quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Acertos e erros


Eliane Cantanhêde (*)

Lula foi chamado de "o cara" pelo presidente da maior potência mundial e virou o "homem do ano" do "El País", espanhol, e do "Le Monde", francês. Mas,  a política externa brasileira foi excessivamente polêmica e colheu críticas dentro e fora do país.

Repassando acertos e erros:

Honduras
O Brasil encabeçou a defesa dos princípios democráticos, acolheu o presidente deposto, Manuel Zelaya, na embaixada em Tegucigalpa e pediu socorro aos EUA para decidirem a questão.
Mas... ao se atrelar a um só lado, o de Zelaya, o Brasil se inviabilizou como mediador e jogou no impasse ao se recusar a acatar as eleições sem a volta de Zelaya ao poder. Com isso, entrou em choque com os EUA.

França
Acordo estratégico com a França fortalece a posição política do Brasil como "player" internacional e um dos líderes emergentes.
Mas... ao anunciarem a vitória da França no contrato para a compra de 36 caças, antes da avaliação da FAB, Lula e o chanceler Celso Amorim passaram vexame internacional

Disputas
Rio venceu Chicago, Madri e Tóquio para ser a sede das Olimpíadas de 2016, numa eleição com Obama presente. Lula chorou.
Mas... o governo esnobou dois bons candidatos brasileiros para a direção geral da Unesco para apoiar um egípcio suspeito de racismo, que perdeu. Também não emplacou Ellen Gracie (STF) na OMC (Organização Mundial do Comércio).

Unasul
Brasil liderou acordo para os países da América do Sul terem um banco de dados sobre armamentos e gastos de defesa e estabelecerem limites para atuação de tropas estrangeiras, que deve ser restrita ao território de cada país.
Mas... Lula pediu publicamente e em telefonema uma reunião de Obama com todos os presidentes da América do Sul. Não foi atendido. E a Unasul ainda engatinha.

Oriente Médio
Diplomacia brasileira entra no circuito do Oriente Médio, e Lula recebe, num mês, os presidentes de Israel, do Irã e da Autoridade Palestina.
Mas... o Brasil é duramente criticado pelos EUA, por países europeus e por movimentos sociais brasileiros por receber o iraniano Mahmoud Ahmadinejad e não apoia veto da ONU a programa nuclear do Irã.

G-20
O G-7 (países ricos mais Rússia) cedeu espaço para o G-20, que foi articulado principalmente pelo Brasil e inclui os emergentes nas discussões econômicas mundiais.
Mas... o grande impulso inicial do G-20 foi nas discussões da OMC, mas a Rodada Doha de comércio, porém, naufragou. Era a grande aposta brasileira para melhorar as condições de exportação sobretudo na área agrícola.

Energia
Além da bandeira dos biocombustíveis, o Brasil agora tem também a do Pré-Sal, entrando no seleto grupo dos grandes produtores mundiais.
Mas... apesar de todas as promessas e acordos de cooperação, os EUA recuaram na decisão de rever as taxas ao etanol brasileiro e o tema biocombustível minguou.

Copenhague
Brasil e França apresentaram proposta comum de metas de redução de CO-2, para se contrapor aos países ricos.
Mas... a intenção de realizar um grande encontro dos presidentes amazônicos em torno de Lula gorou. Dos 9, só dois, além do próprio Lula, foram a Manaus: o da França e o da Guiana Inglesa.

EUA
Barack Obama causou frisson no Brasil ao declarar simpatia a Lula, a quem chamou numa entrevista de "o cara".
Mas... as relações tiveram sobressaltos. Amorim cobrou "maior franqueza" dos EUA com a região e falou em "frustração" com Obama; Garcia manifestou "decepção".

Battisti
Lula conseguiu empurrar para o Supremo e para 2010 a decisão de extraditar ou não o ex-guerrilheiro Cesare Battisti para a Itália, ganhando tempo.
Mas... o Itamaraty votou contra o refúgio de Battisti no Brasil, foi desautorizado pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, e lavou as mãos. Há tensão com a Itália, mas Amorim não se manifesta.

Excelente 2010 para você, para o Brasil e para o mundo!

(*) É colunista da Folha de São Paulo desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento.

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