quinta-feira, 5 de março de 2015

Olha o trem ....

Olha o trem: negociação promete uma revolução na logística do agronegócio nacional 

Revista Canavieiros 

O custo logístico do Brasil tem se tornado um obstáculo ao desenvolvimento do agronegócio brasileiro, que vive constantemente a ameaça de sofrer um apagão logístico a cada safra recorde que se anuncia. Para evitar que isso aconteça, o País precisa solucionar sua estrutura de transporte, investindo em diferentes modais, evitando assim perder sua competitividade agrícola. A fusão entre a ferrovia ALL (América Latina Logística) e a Rumo Logística subsidiária do Grupo Cosan, surge como uma alternativa a este cenário ruim e promete fazer uma “revolução na logística do agronegócio nacional”, conforme já afirmou Rubens Ometto, presidente do Conselho da Cosan. 

A fusão resulta na formação de uma empresa gigante de logística – ferroviária e portuária - envolvendo investimentos de mais de R$ 8 bilhões até 2020, que serão aplicados em ampliação e duplicação da via e solução de gargalos, principalmente em trechos do Estado de São Paulo. “Nosso objetivo é aumentar a eficiência da operação ferroviária para a captação da maior quantidade possível de cargas, firmando contratos de longo prazo com os clientes e melhorando o nível do atendimento dos serviços”, afirmou Marcos Lutz, CEO da Cosan, em comunicado após a aprovação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) para a criação da empresa. 

A nova companhia nasce com 12,9 mil quilômetros de malha ferroviária, abrangendo os Estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul; 19 milhões de toneladas de capacidade de elevação no Porto de Santos, 966 locomotivas, além de 28 mil vagões e 11,7 mil funcionários diretos e indiretos. 

A empresa irá operar com foco na expansão da capacidade de operação, redução de custos e aumento da eficiência operacional, no período inicial de integração, e atuará no transporte de grãos (soja e milho), açúcar, cítricos, celulose, fertilizantes, manufaturados e combustíveis. 

Negociação foi longa 
As negociações entre a Rumo e a ALL começaram em fevereiro de 2012, quando a Rumo manifestou interesse na operadora ferroviária. Na oportunidade, fez uma proposta de quase R$ 900 milhões para comprar 38,9 milhões de ações da ALL, o equivalente a 5,6% do capital total da companhia. Mas o contrato não evoluiu devido a várias divergências. 

A principal delas era um litígio bilionário devido a contratos para o transporte de açúcar, que não foram cumpridos, conforme alegou na justiça a Rumo. Um ano depois, a empresa de Rubens Ometto formalizou nova oferta à ALL, aceita em 15 de abril e aprovada pelas Assembleias Gerais Extraordinárias da Rumo e da ALL, realizadas em 8 de maio de 2014. 
A proposta previa que os acionistas da Rumo ficariam com 36,5% do negócio e os da ALL, controladores e minoritários, com 63,5%. Quatro dias depois, as empresas informaram que o litígio pelo não comprimento dos contratos celebrados em 2009 para o transporte de açúcar foi suspenso. 


Em 21 de julho de 2014, a Rumo deu entrada à proposta de incorporação no Cade e na ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), que a aprovou no dia 5 de novembro, mesmo dia que a Superintendência Geral (SG) do Cade classificou o caso como complexo. Em 11 de fevereiro de 2015, a criação da nova companhia foi aprovada pelo Cade, com restrições, visto que empresas de outros setores do agronegócio, principalmente de grãos, manifestaram preocupação com um possível favorecimento ao transporte de açúcar em detrimento de outros produtos. 

De acordo com Fato Relevante divulgado pela Cosan, na data da aprovação da fusão, o Cade aprovou a incorporação de ações de emissão da ALL pela Rumo, mediante a celebração de um ACC (Acordo em Controle de Concentração), o qual prevê que as companhias adotarão determinados comportamentos voltados a eliminar as preocupações identificadas no parecer da Superintendência Geral do Cade. 

“As obrigações comportamentais previstas no ACC vigorarão pelo prazo de até 7 (sete) anos e visam, sobretudo, assegurar atendimento isonômico (igualdade de direito) aos usuários dos serviços de transporte ferroviário de cargas, principalmente por meio de reforço das regras de governança, da adoção de mecanismos de transparência nos parâmetros de tarifação, controle de atendimento dos serviços e da limitação do uso do transporte ferroviário por partes relacionadas”, esclarecia o documento. No dia 26 de fevereiro, a negociação recebeu o aval também da ANTAQ (Agência Nacional de Transportes Aquaviários), restando somente a aprovação da SEP (Secretaria de Portos). 

Nova companhia é bem vista por consultores “Nós precisamos de mais investimentos, principalmente para modernizar a nossa logística, toda a infraestrutura, para dar mais agilidade ao fluxo entre a origem do produto e seu destino”, afirma Manoel Ortolan, presidente da Canaoeste (Associação dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo) e Orplana (Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil). 

Forte, o Grupo Cosan se destaca pelos investimentos que faz no agronegócio, principalmente no setor sucroenergético, com certeza, deverá trabalhar para melhorar a logística para o transporte dos produtos do segmento, como açúcar, etanol e grãos, já que a nova empresa, abrangerá uma área maior de atuação, argumenta o executivo. “Portanto, a nova ALL deverá fazer upgrade necessário, propiciando ganhos de eficiência, que vão traduzir em melhoria no custo do frete”, afirma Ortolan. 

Para Plínio Nastari, presidente da DATAGRO, o impacto positivo desta fusão deve ser sentido não só pelo setor sucroenergético, mas toda a cadeia de exportação do agronegócio. “Este efeito já está sendo observado com as melhorias introduzidas pela Rumo nos últimos anos, a partir da desaceleração dos fretes rodoviários por conta da maior competição com a rota ferroviária. A fusão Rumo-ALL abre a perspectiva de grandes investimentos, e de uma maior racionalidade no planejamento do transporte como um todo”, diz o consultor, lembrando que os fretes de açúcar e etanol têm caído nos últimos dois anos. 

“A desvalorização do real também contribui para reduzir o custo do frete em dólares. 
No entanto, é preciso que sejam viabilizados mais investimentos em armazenagem. 
O Brasil ainda tem uma capacidade estática pequena para o volume transacionado com o exterior. Mais armazenagem permitiria uma comercialização mais saudável”, analisou Nastari. 

De acordo com o presidente-executivo da UDOP (União dos Produtores de Bioenergia), um dos gargalos do setor, hoje em dia, são os altos custos logísticos de escoamento da produção, alicerçados, em sua maior fatia, no modal rodoviário, o mais caro de todos. “Sendo assim, vemos com muito bons olhos a fusão da ALL e da Rumo Logística, que com certeza trará melhorias na malha ferroviária e ganhos de competitividade ao setor”, assegura. 

Para ele, a qualidade do serviço da nova joint venture atenderá de forma muito mais segura e eficaz a demanda do setor, trazendo com isto inúmeros benefícios para a cadeia bioenergética, uma vez que grandes investimentos já estão sendo anunciados pelos novos parceiros a fim de modernizar o trecho administrado pela nova parceria. 

O presidente de honra da UDOP diz que é necessário resolver os entraves que envolvem a logística de transporte dos principais produtos da cana-de-açúcar, o etanol e o açúcar. “Acredito que somente o aperfeiçoamento de sistemas multimodais, como o ferroviário, hidroviário e rodoviário, poderia trazer benefícios para o setor. O ferroviário, com a fusão da ALL e da Rumo, começa a tomar um novo rumo. 

O hidroviário depende de um novo ciclo regular de chuvas que possam encher, novamente, os reservatórios da principal hidrovia que corta o Estado (Tietê-Paraná), para sua implementação efetiva, e o rodoviário sofrerá adequações de preços com a concorrência, salutar em qualquer negócio”, conclui. 

Na avaliação do diretor da consultoria MBF Agribusiness, Marcos Françóia, o novo negócio como modelo poderá contribuir muito com o agronegócio. “Se o plano de expansão e investimentos na malha ferroviária, bem como nos terminais, se concretizarem, será um avanço positivo na logística brasileira. Todavia, as regras impostas pelo Cade deverão ser cumpridas, pois não há espaço para aumento de custos”, constata. 
Segundo ele, os analistas olham os resultados no longo prazo e a nova sociedade pode trazer benefícios econômicos significativos para as empresas, pois a demanda por logística de qualidade e com custos adequados é grande no Brasil. 

“Para o mercado, aparentemente, o que o Cade fez foi abrir para as concorrentes usuárias da malha ferroviária a oportunidade de fiscalizar a utilização por parte da Cosan”, disse, lembrando que é cedo para afirmar que a fusão atrairá novos investimentos. “Mas, levando em consideração que tudo que é organizado e com custos adequados atrai os olhos de investidores, esse é mais um motivo para incentivar o que já estamos vendo, que é um novo olhar para setor”. 

O consultor argumenta que somente um investimento significativo e contínuo poderá tirar o País dessa situação de atraso na questão logística. “Quando comparamos o Brasil aos países em desenvolvimento (BRIC), vemos que estamos bem abaixo nos índices técnicos de logística, com menos estradas pavimentadas, menos abastecimento de cargas (polo modal), assim como baixa eficiência na malha ferroviária, hidrovias e aeroportos”, diz, completando “É necessário um plano de investimento numa infraestrutura que contemple todas essas possibilidades de transporte, mas como somos dependentes do transporte rodoviário, no curto prazo o investimento maior deve ser canalizado para essa linha, reduzindo os custos do transporte brasileiro, que aumentam em muito o custo Brasil”. 

De acordo com o balanço sobre movimentação de cargas pela ferrovia de 2013 apresentado pela ANTF (Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários), no segundo trimestre de 2014, o agronegócio representou somente 14,86% das 490 milhões de toneladas transportadas por trens. Já a expectativa de crescimento de carga movimentadas pelas ferrovias é de 12,5% entre 2014 a 2016, quando atingirá 550 milhões de toneladas úteis. Para isso, os investimentos devem continuar na ordem dos R$ 5 bilhões. A nova empresa formada a partir da fusão Rumo ALL poderá contribuir para conquistar essa meta. 

Por trás dos trilhos A Rumo foi comandada por Júlio Fontana Neto de 2009 a 2014, quando entregou o cargo para Daniel Rockenbach. Com a criação da Cosan Logística, em 2014, Fontana passou a ser o diretor presidente da empresa (braço logístico do Grupo Cosan). 
O executivo foi presidente da ferrovia MRS Logística, por quase uma década, sendo sua gestão marcada pelo incremento do volume transportado e pela evolução dos resultados financeiros. 

Naquele período, Fontana planejava ampliar o desempenho da ferrovia, diversificando as cargas transportadas, o que seria possível com a aquisição da Brasil Ferrovias, uma holding que congregava a operação da Novoeste (MS), Ferronorte (MT) e Ferroban (SP), mas a ferrovia foi adquirida pela ALL, em 2006. Outro plano do executivo era assumir o projeto da Cosan para o transporte de 9 milhões de toneladas de açúcar para o Porto de Santos. Mas não teve o aval dos acionistas da MRS e os negócios acabaram ficando também com a ALL. Com a aprovação do Cade para a criação da nova empresa, Fontana enfim terá sob sua administração os dois projetos desenhados no passado. 

Bom para o mercado 
“O aumento de capacidade, eficiência e redução de custos de logísticas tende a beneficiar a todos”, afirma Alexandre Figliolino, diretor comercial de açúcar e etanol do Itaú BBA sobre a nova sociedade entre Rumo e ALL. 

Qual é a sua visão sobre a fusão entre a ALL e a Rumo Logística? Este novo modelo de ferrovia poderá contribuir com o setor sucroenergético? 
AF: Como brasileiro vi a concretização da transação de fusão da ALL x Rumo Logística com muita alegria, na medida que as operações da ALL são assumidas por um grupo com enorme know how no setor logístico e com uma capacidade fantástica de levantamento dos fundos necessários a cumprir um ambicioso programa de investimentos”. Isto com certeza vai favorecer a todos, na medida que a capacidade de transporte nos principais eixos sob concessão da ALL vai ser multiplicado. Além disto, a integração porto x ferrovia coloca um potencial de aumento de eficiência com consequente redução de custos nestes importantes corredores exportadores. 

Alguns setores - como o de grãos - têm dúvidas se a nova ferrovia dará prioridade ao açúcar em detrimento de outros carregamentos e questionaram a fusão. Mesmo assim, as ações da ALL dispararam no Ibovespa no dia da aprovação do Cade. Na sua opinião, este foi um bom negócio para as empresas? Para o mercado? 
AF: O potencial para um ganha é enorme na medida que o aumento de capacidade, eficiência e redução de custos tendem a beneficiar a todos. Alguns conflitos já foram de alguma forma endereçados na aprovação do Cade, mas, com certeza, um diálogo maduro e construtivo entre a concessionária e clientes deve endereçar outras questões que ainda são motivo de receio pelas partes. O setor de grãos é o cliente dos sonhos, quando, por exemplo, falamos na Malha Norte. O transporte da soja e milho entre Rondonópolis e Santos com elevado volume, e grande distância, faz dele a carga dos sonhos de qualquer ferrovia. O desenvolvimento de modais hidro-rodo-ferroviários pela saída norte evidentemente irá equilibrar melhor a distorção hoje existente aonde cargas agrícolas no Brasil viajam por longas distâncias em modais ineficientes e elevados custos logísticos 

Pode-se dizer que o novo negócio atrairá novos investimentos para o setor sucroenergético? 
AF: Os investimentos no setor sucroenergético estão praticamente trancados por outras questões que hoje são bem mais relevantes que a questão logística. Mas com certeza no futuro, em outro momento, custos logísticos reduzidos por sistemas modais mais eficientes irão aumentar a competitividade do setor como um todo, em particular ferrovia, dutos e hidrovias na longa distância, seja para etanol, seja para açúcar. 

Qual a sua avaliação sobre a cadeia canavieira em 2014 e quais são as perspectivas para 2015? 
AF: 2014 foi para o setor sucroenergético mais um ano muito difícil e desafiador. Com isto, assistimos ao agravamento substancial de parte relevante do setor que ainda está com o peso elevado de custos financeiros, enfrentando problemas climáticos que reduziram os Yields agrícola, e não contam com a venda de energia a preços elevados, hoje o único produto realmente rentável para o setor na medida que o açúcar e etanol oferecem zero de retorno econômico. 
Para 2015, algumas coisas provocam um certo alento, pois o retorno da CIDE (Contribuições de Intervenção no Domínio Econômico) e a desvalorização do real são extremamente benéficos tanto para açúcar como para etanol. Porém agora uma ponta de decepção já aparece com a demora da entrada em vigor do aumento da mistura do ocorrido da gasolina. Esperamos que 2015 seja o ano da definição de políticas públicas claras para o etanol e para a bioeletricidade que aliado a um futuro melhor nos preços internacionais do açúcar possa colocar as coisas novamente nos trilhos. 
Mas com certeza teremos um ano ainda muito difícil, de margens ainda muito apertadas, o que deve aumentar o número de empresas em sérias dificuldades e que podem chegar até a interromper suas atividades operacionais.

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