Bellini Tavares de Lima Neto (*)
A criançada dos meus tempos de infância devia ser meio boba, mesma. Basta ver as brincadeiras a que se dedicavam. Pião, bolinha de gude, jogo de faca, pipa e outras sem-gracices que os tempos modernos morreriam de tédio. Havia uma certa divisão sazonal nisso tudo. Nunca entendi como isso acontecia, mas havia o “tempo” de cada coisa. Ao longo do ano havia o “tempo do pião”, o “tempo de bolinha de gude” e assim por diante.
Alguém poderia dizer que o “tempo da pipa” (que a meninada aqui de São Paulo chamava mesmo era de “papagaio” ou de “quadrado”) decorria da maior incidência de ventos na cidade. É possível. O “tempo de balão”, é claro, estava ligado às festas juninas já que, naqueles tempos, balão ainda não era sinônimo de perigo. É que havia menos construções que natureza e, por isso mesmo, os balões não causavam estragos. Por isso, nem eram proibidos. Proibido era o sexo, mas isso já é outra história. “Tempo de jogar bafinha” era uma conseqüência natural de quando as editoras lançavam as figurinhas, fossem em balas, fossem em saquinhos que se comprava no jornaleiro. Mas, e o resto?
Que fatores climáticos, sociológicos ou transcendentais determinavam que era “tempo de bolinha de gude” e não mais “tempo de pião”? Pode ser que a resposta até exista.
Eu nunca encontrei e sequer consigo imaginar. Era tempo e pronto. A molecada toda ia para as ruas com suas armas e bagagens competir pelas figurinhas carimbadas, por rachar o pião dos outros ou aumentar seu estoque de bolinhas de gude jogando “a ganho”, já que, jogar “a brinca” não tinha a mesma emoção.
Mas, essas talvez fossem as melhores brincadeiras, as mais criativas.
Havia outras que, francamente, faziam de nós uns parvos sem conta. Tenho dois exemplos: o “como está fica” e o “macaquinho gosta”. É possível que a maior parte das pessoas de hoje nunca tenha nem ouvido falar dessa tontice. E, no entanto, ao menos na área onde eu fui criado, era quase uma obrigação “ficar de como está fica” ou de “macaquinho gosta”. E com o maior número possível de pessoas. Vou explicar. Ambas eram espécies de pactos sociais. Dois moleques estabeleciam entre si, que “estavam de como-está-fica”.
Quando se encontravam na rua ou em qualquer outro lugar, qualquer um deles poderia intimar o outro com um sonoro “como está, fica” normalmente gritado antes que o outro o fizesse. O que havia sido apanhado tinha, então, que permanecer parado como estátua, sem mexer nem sobrancelha. Pelo tempo que determinasse o intimante. E esse podia examinar, vistoriar o petrificado para conferir se não havia movimento algum. Porque, se houvesse, o infrator estava automaticamente condenado a levar no mínimo três “sardinhas”: dois dedos unidos numa espécie de espátula que vinham de cima para baixo e lascavam um tipo de tapa no braço ou perna do sentenciado. Ardia um bocado. Para se livrar da obrigação era preciso ficar esperto e, tão logo visse um parceiro, gritar o salvo conduto: “licença!” Se um bobeasse, o outro lascava o “como está, fica” com todas as suas conseqüências.
Já o “macaquinho gosta”, embora semelhante em seu mecanismo de ação, tinha outro objetivo. O sujeitinho saía da escola, achava uns trocados no bolso e comprava a “machadinha” (um doce tipo quebra-queixo que era vendido em tachos e que exigia um machadinho para ser cortado”. Aí, se distraia e lá vinha um outro com quem se tinha ficado de “macaquinho gosta”. Pronto. O castigo era dividir o doce com o intimante. Ardia quase tanto quanto a “sardinha”. Para se livrar da conseqüência, a receita era a mesma” o salvo-conduto do “licença!”. O difícil era conseguir lembrar com quem se tinha ficado de “como está, fica”. Ou “macaquinho gosta”.
Criançada boba, essa do meu tempo de infância. Hoje, tudo é muito diferente, muito mais emocionante, muito mais adrenalina. Ainda recentemente circulou uma noticia a respeito de uma adolescente que alegou ter sido estuprada por três ou quatro garotos e tudo por conta de uma nova moda que ganhou o nome de “pulseira do sexo". Para melhor entender a coisa, diz a noticia que “A “brincadeira” das pulseiras funciona da seguinte forma: uma menina coloca diversas pulseiras de silicone coloridas no braço e um jovem tenta arrebentar um dos adereços. Cada cor representa um “carinho”, que vai desde um abraço até a prática de sexo; quem arrebentar receberá a “prenda” da dona da pulseira.” Não fica muito claro se essa tentativa de arrebentar as pulseiras deve acontecer em clima amistoso ou sob ameaça ou violência. Ao que parece, a garota usava as pulseiras, encontrou os garotos que, seguindo a norma do jogo, arrebentaram algumas delas e, pronto.
Também não fica muito claro se a brincadeira é convencionada entre algumas pessoas ou se o simples fato de portar as pulseiras já funciona como um passaporte automático para o joguinho, uma espécie de crachá que identifica quem brinca e quem não brinca. E mais: não se consegue perceber se um pedido de licença alivia alguma coisa ou não.
Agora, veja-se lá se alguém, hoje em dia, se contentaria com uma bobice semelhante ao “como está, fica” ou o “macaquinho gosta”. Se bem que este último até tem uma certa semelhança com a brincadeira das pulseiras. A diferença é que o doce a ser dividido é um pouco diferente da velha machadinha. E o saldo da brincadeira não tem nada de doce.
(*)Advogado, agora avô e morador em São Bernardo do Campo (SP)
Escreve para o site O Dia Nosso De Cada Dia - http://blcon.wordpress.com/
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