A barbárie do conhecimento
Luis Fernando Vitagliano (*)
Vi, absurdamente chocado, as imagens que mostraram perseguição e condenação pública da estudante da Uniban em São Bernardo do Campo por usar uma minissaia. Em reportagens li depoimentos que descrevem meninas indignadas com a saia da estudante, querendo forçá-la a tirar sua roupa no banheiro e colocar calça. De repente havia pressões de todos os lados. Nos vídeos que circulam na internet é possível ouvir nitidamente palavras de baixo calão. Li relatos sobre cuspes e chutes na porta.
Mas nada se compara ao absurdo deste fato ter ocorrido nas dependências de uma universidade. Até mesmo aulas foram interrompidas. E o mais assustador: seguranças, coordenadores e professores - não todos evidentemente - pareciam reforçar o comportamento público e também condenar as escolhas pessoais da estudante. Justo em uma universidade, lugar que deve primar pelo respeito mútuo e colaboração, encontramos tamanha demonstração de preconceito.
A não ser que uma norma escrita pela universidade discrimine nitidamente qual tipo de vestimenta os alunos não devem usar nas dependências dos campi, cada um tem o direito de vestir-se da maneira que lhe convier.
Discuti o evento com meus alunos, que calorosamente se posicionaram sobre o acontecido. Na tentativa de entender a irracionalidade do comportamento das massas e a epifania da barbárie, nossos argumentos se afloraram. A forma mais usual de justificar os atos de preconceitos protagonizados naquela dependência universitária é dizer que a roupa abusada foi usada para causar reações. “Quem sai vestida assim professor, quer provocar!”
O argumento não se justifica. Aliás, é perigoso porque transformam a vítima em algoz. O argumento inverte valores e posições. A estudante universitária da minissaia foi vítima de preconceito e não quem o provocou. O ocorrido é basicamente uma demonstração de intolerância com relação a escolhas pessoais. Associa a roupa às escolhas sociais: estereótipo.
Posso dizer que eu até entenderia reações contrárias ao uso das roupas ditas “abusadas” se formassem uma crescente manifestação contra o uso da minissaia. Mas o caso foi nitidamente uma demonstração de intolerância e falso moralismo.
É alarmante pensar que gerações de estudantes estão se formando sem o discernimento de que o respeito às posições de grupos sociais diferentes e/ou minoritários merece espaço na sociedade. Pior é perceber o nível de hipocrisia no Brasil: uma sociedade onde o bumbum é o carro-chefe de toda a televisão aberta de repente trata uma minissaia como um atentado violento ao pudor.
Desesperador, no meu caso, é saber que isso acontece no corpo discente (com consentimento de docentes) do ensino superior.
(*) Mestre em Ciência Política pela UNICAMP e professor de Relações Internacionais da FMU. Escreve no blog Além da Serra

Nenhum comentário:
Postar um comentário