sábado, 21 de novembro de 2009

De mãe para mãe

Recebemos do leitor Gentil Gimenez o seguinte comentário a respeito da postagem sobre a carta "De Mãe para Mãe".
Agradecemos não somente a audiência do leitor , mas tal qual o seu nome muito Gentil de sua parte (desculpe o trocadilho) as palavras a respeito do blog e seu conteúdo.
Queremos melhorar e os leitores podem e devem nos ajudar. Forte abraço


Caro Antenor:


Embora eu não seja ainda um leitor contumaz de seu blog, mas como pretendo sê-lo, tenho aumentado minhas leituras dos artigos e demais publicações dessa sua coluna. Se assim venho fazendo, é porque tenho encontrado uma satisfação pessoal nessas leituras. A diversidade e a qualidade dos assuntos focados, confesso, talvez venha servindo como chamariz para essas investidas em seu blog.
Como excelente exemplo recente, o artigo da Carta de Mãe para Mãe, no qual uma mãe, a do infrator, expõe seus receios sobre o futuro de seu filho, preso na FEBEM. Enquanto isso, a outra mãe, a do jovem assassinado pelo infrator, expõe suas agruras e suas odisséias, após a morte do filho, por assassinato. E aqui se degladiam pontos de vista sobre os chamados Direitos Humanos.
Uma das características marcantes de nós, brasileiros, embora uma característica nada saudável, é a deturpação de conceitos. O conceito de Direitos Humanos, objeto de estudos de filósofos há séculos e séculos, teve sua origem (essa talvez seja a teoria mais consolidada) no conceito de Direito Natural, mas aquele direito natural proveniente da criação do homem por Deus. E na base desse conceito, porque divino, estaria o direito à vida. Um direito básico e valioso, no pensar dos arquitetos dessa corrente. O direito à vida é um direito fundamental. Em cima desse conceito, o filho infrator tem direito à vida, como um direito natural (ou divino). Isso talvez explique as razões de sua mãe lutar pela vida de seu filho bandido. Por sua vez, e sem que qualquer mílimetro tire a mesma importância, o filho assassinado da mãe que chora no cemitério tinha direito à vida e ninguém poderia tirá-la. É a ordem natural divina, ou o direito natural, ou, mais "modernamente", o Direito Humano. Mas é uma pena que esse conceito de Direito Humano venha se deturpando. Na essência, ele até que é bonito. Contribuiu para essa deturpação, creio eu, o antagonismo entre a nefasta ditadura militar, de 21 anos (a última), e a Teologia da Libertação, no seio da Igreja Católica. A Igreja, no seu papel, reivindicando o direito à vida dos torturados e dos desaparecidos; a ditadura, defendendo o direito à vida dos que morreram em defesa do regime militar. Ambos defendendo direito à vida, mas em campos opostos. O conceito de Direitos Humanos, de divino, passou a ter também uma forte conotação política. Como havia mais simpatia, e até mais substância, nos movimentos defendidos pela Igreja e por outros movimentos (ainda não se falavam em ONGs) que lutavam pelo fim da ditadura, e cabe aqui destacar o papel da mídia, mais propensa a esses movimentos do que defender a ditadura, venceu, diríamos assim, o lado de Direitos Humanos da Igreja e dos diversos movimentos pelo fim da ditadura. Acabada a ditadura, e sem uma grande causa política a defender (com justíssima razão) em termos de Direitos Humanos dos torturados e dos perseguidos (sem falar dos mortos), temos hoje o Direitos Humanos em defesa do bandido comum que mata. Quando confrontado com o Direitos Humanos daquele que foi morto, por assassinato, o choque e a revolta são grandes. Particularmente, penso que deveríamos estar falando mais e brigando mais pelos Direitos Civis, mais terrenos, mas não menos importantes. Se tivéssemos nossos Direitos Civis respeitados, e se todos, a começar pelos nossos governantes que são exemplos do que não se deve fazer, respeitassem um os direitos (civis) do outro, talvez não tivéssemos tantos bandidos comuns, tantos crimes a lamentar e tanta insegurança. Teríamos aí, naturalmente, o filho hoje bandido, como um cidadão, solto e com ficha limpa, trabalhando e estudando e com um futuro promissor pela frente. Por outro lado, a mãe que chora o filho morto, estaria com ele vivo e ele, vivo, estudando e trabalhando, normalmente, como qualquer cidadão, e igualmente com um futuro promissor pela frente.


Gentil Gimenez
seu leitor

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