rio Xingu 

Blog da Amazônia de Altino Machado 

altino145.jpg (145×145)A hidrelétrica de Belo Monte vai abrir caminho para um grande projeto de exploração de ouro na Volta Grande do Rio Xingu, o trecho que será mais impactado pela obra, com a perda de até 80% de sua vazão. 

A companhia Belo Sun Mining Corporation, com sede no Canadá, apresenta o empreendimento como o “maior projeto de ouro em desenvolvimento no Brasil”. A previsão é de um investimento total de pouco mais de US$ 1 bilhão e de que, em 11 anos de operação, deverão ser produzidas 51,2 toneladas de ouro, uma média de 4,6 toneladas de ouro por ano. 

O Ministério Público Federal (MPF) em Altamira (PA) já começou a investigar o projeto Belo Sun Mining, que está sendo licenciado pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Pará (Sema). 

O Relatório de Impacto Ambiental (Rima) do projeto, no entanto, não leva em consideração a barragem e por isso não avalia os impactos cumulativos que um empreendimento desse porte poderá causar numa região sob severo dano ambiental. 

A hidrelétrica só é mencionada na parte sobre fornecimento de energia, mas na verdade a mudança na vazão e no curso do rio vai viabilizar a implantação da mina pela Belo Sun Mining Corporation. 
A procuradora da República Thais Santi questiona a realização de um empreendimento desse porte em uma área já fragilizada com a instalação da usina de Belo Monte, justamente a região que é afetada pelo desvio da vazão do Xingu para alimentar as turbinas da hidrelétrica. 

O MPF questiona a ausência de informações sobre impactos aos indígenas na Volta Grande. Não há estudos e a Fundação Nacional do Índio (Funai) sequer foi consultada para o licenciamento. 

O MPF solicitou ao Departamento Nacional de Produção Mineral informações sobre as licenças de exploração que a empresa Belo Sun Mining Corporation tenha na região do Xingu. De acordo com o site da empresa, trata-se de um empreendimento com sede no Canadá e “portfolio” no Brasil. - Belo Sun Mining está pesquisando ouro ao longo dos cinturões mais ricos em minério no norte do Brasil, uma região com vasta riqueza mineral e uma indústria mineradora vibrante e moderna. 

O Brasil tem uma indústria de mineração de importância mundial com um potencial de exploração considerável. O Brasil também tem clima político favorável, com um código de mineração recentemente modernizado e, apesar destas condições geológicas, permanece largamente inexplorado – diz o site da empresa na internet. 

A companhia informa que detém os direitos de pesquisa e lavra em uma área de 1.305 quilômetros quadrados que é conhecida pela mineração artesanal. 
É uma das preocupações do MPF, já que, de acordo com os moradores das ilhas da Volta Grande do Xingu, eles ainda detém os direitos de lavra na região.

(*) Acreano, ex-repórter dos jornais O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O Pará vai tremer ....



Padre Sidney Canto (*)

Sei que posso estar me equivocando, pois me falta a formação necessária na área, mas analisando os dados que tenho lido nos últimos dias, posso chegar às seguintes reflexões...


No final do mês de junho (dia 29, festa de são Pedro) houve um abalo sísmico na região do Baixo Tocantins...

Chamou-me atenção a explicação dada para tal tremor: pode ser atribuído a uma
acomodação do solo por conta da Hidrelétrica de Tucuruí. Ou seja, o peso do volume do lago de Tucuruí provocou o abalo.


Isso não é novidade nenhuma, já acontece em áreas próximas a outras hidroelétricas construídas por este mundo de Deus... 


A água tem peso, a gravidade tem força... A água dos lagos de Usinas Hidroelétricas não estava lá antes. Foi acumulado de forma artificial, por conta de uma intervenção humana. 


Qualquer aluno (bom aluno) de física e geografia do ensino médio pode calcular as implicações deste acumulo de peso sobre o solo da Amazônia...




Agora imaginemos que o que aconteceu no Baixo Tocantins, também poderá acontecer no Baixo Xingu e no Baixo Tapajós por conta das novas hidroelétricas que estão sendo construídas... 


O Pará vai (literalmente) tremer... 


Agora vem a pergunta: estamos preparados para estes terremotos, um admirável "efeito colateral" das construções de Hidroelétricas na Amazônia? 


Será que nossos engenheiros previram isso ao construir antigos edifícios dessas regiões? 
O que fazer? A quem recorrer? 


A natureza se adapta, o solo reage ao peso, mas e o ser humano, estará adaptado para isso? 


Esperemos para ver o Pará tremer. Esperemos ou lutemos para evitar o que parece já ser previsível. 


 (*) Presbítero da Diocese de Santarém e Presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós.