quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Tem o que comemorar?


Professor Profissão: Herói
Antenor Pereira Giovannini (*)


Quando se chega aos 60 anos à memória começa a ficar rebelde. Mesmo enfraquecida, ela resolve passear sem destino ou controle e acaba nos levando aonde sequer poderíamos imaginar. Ou até poderíamos. A minha, volta e meia vagueia pelos tempos de escola e, sem nenhuma cerimônia, vai se detendo diante de um sem número de acontecimentos típicos de uma época que se guarda no fundo do peito. Principalmente com muitas saudades e muita tristeza. Tristeza sim. As saudades vão por conta do que, graças a Deus pude ter, assim como tiveram dezenas de amigos, independente da classe social. A tristeza, a crédito da comparação entre isso e o que temos e assistimos hoje.


Não há como se esquecer dos primeiros passos no colégio das freiras onde Irmã Emiliana pacientemente fazia com que cada um dos seus 18 alunos do primeiro ano primário soubessem pegar naquela caneta com cabo de madeira e com uma peça removível de nome pena, que se molhava num tinteiro fixo encaixado em cada carteira da sala. Aos poucos, dos primeiros garranchos e borrões (limpos por um mata-borrão que fazia parte do material escolar) iam surgindo às primeiras letras e as primeiras palavras. Já no ginásio, como esquecer o sempre austero Colégio São Bento e suas normas, sua rigidez, o silêncio que advinha do Mosteiro e o som dos cânticos gregorianos a espalhar um ambiente de paz e de reflexão sobre a importância do estudo?

Aos professores se dedicava tanta reverência que até mesmo um olhar mais direto e menos cerimonioso soava como grosseria ou má educação. O respeito na comunicação era primordial não só para que o diálogo transcorresse de forma equilibrada e em bom nível, não importando a idade do aluno. Esse respeito era fundamental para que, antes de tudo, o diálogo acontecesse. Na falta de respeito, não havia diálogo. Desde cedo se praticava essa comunicação séria, civilizada, construtiva.

Saudoso professor Zezão, de Ciências, já idoso, que subia as escadas lentamente para atingir o segundo pavimento e dar aulas da primeira a quarta série do curso ginasial. E eu “ousado e esperto” me atrevi a querer colar numa tradicional prova mensal oral. Nada mais óbvio que minha esperteza tenha tido 15 segundos de êxito e, em seguida, tenha me valido uma suspensão, uma nota zero que me obrigou a um penoso dez na prova escrita para a media do mês ficar em cinco. E o pior, que ficou na memória gravado a ferro: o sermão de pelo menos 5 minutos expondo o sentido de ser um aluno responsável para se tornar um homem responsável. Será que foi o pior, mesmo?

Visitando amigos que estudavam em colégios públicos, que alias eram muito mais rígidos e exigentes que a maiorias dos particulares, observava-se a extrema importância que era concedida aos professores e a interação entre eles. O principal estava no quesito: respeito. Lembro de primos que, por se acharem espertos, ousaram desafiar seus professores de Matemática e Química. Esses não foram pelo caminho da cola, mas, isto sim, pela pretensa via do conhecimento puro. Mas o fizeram de maneira ousada, mal educada e, então, acompanhei meus tios tendo que ir a escola para tomar conhecimento do ocorrido e ainda terem que constatar que os espertos, na realidade, não tinham conhecimento algum sobre as matérias nas quais se julgavam peritos.

Tudo isso fazia parte da educação da época. Famílias que possuíam normalistas em suas fileiras eram vistas como exemplos porque em breve aquelas moças seriam professoras, pessoas responsáveis pela formação educacional e social de crianças e jovens. O respeito e a consideração por essa profissão refletiam bem o grau de credibilidade e seriedade da sociedade de então.

Já tivemos, entre nós, homens como Anísio Teixeira (advogado, intelectual, educador) que lutaram para introduzir nesse País um ensino básico, fundamental e público para o desenvolvimento intelectual e de discernimento ao invés da memorização, (“Choca-me ver o desbarato dos recursos públicos para educação, dispensados em subvenções de toda natureza a atividades educacionais, sem nexo nem ordem, puramente paternalistas ou francamente eleitoreiras”). Como se sentiriam agora, vendo, nos dias de hoje, professores sendo tratados como uma classe absurdamente desprestigiada em todos os segmentos da escala estudantil e em todos os niveis? Ficando à mercê de agressões verbais e principalmente físicas?. Com salários que os obrigam a uma escalada de jornadas de trabalho insanas para que possam atingir a um patamar mínimo de compatibilidade financeira com aquilo que exercem?. Sem tempo para se preparar, apenas servidor de salas de aula a engolir ingerências, a engolir má educação, a engolir dissabores por terem imaginado que, um dia, escolheram essa profissão como uma espécie de Cavaleiros do Saber? Que ao sacarem a espada de seus livros alcançariam inumeras mentes e reproduziriam seus conhecimentos, realizando o sonho méritorio e o orgulho de terem feito com que aquela caneta de pena transformasse uma criança tenra num cidadão de respeito?


Tenhamos a certeza que essa grande e abnegada massa de homens e mulheres que a cada dia chega a uma sala de aula com suas listas de presenças e sua vontade de repartir o saber, gostaria apenas que seu trabalho fosse reconhecido de forma ampla e irrestrita. E que se entendesse que sua vocação para transmitir conhecimentos tem um só e principal fundamento: de engajar mais pessoas a esse saber. Apenas isso.

Mas, e a tristeza lá do começo? É só imaginar o que devem sentir professores de nivel universitário que chegam às salas de aula e encontram alunos de bermuda, camiseta regata, chinelo de dedo, sem nenhum papel na carteira (se é que assim se chama hoje em dia) esticados na primeira fila como paxás, olhando ou de forma debochada como se já soubessem de tudo ou de forma rancorosa, olhos tingidos por uma agressividade gratuíta, como que atribuindo ao professor a culpa por estarem ali. Isso é a tristeza, aquela que vem da percepção temperada pela impotência, de ver uma nação se deteriorando e seus habitantes nas ruas, festejando sabe-se lá o quê, eufóricos com o pão e o circo que vai se perpetuando.

Será que ainda faz sentido manter o dia 15 de outubro como o Dia do Professor? Não seria o caso de se acrescentar, ao titulo, algo como “Dia do Professor – Profissão Perigo”? Ou, quem sabe, formalizar um outro adjetivo que já faz parte da realidade dessa classe: Professor Profissão Herói.


(*) aposentado e morador em Santarém

Um comentário:

  1. Helvio Arruda16/10/09 09:02

    Caro Amigo Antenor

    Parabenizo pelo brilhante texto. Você também é um PROFESSOR HERÓI.

    Abraços.

    Helvio

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