quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Andando na contramão



                         Andando na contramão 
                                                        Antenor Pereira Giovannini (*)



Depois de quase 30 dias em São Paulo para tratamento médico e visita a familiares, retorno a minha cidade de Santarém. Certamente não se pode fazer comparações. Afinal temos uma cidade com 19 milhões de habitantes e outra com quase 300 mil. Mas, sempre há espaço para algumas reflexões.  São Paulo é um correr insano e alucinante para que se obtenha o pão de cada dia, uma verdadeira selva de pedra que assusta quem não a conhece, muita violência gratuita, um trânsito caótico e desproporcional.  Mas, não há como negar a sua importância econômica ao País, dando guarida a milhares de imigrantes que lá chegaram em busca de sucesso, principalmente profissional.
Mesmo não querendo comparar, há coisas que não consigo separar quando observo na minha cidade de Santarém um total desleixo em relação a inúmeras ações que merecem uma prioridade absoluta para que os santarenos possam respirar tal qual São Paulo. Não poluição, é claro, mas, desenvolvimento, geração de empregos e, igualmente, motivo para que nos orgulhemos de tudo, tal qual o orgulho que sentimos quando falamos de nossa cultura e de nossos artistas e mestres nessa área.
Em São Paulo, na sala do SESC Santana, me sinto orgulhoso em poder compartilhar com outras centenas de pessoas o som e a arte exposta por um santareno famoso, Sebastião Tapajós, que com seu violão faz com que deslizemos nas nuvens, inebriados por um toque refinado, apurado e contagiante. Isso nos orgulha principalmente quando estamos ausentes, da mesma forma como, paulistano, me orgulho de saber que a cidade onde nasci é palco de todas essas oportunidades, para onde milhões acorrem em busca de um lugar ao sol, cada um em sua profissão. Esse cheiro de desenvolvimento e crescimento constante contagia e não há como separá-lo quando se chega em Santarém.

Gostaríamos que esse mesmo sentimento fosse comungado por todos que nela habitam. Doce ilusão. A começar pelas nossas autoridades municipais que demonstram um descompasso com tudo que ao redor ocorre. Continuamos sendo uma ilha sem sermos geograficamente uma ilha, já que continuamos sem acesso rodoviário para qualquer outro lugar do nosso País. Ou de barco ou de avião, são os únicos meios de transporte. A tão decantada BR 163 e seu asfaltamento completo não saem do discurso hipócrita, falso e mentiroso de nossas autoridades federais.
Qual seria o papel do governo municipal, consciente, ao menos em tese, de que isso afeta diretamente a evolução da economia santarena? Lutar, brigar, se empenhar para que isso saía definitivamente do papel. Outra ilusão. Não há qualquer movimento, qualquer ação, qualquer iniciativa nesse sentido, mesmo se tratando de obra do mesmo partido que governa as duas entidades, o estado e o município. Nossas ruas continuam num abandono digno de uma cidade sem lei e sem compromisso. Cheias de buracos, matos por todos os lados e, o que pior, as calçadas (quando existem) cheias de entulhos de toda espécie. Quando não é o estorvo do entulho, tromba-se com outro, o comércio instalado no meio da calçada. E o pedestre? Ora bolas, ele que ande pela rua e divida espaço com ônibus, caminhões e as benditas motos que viraram febre, com seus condutores muito pouco preocupados com segurança e direção responsável. Isso tudo se nos esquecermos dos milhares de terrenos baldios cheios de matos e animais peçonhentos a transmitir todo e qualquer tipo de doença.
Enquanto isso o noticiário dá conta da preocupação de autoridades, com apoio de alguns munícipes, em fazer junto à área portuária um bosque como área de lazer. Se realmente fosse a única coisa a se pensar poderíamos até entender e apoiar, mas com tanta coisa muito mais importante a fazer, torna-se risível se pensar em bosque quando na rua de acesso a essa área temos excremento humano correndo junto ao meio fio. Ora, ora se isso não é incoerência não sabemos do que chamar. O bom senso nos mostra que, mais do que prudente, é imperativo se pensar primeiro em resolver esse sério e absurdo problema ambiental, qual seja a existência, quase no fim da primeira década do século XXI, de esgoto a céu aberto nessa área e em toda a cidade. Enquanto todo esse dejeto acaba indo para o rio, fica-se pensando em bosquinho em área portuária.
E a incoerência é ainda maior quando se pensa que, em pleno século XXI, em meio a uma crise financeira mundial, quando mais se aspira à redução de custos e principalmente à necessidade de geração de empregos e renda, permanece vivo o foco míope da perspectiva e intenção de que se desative o porto geral e se transfira para outros lugares empresas agregadas ao porto, com vistas a que se faça nessa atual área portuária uma revitalização para que torne o visual mais bonito com por do sol a emoldurar a cidade.
Sem querer ser simplista demais, mas pôr do sol e beleza visual não enchem barriga, não pagam impostos, não criam empregos e principalmente não geram recursos para que a cidade sobreviva e se desenvolva.  Enquanto o mundo, e não somente o capitalista, diga-se de passagem, se preocupa com a melhoria nos portos e, conseqüentemente, com o incremento de um transporte altamente eficaz e barato, em nossa cidade carente de coisas absolutamente básicas e necessárias para o desenvolvimento social e econômico, pensa-se em bosquinho em área portuária ou até mesmo em desativação e transferência da orla devido ao visual.
Realmente eu continuo literalmente andando na contramão. 

(*) Aposentado e morador em Santarém 


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