Bellini Tavares de Lima Neto (*)
Lá pelos idos dos anos sessenta ou, talvez até antes, acontecia, aqui em São Paulo, um evento que recebia o nome de Concurso de Resistência Carnavalesca. “Evento” talvez não seja a palavra mais adequada. Melhor seria chamar de “ocorrência”.
Se a memória não me deixa a pé, aquilo acontecia no ginásio de Esportes do Pacaembu ou, quem sabe, no Ibirapuera. O local não tem importância.
Também não tenho a menor idéia de quem ou o quê organizava aquilo.
Como o próprio nome já indica, o tal episódio acontecia no Carnaval.
Montava-se uma espécie de pista de dança pequena e nela os participantes, casais que se inscreviam formalmente, começavam a dançar músicas de carnaval no sábado à noite para só terminar na terça-feira, período, ao menos naqueles tempos, em que o Carnaval durava. Aliás, de certa forma já contrariava a denominação de Tríduo de Momo, mas, o excedente era apenas um dia. Por incrível que possa soar aos ouvidos mais atuais, já houve tempo em que o Carnaval durava apenas três ou quatro dias.
Voltando ao foco, esses casais começavam aquela dança no sábado de Carnaval e o concurso consistia em dançar e pular ininterruptamente até a terça-feira à noite.
É claro que o número de participantes ia diminuíndo na medida em que o cansaço ia derrubando os candidatos. Na noite da terça-feira restavam dois ou três casais que já haviam perdido a condição humana e se arrastavam como zumbis por aquela pequena pista de dança. Naturalmente, quem conseguisse permanecer em pé até a meia-noite da terça-feira ganhava um prêmio em dinheiro. E havia público que se deslocava para assistir aquilo. Pode soar tão estranho quanto a informação de que Carnaval já durou só três dias, mas havia gente que ia até o local para assistir aos zumbis se segurando uns contra os outros para não desabar no chão.
Esse tal concurso durou por algum tempo até que começaram a nascer críticas mais severas ao que se considerava uma odiosa exploração da necessidade de alguns miseráveis que se submetiam a essa perversidade em troca de uns caraminguás. Não sei se houve alguma intervenção legal ou se, simplesmente, aquilo foi perdendo o interesse, mas o fato é que o tal concurso acabou e só mesmo os mais antigos se recordam daquele despropósito.
Desapareceu o concurso, mas não desapareceu a idéia de que sempre é possível montar um espetáculo grotesco explorando a necessidade de alguns e oferecendo, assim, doses maciças de diversão aos sádicos explícitos ou implícitos. É curioso que, aos homossexuais que resolvem assumir sua condição ou preferência se reserva uma alta dose de ironia e gozação. “fulano saiu do armário”. Já os sádicos são aceitos livremente, sem qualquer restrição. Não precisam sair do armário. E, certamente, porque sempre existiram e sempre existirão os dois requisitos para se montar o espetáculo, os miseráveis e os sádicos, muitos anos depois houve, aqui mesmo em São Paulo, um outro concurso que oferecia um prêmio a quem permanecesse mais tempo dentro de um pequeno automóvel se beijando.
Não se tratava de ir trocando beijos uns atrás dos outros. Não. Era preciso colar os lábios e permanecer assim por horas e horas. Nem é preciso dizer que aquilo fez um sucesso danado, havia candidatos e público para assistir. Houve lá um casal que ganhou e, se não me engano, o prêmio era o próprio automóvel. E caiu-se de pau em cima daquela outra barbaridade, verdadeiro escárnio à dignidade humana, propiciada pela sempre interminável necessidade humana.
Um outro desses eventos me ficou marcado na memória. Tratava-se de um concurso para se engolir baratas. Sim, é exatamente isso. O concurso foi anunciado na midia, havia um prêmio em dinheiro para quem se dispusesse, em público, a engolir baratas vivas. Quem engolisse o maior número de baratas vivas ganharia o tal dinheiro. É claro que houve candidatos, mas, dessa vez, autoridades interferiram e não permitiram que o concurso se realizasse por se entender que aquilo era um verdadeiro atentado à dignidade humana.
Deve ter sido uma grande frustração tanto para os miseráveis necessitados, para quem, em troca de um dinheirinho, umas baratinhas a mais não fariam muita diferença, esses que estão mais do que acostumados a engolir sapos a vida inteira. E, por certo, deve ter causado uma decepção danada nos sádicos que já deviam estar babando pelo memorável espetáculo.
Mas isso tudo é coisa dos “antigamentes”.
Hoje, século XXI, essas barbaridades parece terem sido completamente banidas do cenário social. Ninguém mais se interessaria nem por participar, nem por assistir espetáculos dessa natureza. Consequentemente, também não deve haver mais quem se interesse por organizar esse tipo de circo de horrores. Só falta, mesmo, explicar um pouco melhor esses tais “reality shows”, nome pomposo que se dá ao confinamento de um bando de gente numa casa por semanas, expondo suas intimidades para que o povo se delicie. Ou, mais recentemente, uma outra prova de resistência a uma série de desafios, dentre eles o de engolir gafanhotos vivos. A mocinha foi eliminada da disputa porque não conseguiu engolir os seus. Alegou que os bichos não paravam dentro de sua boca e, por isso, não conseguiu engolir. Incompetência ou inapetência?
Eu fiquei extasiado.
Nada como poder contar com a força da maior emissora de televisão do país dando sua preciosa contribuição para elevar o nível cultural e social da santa terrinha.
(*) Advogado , avô recente e morador em S. Bernardo do Campo (SPO). Escreve para o site O Dia Nosso De Cada Dia - http: blcon.wordpress.com
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