Manuel Dutra (*)
Não é diferente de tantas outras cidades no Brasil e mundo afora.
Belém se concentra, ou melhor, se amontoa prioritariamente na área central, nas proximidades de onde tudo começou no século 17.
Por que?
Porque uma cidade é o reflexo das relações sociais que nela se realizam.
Morar em bairros afastados torna-se um suplício para as centenas de milhares de famílias que moram nas Terras Firmes, Guamás, Jurunas e Icoaracis da capital paraense. Lá dentro, a vida é complicada pela violência e pelas carências em geral.
Por isso, a chamada "classe média" se aboleta na chamada "área nobre", construindo essa imensidão de pardieiros travestidos de modernidade, mas que, na realidade, refletem uma sociedade excludente, separada entre os que podem fugir dos bairros distantes e aqueles que são obrigados a viver com os pés dentro da lama.
Ao fugir das áreas periféricas, onde se torna impossível construir bairros decentes, os endinheirados terminam por criar outro grande problema urbano e social: cada vez mais grandes áreas de Belém acham-se brutalmente ocupadas por prédios cada vez mais altos, tapando a visão da baía de Guajará e modificando a posição dos ventos, trazendo mais calor. E pondo nas ruas os engarrafamentos infernais de todas as horas.
Uma floresta de edifícios nos faz refletir no significado da construção de uma cidade amazônica. Existe essa cidade? Não, ela não existe e Belém é a vitrine de demonstração, é o show-room dessa inadaptação do colonizador nos trópícos. Um viés cultural que vem aos nossos dias com toda a força. Até os prédios que foram construídos em Belém no auge na borracha, edificações sobre pilotis, o que permitia a ventilação por debaixo do assoalho - esss tipo de edificação está descaracterizado, com os vãos de entrada do vento tapados com tijolo.
Nossas cidades são cada vez mais insuportáveis pelo calor, não porque necessariamente a região seja quente de modo insuportável, mas por causa da especulação imobiliária que enseja a ocupação desorganizada do solo urbano. E por causa da ausência de políticas públicas urbanas, pelo desleixo de governadores, prefeitos, vereadores, construtoras e aceitação passiva da sociedade.
Uma pena e um desastre isso que se faz hoje nas cidades amazônicas.
A questão que fica é ?: Dentro de 20 ou 30 anos, no ritmo em que vão as construções, Belém e muitas outras cidades localizadas na Amazônia ainda serão habitáveis? Os endinheirados em geral poderão fugir para Miami ou mesmo cidades da costa nordestina (como, aliás, já vêm fazendo, passando lá parte do ano ou comprando imóveis em Fortaleza). E os demais, ficarão para torrar no forno construído pelos que fugiram?
(*) Jornalista e Professor

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