Antenor Pereira Giovannini (*)
Para muita gente, aposentado no Brasil é sinônimo de velho, de pobre, de inválido, de encosto, de chateação. Quanto menos deles houver, melhor será. Quanto menos aposentados tivermos melhor fica a situação geral. Menos filas nos hospitais, menos necessidade de gastos para Previdência Social, menos gente velha com cara de sofrimento andando pelas ruas. Uma classe perfeitamente dispensável. Muito melhor seria um País somente de gente nova, bonita e atuante. É como a nossa realidade, o nosso dia a dia se nos apresenta em quase todo o Brasil.
É curioso e até um tanto irônico que, quando se é jovem e atuante no mercado de trabalho poucos se dão conta que um dia se tornarão velhos (se não morrerem antes, naturalmente) e que, mais dia, menos dia, quer queiram ou não, serão substituídos por alguém em seu trabalho. Essa percepção mais do que evidente deveria ser clara e óbvia, mas, aqui em nosso País essa realidade parece que não conta. Ninguém respeita os mais velhos, ninguém respeita o aposentado. Basta observar em qualquer lugar público a atenção dada quando alguém já de certa idade e com pelo menos aparência de aposentado se apresenta seja lá para o que for. Na grande maioria de vezes é tratado com desprezo e com desdém.
Sabe-se que tudo advém da educação de cada um, porém já se tornou praxe que aposentado é sinônimo de pobreza e, como tal, deverá ser tratado a distancia e com pouca importância. Nos bancos de um modo geral já é um comportamento clássico. Lá estão centenas de pessoas marcadas muitas vezes pelo sofrimento de uma vida dura e calcada numa jornada de trabalho estafante e que as privou das maravilhas do consumo. Trazem no rosto, nos braços e nas mãos a rudeza gerada pelos obstáculos enfrentados e, em muitas vezes, uma enorme e sentida carência pela simples vontade de viver. E para eles se reserva um desrespeito e uma falta de atenção impressionantes que chegam a despertar verdadeiro sentimento de raiva e repulsa, tamanho é o pouco caso com que essas pessoas são tratadas. Nas filas de hospitais públicos, (já que o acesso ao particular é literalmente impossível em virtude das questões financeiras), o descaso fica ainda mais gritante, como se aquela pessoa que humildemente apresenta sua identificação de aposentado, fosse apenas um saco de batatas que pode ser atendida de qualquer maneira e na hora em que bem entenderem os detentores das rédeas. E se não estiver satisfeito, que procure outro hospital/clinica. E assim é na rua ou em outro lugar. O que se observa é o flagrante do desrespeito.
Nunca ninguém se dá ao trabalho de pensar que aquela pessoa já curvada pelo peso dos anos, de pele enrugada, já foi jovem, já foi ativo e de uma maneira ou outra serviu para que alguma coisa, por menor que seja, tenha sido feito ao longo de sua vida, em prol de si mesmo, mas, sobretudo, em prol da sociedade. Certamente construiu uma família, teve filhos e seus filhos se desenvolveram. Tudo isso é forma rica e valiosa de contribuir para a sociedade. As contribuições previdenciárias efetuadas por muitos e muitos anos não se traduzem hoje no seu soldo real e muitos se vêem em situação dramática para sobreviver.
O próprio governo, incompetente para administrar todo esse pacote Previdenciário, acaba enveredando pelos viciantes atalhos de programas assistenciais inclusive com concessões de remédios de graça, exatamente porque o principal não atende a maioria dos aposentados. Muitos praticamente mendigam arrastando o mês com intuito único de sobrevivência. Isso quando não são obrigados a continuar trabalhando (aqueles que ainda conseguem algum bico) para equilibrar o orçamento doméstico.
Enquanto isso na Capital das Maravilhas onde tudo acontece, mas, ninguém consegue enxergar as coisas ruins, nossos ilustres Senadores, Deputados, Ministros e até mesmo o a presidência da República, possuem suas nababescas aposentadorias que os deixam absolutamente tranqüilos quando deixarem essa profissão de Parlamentar (se é que vão deixar já que muitos têm cadeira cativa fixada com cola). Hoje se tem noticia, mais uma vez revoltante, de mais uma comissão de aposentados literalmente implorando e fazendo vigília para que esses digníssimos representantes do povo analisem mais uma situação envolvendo a classe e, o que é pior, situação essa que mais uma vez a está sacrificando.
Um dos objetivos é pedir que senadores e deputados derrubem o veto presidencial ao projeto que estende aos aposentados e pensionistas o mesmo reajuste de 16,67% concedido ao salário mínimo em 2006. O veto diz respeito a uma emenda, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS). Para que ele seja analisado, é preciso marcar sessão conjunta do Senado e da Câmara. O senador acredita ser necessário a análise urgente do veto pelos parlamentares. "É importante essa pressão democrática para que seja dado um tratamento mais igualitário aos aposentados. Eu acredito que o Congresso vai se sensibilizar, é uma vergonha para o Parlamento entrar de férias sem votar o veto." Ou seja, lá estão os aposentados mais uma vez de chapéu na mão implorando, se humilhando para que a classe que já produziu, já pagou e alto seu preço pelo trabalhão desenvolvido, tenha simplesmente um direito seu reconhecido.
Lembrem-se jovens: permita Deus vocês possam envelhecer e saibam que se o caminho que hoje vocês encontram aberto, um dia foi realizado por alguém, que hoje está velho e precisa ter seu trabalho reconhecido, tal qual você amanhã.
(*) Aposentado e morador em Santarém

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