domingo, 11 de outubro de 2009

Criança


    O que é ser criança hoje!
     Antenor Pereira Giovannini (*)


Bons tempos os de moleque. Lá pela segunda metade do século passado. Como era gostoso ser criança. As modernidades de hoje estavam longe, mas também não faziam nenhuma falta. Em vez delas, tínhamos espaço, liberdade e, o melhor, não tínhamos medo. Tínhamos o mundo em nossa pequena rua, fosse ela de asfalto, de paralelepípedos ou terra batida. E nela todo se fazia tudo se podia. O futebol podia ser com bola de capotão (vide Google) e era a glória, Mas também podia ser com bola de meia, de borracha, cheia ou murcha. 
As traves podiam ser de dois chinelos, um de cada lado, desde que não se esquecesse de recolher no fim porque se não, tinha barulho em casa. Mas também podiam ser dois pauzinhos presos a uma pedra, tudo valia. Bola chutada na casa do Sr. Vadão era o de menos. Já na do Sr. Cícero era certeza de perda da bola, fora o ralho. 
As pipas, que alguns chamavam de papagaio, quadrados ou raias eram manufaturada pela meninada. Tudo muito colorido, feito em duas o mais folhas de papel de seda, compradas com alguns centavos de cruzeiros. E a cola era feita de farinha e água, quente ou fria, a gosto do autor. Apesar de o Aurélio registrar a forma correta (“tirante”), nunca houve moleque que se prezasse que não chamasse aquilo de “estirante”. Era por onde se controlava o papagaio, linha 24 ou cordonê, dependendo do poder aquisitivo do infante. Era feito de maneira que a pipa fizesse diabruras no céu sem se enroscar. 
O objetivo era fazer com que a pipa sumisse da vista, de tão longe que fosse.
E, para isso alguns construíam umas maquininhas chamadas “carretilhas” pequena peça de madeira com uma espécie de rolamento onde se enrolava toda a linha e servia para acelerar o trabalho de soltura ou do recolhimento da linha. Nada de cerol, de cortante com intuito de derrubar o papagaio alheio. O grande feito consistia em laçar o papagaio do outro e trazê-lo ao chão junto com o papagaio laçador. Às vezes dava briga.

Na rua havia os carrinhos de rolimãs que triscavam rente ao asfalto muitas vezes provocando pequenas faíscas por conta do atrito causado pelas rodas em pequenas ou grandes descidas. Isso é o que nos dava a chamada adrenalina da época.
Nas ruas de paralelepípedos, mais difíceis para os carrinhos de rolimãs bastava uma tábua lisa com pouco de sabão e lá vinham uns malucos a deslizar pelas pedras já triscadas de tanta madeira. Bons tempos.

Na rua se jogava pião. Alguns eram reluzentes, pintados com cores berrantes. 
Outros eram de madeira pura. A fieira (vide Google) gasta e escura de terra e suor tinha na ponta uma tampinha de refrigerante amassada para dar a segurança de que tudo estava bem preso no meio dos dedos da mão para atirar o pião no meio da roda. 
Afinal, aquilo era uma arena e era preciso que o pião já chegasse dominando, jogando para fora dos outros adversários e girasse em velocidade dando o tom da sua força. Isso quando não se conseguia rachar o pião adversário ao meio. Era a glória. Mas às vezes dava briga.

Na rua, no outro canto da rua, acontecia o jogo de botão. Nada tem a ver com essas caixinhas vendidas em lojas de brinquedos. Os botões dos jogos do eram aqueles montados à base de tampas de relógio, mais resistentes e que depois de lixados e polidos se tornavam os nossos “artilheiros” Afinal, havia os campeonatos realizados “entre ruas” e o troféu era sempre uma cesta de sanduíches de mortadela conferido ao time adversário. E regado a “Tubaina”. Não há como esquecer.

Não há mais ruas, não há mais liberdade. O mundo das crianças é limitadíssimo, apesar de virtual. Quando não são os jogos eletrônicos que mantém a criançada atrelada a uma televisão por horas a fio, é a tal de Internet que também as cativa por horas a fio. 
E já traz no seu bojo o tal Orkut a quem as crianças, por absoluta falta de opções, sem vêem a mercê todos os dias. A violência das ruas, a violência das drogas a cada dia atraindo mais e mais jovens de idade cada vez menor, a falta de tempo dos pais seja pela necessidade de trabalho em conjunto, seja pela negligência, seja pela falta de paciência, seja pela falta de preparo, tudo isso leva à opção de trancafiar a infância com o objetivo de evitar expô-la a um mundo cada vez mais irracional.

Diariamente a imprensa nos apresenta situações inimagináveis ocorrendo cada vez mais com nossas crianças em idades em que deveriam estar fazendo exatamente o que fazíamos eu e outros coleguinhas nas ruas na metade do século passado, E alguns deles viviam situações financeiras bem adversas e restritivas, Não havia o excesso de vaidade, a inveja declarada por esse ou aquele brinquedo. As televisões, tanto os aparelhos como as emissoras, eram raras e não se tinha acesso a tanta “desinformação” como se tem hoje. 
O descuido que se observa na educação de nossos jovens e nossas crianças ainda não era tanto. Programas violentos, novelas obscenas, revistas que expõem uma sexualidade precoce desnecessária, apenas sob os holofotes de audiência, de venda de produtos, ainda não havíamos atingido esse estágio.

Nas escolas, principalmente as públicas, a necessidade de aplicação no estudo era fator decisivo. Dois anos sem aprovação real, o aluno era jubilado. E havia outro componente natural: o respeito. Professor era professor. Diretor era diretor. Agora, as duas figuras se confundem. São vítimas e ao mesmo tempo reféns de um sistema educacional mais do que falido e sem perspectivas de mudanças que mescla estudantes com bandidos-alunos que freqüentam as escolas e colocam toda uma instituição a sua mercê.

É assustador ver que escola hoje, ao invés de ser o palco do saber, o grande teatro do aprendizado, se tornou alvo de bandidos e traficantes. O professor que na época era orgulho das famílias que tinham em seu bojo parentes com essa vocação, hoje é quase motivo de vergonha seja pelos ridículos salários que recebe, seja e principalmente pelo fato de se haver tornado alvo de agressões e riscos ainda mais graves quando se atreve a não permitir que um aluno fume em classe, ou ouse dar uma nota baixa para um mais violento. Pobre professor.

Seria o caso de se entrar no campo da pedofilia? Mais que um crime nojento, que deveria gerar penas máximas ao verme humano que o comete, é uma patologia, uma insanidade que assola hoje a sociedade. E que hoje conta com uma ferramenta de divulgação poderosa, a internet, cujo uso por seres abjetos contribui para disseminar essa anomalia sob a forma de uma cadeia sem limite à qual jovens e crianças rapidamente conseguem acesso com absoluta facilidade. Que loucura.

Olhando minha pequena Giovana, vendo meus netos nessa fase de criança e pré-adolescência resta a oração e o apelo à proteção divina para que coloque boas amizades em seus caminhos. Que os ensinamentos de casa tenham efeito duradouro e eficaz. . 
Que eles possam perseguir na vida os princípios de ética, civismo e civilidade e tracem seu rumo pelo signo do bem. 
Mesmo que tenham sido privados do prazer e dos ensinamentos advindos de ter crescido naquelas ruas e jogado pião e bolinha de gude, empinado pipa apenas pelo prazer de empinar, e tudo mais que se fazia pelos diversos cantos da rua. 
Num tempo em que as ruas tinham muitos cantos, todos melodiosos.


(*) Aposentado e morador em Santarém

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