domingo, 4 de julho de 2010

O trem-bala é o Fura-Fila de Dilma

Augusto Nunes (*)

Ambos deslumbrados com os altos índices de aprovação registrados nas pesquisas, o prefeito Paulo Maluf em 1995 e o presidente Lula em 2007 deduziram que conseguiriam eleger qualquer sucessor. Preocupados exclusivamente com o próprio futuro, os dois resolveram escolher alguém que não tivesse autonomia de voo para sucedê-los politicamente, nem qualquer vestígio de luz própria que pudesse, no futuro, ofuscar o brilho do chefe.

Maluf encontrou no secretariado municipal um negro economista. Lula encontrou no ministério uma mulher economista. Até o lançamento das candidaturas, os eleitores não conheciam sequer a voz dos sucessores. Foi Maluf quem fez São Paulo, repetiu o prefeito ao apresentar o candidato. Mas foi Celso Pitta, secretário de Finanças, quem arranjou o dinheiro. Foi Lula quem planejou a reconstrução do Brasil, repetiu o presidente ao apresentar a candidata. Mas quem fez a coisa acontecer foi Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil e Mãe do PAC.

Pitta atravessou a campanha esquivando-se de debates, evitando entrevistas, declamando banalidades e elogiando o chefe de meia em meia hora. Dilma tenta percorrer a rota que leva ao Planalto driblando debates, fugindo de entrevistas, recitando platitudes e elogiando o chefe a cada cinco minutos. Para que a história inteira se repetisse como farsa, só faltava a fantasia que animou a eleição de 1995. Não falta mais nada, avisam os apitos do trem-bala. O Fura-Fila de Pitta também tem sucessor.

Fura-Fila foi o codinome malandro de um projeto de veículo leve sobre pneus (VLP) que, se cumprisse o que prometeu o candidato no horário eleitoral, resolveria no céu os congestionamentos em terra. Armado de plantas, maquetes, desenhos, números e listas de empresas interessadas na execução da grande obra do século 20, o candidato de Maluf impressionou a plateia com o milagre nos ares.

Eleito, começou a construir a inutilidade bilionária em 1997. Quando se foi, ficaram as regiões degradadas, os canteiros de obras desertos, estações em esboço e o esqueleto medonho que seria parcialmente ressuscitado em 2008 com o nome de Expresso Tiradentes. Os paulistanos que acreditaram no candidato votaram numa mentira. Pitta foi a Dilma de Maluf.

Como faltaram ao Fura-Fila, faltam ao trem fantasma verbas, projetos detalhados, cronogramas, rotas definidas, parceiros confiáveis ─ tudo. Se as obras começassem neste minuto, não ficaria pronto em menos de oito anos. a autora do Discurso sobre o Nada promete inaugurá-lo antes da Olimpíada de 2016. Em qualquer país sério, seria denunciada como farsante. No Brasil, é tratada como candidata.

São Paulo descobriu tarde demais a fraude agora reeditada em escala nacional.
O trem-bala é o Fura-Fila do século 21. Dilma Rousseff é o Celso Pitta de Lula.

(*) Ex-Diretor do Jornal do Brasil, do Jornal Gazeta Mercantil e Revista Forbes.
 Atualmente na Revista Veja.

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