sexta-feira, 11 de junho de 2010

Presidente Não Pode Servir a Dois Senhores

Padre Edilberto Sena (*)

O atual presidente da República, ex sindicalista, tem fama de ser um bom negociador. Chegou até a suplantar o governo norte americano e causar ciúmes, ao negociar com o presidente do Irã. Dizem que ele sempre dá um jeito de contornar questões difíceis. Só não conseguiu enrolar o Movimento Sema Terra, com a não realizada reforma agrária. Neste caso sua submissão ao latifúndio é maior forte do que sua fama de negociador.
Outro calcanhar de Aquiles do presidente é quando se refere ao Programa de aceleração do crescimento econômico, o PAC. Nesse ponto ele faz malabarismo com discursos bonitos, cria uns PACzinhos nas cidades, mas não recua um milímetro de seu compromisso com a aceleração do crescimento da Iniciativa de Integração Regional Sul Americana, o IIRSA.

Um exemplo típico de sua irredutibilidade é o projeto da construção da hidroelétrica de Belo Monte, no rio Xingu. No caso, ele vive uma situação que na linguagem popular se chama ? sinuca de bico. De um lado, seu compromisso de construir Belo Monte e outras usinas a serviço do grande capital, que na sua compreensão medíocre vai acelerar o crescimento econômico e com tal avanço crescerá o desenvolvimento humano. Do outro lado, aumentam as pressões, tanto de povos a serem altamente prejudicados pelo projeto, quanto de resultados de pesquisadores sérios, provando que Belo Monte e outras grandes usinas hidroelétricas na Amazônia trarão prejuízos irreversíveis aos povos e ao meio ambiente.
O presidente já tentou enganar o bispo do Xingu, garantindo que não enfiaria a usina goela abaixo, se convencido de sua inviabilidade. E então, ou ele mentiu ao bispo, porque sabia já do desastre social e ambiental, ou ignorando o assunto, preferiu confiar em seus assessores das minas e energia, recusando analisar as provas de 40 cientistas e pesquisadores abalizados.
Mais recente ele é confrontado com os indígenas do Xingu que foram a Brasília, fizeram acampamento e exigiram dialogar com o presidente. Querem a todo custo que ele desista da construção da usina de Belo Monte, por causa do desastre que será para seus povos e o grande rio. Pressionado o presidente reúne com os indígenas e promete debater com eles a construção da hidroelétrica. Ora, para início de conversa os índios conhecem sua terra, dela dependem para viver, incluindo rio e floresta; esta que segundo cálculos do próprio governo, terá um alagamento de mais de 400 quilômetros quadrados.

No raciocínio do presidente, convencido por seus assessores, esse alagamento é pequeno, mas para os índios os prejuízos para suas vidas são imensos. O mais grave é que a proposta do presidente de sentar para debater é conversa fiada, pois, o projeto Belo Monte já está decidido, até com leilão executado, inclusive com suspeita de ter sido fraudulento. Então a promessa de mais diálogo proposto pelo presidente é apenas para iludir os índios.
Mas os índios já não são tão ingênuos assim e decidiram avisar o presidente que não vão recuar de sua decisão de impedir a construção da hidroelétrica de Belo Monte. Caso as máquinas chegarem à beira do rio eles vão fazer guerra. E agora? O bispo foi enganado e não fez guerra, mas os índios exigem respeito a seus direitos constitucionais.

Desta vez, será que o presidente respeitará os povos do Xingu, ou fará a usina por cima dos cadáveres Kaiapó, Juruna e mais 14 etnias xinguanas? Mesmo um exímio sindicalista, capaz de enfrentar norte americanos e israelenses para negociar com iranianos, chega um momento em que não pode servir a dois senhores. O conflito está armado, ou respeita os direitos dos povos do Xingu, ou continua subserviente ao grande capital e terá graves conseqüências.

E agora Sr. Presidente?

(*) Sacerdote e Diretor da Rádio Rural de Santarém

Nenhum comentário:

Postar um comentário