CADA MACACO NO SEU GALHO, SE NINGUÉM FOR MUITO PESADO
Bellini Tavares de Lima Neto
Um dos assuntos que nunca sai da mídia é a própria imprensa. Seja porque ela, titular primeira da atividade de informar, acaba sendo a arauta de si mesma, seja porque nunca falta quem esteja disposto a falar sobre ela, a imprensa não sai da imprensa.
Ainda recentemente, o Poder Judiciário ou uma de suas bandas, resolveu decidir de maneira estranha um pleito que lhe foi submetido e que acabou ressuscitando uma prática que parecia adormecida: a censura. E fez o que fez justamente contra um dos órgãos de imprensa que mais se destacou no trato com a censura ao longo da história deste nosso país, uma história de altos e baixos no que diz respeito ao senso democrático.
O destaque foi tanto e a evocação aos tempos de chumbo foram tão intensos que só faltou, mesmo, um bom trecho de “Os Lusíadas” ou uma tentadora receita de bolo para que, ao menos parte de nós, se sentisse garotos novamente, buliçosos dos anos sessenta e setenta.
Ainda recentemente o atual titular do cargo de presidente da república, que, aliás, alterna sentimentos de respeito e execração à imprensa que chegam à bipolaridade, declarou publicamente que o papel da imprensa é informar e não fiscalizar.
Não é que cause qualquer espanto a ninguém essa nova demonstração de poligrafia com que o referido titular da presidência da república brinda os circunstantes.
Quem lê jornais, revistas ou acompanha o noticiário pela televisão já não se surpreende com a vastidão dos conhecimentos gerais demonstrados por ele. O que, no entanto, causa certa frustração é perceber que os órgãos informativos insistem em não pesar um pouco mais e com mais profundidade o conteúdo da observação presidencial. Informar e não fiscalizar, esse pode ser perfeitamente o papel da imprensa. Talvez até se pudesse acrescentar um terceiro elemento: a avaliação, o juízo de valor.
Quem sabe o melhor fosse, mesmo, que a imprensa não fiscalizasse e tampouco emitisse qualquer opinião, juízo de valor.
A imprensa se limitaria a informar.
Parece pouco? Pois se alguém se dispuser a refletir um pouco sobre isso, é possível que se conclua que já é bastante. Desde o inicio de 2002, quando o atual presidente eleito pelo voto popular assumiu o poder, vem-se travando no Brasil uma verdadeira batalha de informações, discursos, chavões, frases de efeito.
Nesses últimos sete anos, alguns bordões já foram cunhados como marcas do período em que se vive. O já tão repetido “nunca neste país” talvez seja o mais comum deles. Mas também se fala e muito acerca da “herança maldita” do governo anterior, da inércia dos mais de 500 anos que antecederam a fase atual.
Há um verdadeiro culto às realizações da atual administração que incluem até a descoberta de petróleo na camada pré-sal. Do outro lado do muro há as vozes que afirmam que o grande mérito dos atuais mandantes foi o de não interromper o processo econômico instalado especialmente em meados dos anos noventa, esse sim o verdadeiro responsável pela fase de prosperidade trazida pelos ventos otimistas da economia mundial.
E o papel da imprensa? Será que trará algum resultado positivo a atitude de abrir espaço para qualquer dos dois lados? O que se tem visto é uma verdadeira batalha de declarações, ofensas, presunçosas ironias e, com raras exceções, um vendaval de comentários grosseiros e sem qualquer refinamento intelectual.
Porque, então, a imprensa não opta por uma outra forma de atuação? Sim, a do puro inventário das ações. Os dados informativos são, hoje, ainda mais fáceis de se obter e colecionar do que anos atrás. Bastaria, então, que a imprensa organizasse um grande levantamento de tudo o que tem acontecido nesses últimos sete anos nos campos mais importantes da vida nacional: saúde, educação, transportes, segurança, economia, honestidade, seriedade, eficiência no controle dos gastos públicos, eficiência da justiça.
Esses são alguns dos itens que poderiam compor o grande inventário.
Seguramente há outros. E tudo poderia ser feito sem a emissão de um único juízo de valor, partidarismo, crítica, condenação ou absolvição.
Apenas os fatos.
Seria apenas e tão somente a aplicação prática da velha máxima de que contra fatos não há argumentos.
Seria a imprensa no papel reclamado pelo mais alto mandatário da nação e sua ilimitada perspicácia. Só não poderia haver reclamações depois.
(*) Dr. Bellini Tavares de Lima Neto - Advogado e morador em S.Bernardo do Campo (SP)
Texto publicado na edição de hoje do jornal O Estado do Tapajós
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