Eurico Miranda: 'Estou em estado de coma e vou sair dele agora'
Ex-presidente do Vasco garante que não assistiu a um único jogo do time na Série B e se diz feliz por ter mais tempo para curtir a família e os netos
Dezesseis meses após ter deixado a presidência do Vasco, Eurico Miranda tem a aparência de outra pessoa. Mais magro e bem menos estressado, ele parece seguir apenas com um velho hábito. Do corredor do escritório de advocacia que mantém no centro do Rio de Janeiro era possível sentir o cheiro da fumaça de seus charutos. Por cerca de duas horas, o ex-presidente do Vasco conversou com o GLOBOESPORTE.COM.
Apesar de criticar a administração de Roberto Dinamite, preferiu não falar em derrota política no ano passado. Mas admitiu que prolongou demais a sua permanência no poder do clube. Precisava sair para cuidar da saúde, muito abalada com dois sérios problemas.
- Eu deveria ter saido (do Vasco) até um pouco antes. Hoje eu tenho certeza de que se não tivesse saído do Vasco hoje eu estaria fisicamente muito mal. Essas coisas não acontecem por acaso.
Na sala, que voltou a trabalhar todos os dias após sair do Vasco, Eurico exibe poucas recordações. Nada de faixas de campeão, fotos de conquistas, camisas ou troféus que colecionou durante os anos em que esteve no clube. Em vez disso, fotos dos filhos e dos netos e uma imagem de Nossa Senhora de Fátima. Entre as dezenas de livros de Direito Cível e Penal é possível encontrar um DVD comemorativo dos 10 anos do título da Taça Libertadores.
Durante a conversa com o GLOBOESPORTE.COM, Eurico manteve o tom sereno na voz e não se exaltou uma única vez. Com o Vasco podendo garantir a volta para a Primeira Divisão neste sábado, no Maracanã, com uma vitória sobre o Juventude, Eurico espera, como define, acordar novamente.
- O Vasco na Segunda Divisão para mim é um pesadelo. Vou acordar dele, com certeza. Não há pesadelo que dure para sempre. Vou acordar e o Vasco vai estar no lugar dele, que é na elite. Estou naquele estágio que a gente fica quando está em coma.
A rotina de Eurico Miranda mudou bastante desde que deixou a presidência do clube. Ele passou a ficar mais com a família, dar mais atenção aos cinco netos. Chegou até ir passear na Disney, tirar fotos com o Mickey. Mas a maior transformação foi deixar de ver os jogos do Vasco por oito meses, durante toda a Série B.
- Não assisto aos jogos. Como disse, estou em estado de coma e vou sair dele agora.
Eu me recuso a ver qualquer coisa do futebol na Segunda Divisão. Mas só estou neste estado com o futebol, não em relação ao Vasco como um todo. Só voltei a São Januário para a reunião de beneméritos. Nunca mais voltei lá. Não volto porque me dói ver como se destrói. Construir é difícil, muito difícil. Destruir é fácil - disse.
Mais longe do Vasco, Eurico passou a se cuidar. Tratou de um sério problema de saúde.
E passou a dar mais atenção à família. Aos domingos, religiosamente vai às missas na Igreja.
- Em função do Vasco e da vida que levei eu não vi os meus filhos crescerem como deveria. Tive muita sorte que a minha mulher fez o papel de mãe e pai. E não estava tendo essa oportunidade com os meus netos. Meu neto estava fazendo quase quatro anos e estava difícil de ele me chamar de vovô. Posso sentir essa falta (do Vasco), mas agora posso ver esse lado que estava deixando de lado.
Neste sábado, quando o Vasco enfrenta o Juventude, Eurico Miranda não vai estar no Maracanã. Nem vai acompanhar a partida pela televisão. Vai procurar apenas saber do resultado que considera previsível.
- Normalmente nos dias dos jogos do Vasco (na Série B) eu não estava aqui no Rio. Como não vou estar agora neste próximo jogo. Mas você toma conhecimento (do resultado). Não vejo o jogo completo, mas tomo conhecimento do que aconteceu nas resenhas esportivas na TV ou pela Internet. É impossível ficar alienado no mundo de hoje - disse Eurico, que não tinha dúvida de que o time voltaria para a Primeira Divisão.
- Só a camisa do Vasco, só a camisa do Vasco... pode colocar quem quiser lá dentro dela... só a camisa do Vasco disputando essa competição resolve o problema. Os adversários são tão inferiores como um todo que só a camisa, sozinha, resolve.
Eurico admite que ao longo dos anos no futebol criou uma imagem polêmica,de amor ou ódio. Mas não se preocupa com isso.
- Quando eu saí, quiseram passar uma situação que me derrotaram no Vasco. Mas eu não fui derrotado no Vasco. Eu não participei de eleição. Apoiei um candidato. Não podia continuar. Já tinha dito que ia sair. Precisava me tratar e tinha que sair de qualquer maneira. Eu não fui derrotado, nem me senti derrotado.
Globo Esporte

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