domingo, 2 de setembro de 2012

A vergonha de ser político





Jornal da Tarde/São Paulo

imagem_dia_1.jpg (410×265) Não sei se o problema é comigo ou com a política: mas eu fico constrangido quando tenho de me declarar candidato a alguém. Fico tão embaraçado que a coisa toda soa como se eu dissesse: “Meu nome é fulano de tal e eu sou o candidato que vai defender o extermínio dos animais de estimação – principalmente aqueles fofos que costumam fazer companhia às criancinhas órfãs. 

Mas antes de narrar uma passagem constrangedora da minha carreira, eu preciso entrar num assunto chato e burocrático: o CNPJ. 

Numa campanha, o número do Registro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) é um item indispensável. Sem ele, você não pode abrir sua conta eleitoral – que nada mais é do que uma conta bancária exclusiva para movimentações financeiras de campanha. 
Do ponto de vista legal, toda e qualquer doação deve ser registrada e depositada nesta conta – e cada apoiador (pessoa física) só pode doar até 10% do próprio rendimento bruto anual. 

Não é difícil encontrar espertalhões aconselhando candidatos de primeira viagem a usarem “laranjas” para burlar essa rígida regra da Justiça Eleitoral. 
De acordo com a história que eu ouvi, a coisa funciona assim: 
se você tem uma doação de R$ 10 mil que não pode ser registrada, você arruma dez CPFs – e põe R$ 1 mil em cada um. 

De posse do meu CNPJ, fui à agência de um banco estatal para abrir a conta. 
Lá, o gerente me alertou que não seria possível porque estaria faltando um documento: a ata partidária. 

Liguei para um representante do partido e soube que outros colegas de legenda estavam passando pelo mesmo perrengue. A promessa de solução não pareceu muito convicta. Desanimado, ouvi do atendente que, num banco privado, eles não estavam exigindo a tal da ata. Sem paciência para mais burocracia, me dirigi ao outro banco. 

Ali, odiei, verdadeiramente, ser candidato: uma gerente gata me atendeu. Embora tenha sido profissional e educada, ela não se deu ao trabalho de disfarçar o desprezo de estar diante de um reles candidato. 
“Você quer ser vereador?”, perguntou, sem tirar o sorrisinho irônico do rosto. 

Tudo o que eu queria era dar uma piscadinha cúmplice e esclarecer o mal-entendido. 
Nada disso. 
Engoli o orgulho xavequeiro e me apequenei na incômoda condição de candidato invisível à Câmara Municipal. 

E foi assim: ela abriu a minha conta; me deu seu cartão e riu por dentro (tenho certeza). 

Ser político é uma vergonha.

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