sexta-feira, 23 de julho de 2010

O Sonho Amazônico do Amazon Dream

Por Ney Imbiriba (*) e Sebastião Imbiriba (**)

O Amazon Dream e a Compagnie Amazonienne de Navigation, sua proprietária e armadora, são fruto da paixão de dois idealistas Bernard Ramus por estas plagas do Tapajós, e Jean Thomas Bernardini que vieram a esta região, trazidos pela Paratur, em 1996, para proferir palestra sobre captação de capitais estrangeiros, em seminário de Turismo realizado na UFPA em Belém. Após o seminário, os franceses foram trazidos pelo presidente da Paratur a Santarém onde conheceram o Tapajos Amazon Lodge, construído por outros dois compatriotas em 1990 e paralisado por desentendimento dos sócios. Bernard e Jean Thomas se apaixonaram por esta bela Terra da Felicidade e adquiriram os direitos sobre o Lodge. De lá para cá foram inúmeras as provas de amor explícito desses empreendedores e operadores turísticos pelo Tapajós e pelo nosso povo. Apesar de inúmeros percalços, eles, Bernard, principalmente - Jean Thomas Bernardini se retirou da sociedade em abril de 2010 - con-tinuam demonstrando essa paixão pelas gentes e coisas desta região.

O sonho, por vezes, se torna pesadelo.
O Pólo Tapajós de Turismo, que abrange praticamente todos os municípios do Tapajós e do Baixo Amazonas paraense, sofre duro golpe com o acidente sofrido pelo gaiola B/M Amazon Dream, adernado pela força de tempestade equatorial nas proximidades de Itaituba, sexta-feira, 16 de julho de 2010, com a lastimável perda de uma vida humana.
É um golpe, pela fatalidade ocorrida e pelos danos materiais diretos de seus passageiros, tripulantes e armadores. A perda de renda e emprego decorrentes da paralisação das atividades do Amazon Dream afetam também as comunidades incluídas nos roteiros das excursões do gaiola, assim como os fornecedores terceirizados de bens e serviços necessários á operação.

O Amazon Dream não é uma operação simples.
Trata-se de uma complexa estrutura de operação turística que exige profundo conhecimento da arte, desde o planejamento dos trabalhos de relações públicas, dos roteiros das excursões, da captação de investidores, do recrutamento de colaboradores e agentes de viagem distribuidores do produto, tudo seguindo as mais modernas técnicas do marketing turístico coordenado e levado à perfeição. Esse projeto é exemplo de competência no planejamento e execução de operação turística.

A idéia original do barco fez parte do projeto do Tapajos Amazon Lodge, que os investidores franceses pretendiam restaurar, ampliar e operar onde hoje está implantada a Reserva Extrativista Tapajós Arapiuns, como via de acesso entre Santarém e o hotel de selva. O Lodge era um projeto de altíssimo valor ambiental e social, além de econômico, mas se tornou impraticável pela irracionalidades burocráticas kafkianas na criação da Resex. Isto, em si foi um tremendo retrocesso no desenvolvimento do turismo nesta região. Diversos projetos em andamento, inclusive as negociações para estabelecer conexão em Caiena entre vôos da Air France, provenientes de Paris, e vôos da então ainda operante Penta, destinados a Santarém, ruíram impossibilitando o grande salto esperado no número de turistas europeus rumo ao Tapajós. Esta rota talvez evitasse o fechamento da Penta. Quando o Lodge se tornou im-praticável, por falta de visão de burocratas e até sabotagem por ativistas ambientais totalmente desinformados, o projeto do barco ganhou nova dimensão, passando a ser ele próprio o meio de hospedagem durante as excursões que passaram a ser mais extensas e mais elaboradas.

O Amazon Dream surpreendeu a muitos operadores receptivos e hoteleiros regionais incapazes de vislumbrar um projeto dessa envergadura.
Este primeiro barco seria apenas o início de um projeto de muito maior alcance.
O Amazon Dream foi lançado no mercado europeu e mundial pelo site http://www.amazon-dream.com/portugal/index.php e por um encarte especial de seis páginas no Le Figaro Magazine (enviarei cópia em PDF a quem o solicitar via simbiriba@gmail.com).

Todos sabemos o quanto o Pará d’Oeste sofre com a profunda recessão provocada, não pela marolinha da crise mundial, mas pelo tsunami da intencional paralisação da indústria florestal e afugentamento da agricultura mecanizada sem que fossem tomadas providências para criar alternativas e precauções mitigadoras do desemprego em massa em toda a região. Santarém e toda sua área de influência ficaram economicamente esvaziadas, com extenso desemprego e fechamento de inúmeras empresas.
O PAC poderia ser um mitigador das dificuldades financeiras, mas os recursos orçamentários não são liberados. A esperança de que as eleições pudessem injetar algum dinheiro nesta região não se concretiza pelas novas restrições legais aos gastos de campanha. Uma alternativa para esse descalabro recessivo pode ser o Turismo.
Nesta direção, o Amazon Dream é um semente a frutificar, exemplo a ser seguido.
O destino, porém, nos infelicita, mais uma vez, com o desastre de Itaituba.

O sonho do Amazon Dream é importante demais para se extinguir.
O sonho do Amazon Dream não pode parar por um desastre, por mais doloroso que tenha sido. O sonho tem que continuar, não somente pela beleza do sonho em si, mas pelas lições que nos proporciona: como empreender, como captar e receber turistas, como hospedar com elegância, sentimento e eficiência, como incluir comunidades ribeirinhas e das florestas, educá-las, fazê-las participar de projeto turístico e de seus resultados.
Este ideal não pode acabar.
O Amazon Dream tem que continuar.
Esta região toda e seu povo, suas autoridades e suas lideranças nas áreas política, trabalhista e empresarial devem se levantar e apoiar por todos os modos, ajudar a reerguer esse sonho, fazer reviver este belo sonho, o sonho do Amazon Dream.

(*) Arquiteto
(**) Pesquisador, escritor, poeta

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