domingo, 22 de janeiro de 2012

Ineficácia e Corrupção

Sebastião Imbiriba (*)

A teoria econômica clássica sistematiza o conhecimento pré-supondo que decisões econômicas são tomadas por administradores individuais capazes de, sempre, prever as consequências de seus atos, agir racionalmente e maximizar seus lucros. No caso do administrador público, com poder igualmente individual, o lucro seria substituído por bens e serviços de interesse social.

Essa teoria simplificada da tomada de decisões econômicas foi criada apenas para servir de base aos estudos do comportamento do mercado como um todo, não do comportamento de alguma administração singular.

Quando estudamos a miríade de pequenas firmas de propriedade familiar, administradas patriarcalmente e enfrentando dura competição de preços, constatamos comportamento uniforme que podemos considerar aplicável às demais, conformando o modo geral de agir do mercado e simplificando o estudo teórico do comportamento administrativo.

Mas, pequenas empresas diferenciadas crescem e se transformam em corporações, se espraiam por além de fronteiras nacionais. Nelas, gerenciar se torna distinto de ser proprietário, empregados pertencem a sindicatos de diferentes países e com interesses laborais e nacionais diversos, taxas de desenvolvimento variam e a competição passa da forte concorrência de preços entre muitas firmas para a de oferta de qualidade, serviços e imagem entre poucas. Então, o estudo do comportamento dessas corporações toma outro aspecto e outro interesse teórico na ciência econômica.

O falecido professor da Carnegie-Mellon University, Herbert H. Simon, prêmio Nobel de 1978, autor de Admimnistrative Behavior publicado em 1947 e outros livros sobre comportamento decisório, compara essas pressupostas características dos tomadores de decisão individual – infalível previsão, total racionalidade é máxima busca de benefícios – com a realidade da vida corporativa.

Herbert Simon considera a corporação como um sistema adaptativo constituído por componentes físicos, pessoais e sociais estruturados em redes de intercomunicação, de boa-vontade em cooperar e de trabalho conjunto em busca de objetivos comuns.

Para sobreviver e se desenvolver, a corporação deve, não somente, buscar o necessário equilíbrio em relação ao seu exterior, como as firmas de comando único, mas também equilibrar os vários componentes da organização. Na corporação, quanto maior seja esta, mais diminuem os pressupostos da teoria clássica - empreendedor onisciente, racional e maximizador do lucro - enquanto cresce o conhecimento da psicologia com suas regras de decisão menos complicadas e demandas mais moderadas sobre a memória e capacidade de raciocínio do tomador de decisão clássico, substituído por uma quantidade de decisores cooperativos cujas capacidades de ação racional são limitadas pela falta de conhecimento das completas consequências de seus atos e por ligações pessoais e sociais.


Uma vez que estes decisores estão limitados na capacidade de escolher a melhor alternativa ficam restritos a alternativas apenas satisfatórias. As corporações, tomadas individualmente, não buscam o lucro máximo, mas soluções aceitáveis para problemas cruciais. Isto significa que objetivos parcialmente contraditórios devem ser atingidos simultaneamente por vários tomadores de decisão que, em cada situação, tentam encontrar solução satisfatória para seu próprio conjunto de problemas.

As teorias e observações de Simon sobre tomada de decisões se aplicam muito bem a sistemas e técnicas de planejamento, orçamentação e controle usados, tanto nas organizações atuantes no mercado, quanto na administração pública.

Desde sempre, políticos apresentam plataformas eleitorais que se demonstram impraticáveis ao assumirem a administração pública. Barack Obama somente agora retira seus soldados do Iraque e do Afeganistão e não consegue implantar completamente seu plano de saúde para carentes.

Fernando Henrique foi capaz de conduzir seu governo até que se interessou pela reeleição e teve que reforçar sua base de apoio parlamentar, cujos interesses divergentes emperraram o final do primeiro e todo seu segundo mandato. Lula reclamou amargamente em público da incapacidade da máquina administrativa obedecer a seus cronogramas e dos muitos projetos que se arrastam ou paralisam totalmente. As causas foram as mesmas.

Ana Julia, no Pará, fracassou totalmente em dar sentido único ao conglomerado de interesses divergentes que compunham seu governo. O mesmo problema afeta a administração Rousseff com a colcha de retalhos que compõe sua base de apoio cujos representantes integram o ministério.

As delongas da Transposição do Rio São Francisco e Hidroelétrica de Belo Monte são exemplos típicos de lista que se poderia estender por quilômetros.

Temos aqui o que parece ser defeito intrínseco de sociedades democráticas, mas que também ocorre em ditaduras envelhecidas, como os antigos impérios e as longas ditaduras, onde interesses grupais se estabelecem ao longo do tempo, criando sistemas de múltiplos e divergentes interesses, e corrupção generalizada.

No Brasil, uma infinidade desses decisores subordinados ao presidente, mas indicados pelas forças políticas que o apoiam em troca de cargos, outros tantos no Congresso e no judiciário onde, exagerando só um pouco, cada cabeça de juiz gera uma sentença diferente.

Na Roma pré-imperial havia uma solução para esse tipo de estorvo, a nomeação de um ditador temporário com poderes específicos para salvar a república. Longe de mim preconizar o advento de ditadores, mas me parece oportuno contribuir com reflexões sobre nosso sistema de governo e suas relações de poderes neste momento em que se discutem reformas políticas. De uma coisa, no entanto, estou certo: a necessidade de incutir costumes e virtudes republicanos em nossa corrompida república.

(*) Professor e Historiador morador em Santarém (PA) . Escreve o Blog Reflexões AmazônicasReflexões Amazônicas (imbiriba.blogspot.com/)

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