domingo, 13 de junho de 2010

Nós, grandes e pequenos

Bellini Tavares de Lima Neto (*)

“O rosto de Dona Benta sombreou. Sempre que punha o pensamento na guerra ficava tão triste que Narizinho corria a sentar-se em seu colo para animá-la. “Não fique assim, vovó. A coisa foi em Londres, muito longe daqui. – “Não há tal, minha filha. A humanidade forma um corpo só. Cada país é um membro desse corpo, como cada dedo, cada unha, cada mão, cada braço ou perna faz parte do nosso corpo. Uma bomba que cai numa casa de Londres e mata uma vovó de lá, como eu, e fere uma netinha como você ou deixa aleijado um Pedrinho de lá, me dói tanto como se caísse aqui.”
Monteiro Lobato publicou “A chave do tamanho” em 1942, quando a Segunda Guerra Mundial se encontrava ainda no auge e as bombas se sucediam arrasando cidades e suas populações. Tocado, talvez, pelos ecos da tragédia que envolvia o mundo, Lobato, com sua consagrada genialidade e sua ilimitada originalidade, escreveu esse livro que conta como sua extraordinária Emilia vai em busca de desligar a chave da guerra que alguém inadvertidamente deve ter ligado e causado toda aquela tristeza. É que, na cabecinha da boneca, verdadeiro alter-ego da humanidade, tudo o que se passava no mundo era comandado por chaves, dessas de quadro de energia elétrica, que ficavam num lugar chamado “A Casa das Chaves”. Assim, se desligasse aquela que causava a guerra, terminaria com o conflito e devolveria a paz ao planeta.

O ser humano é fascinante e por conta disso exerce esse fascínio sobre o próprio ser humano. E não é sem razão. Não são poucas nem pouco expressivas as obras humanas que parecem nos aumentar por dentro, nos dão a impressão de que nossas células cresceram de tanto orgulho de pertencer a essa casta. Mas, E, no entanto, esse mesmo homem é capaz de ir dos céus aos infernos com uma velocidade espantosa, com uma flexibilidade incalculável. A mesma criatura que transforma os mais nobres sentimentos em um caleidoscópio de sons com efeitos mágicos ou harmoniza as cores do arco-íris a ponto de arrancar lágrimas, essa mesma criatura é perfeitamente capaz de protagonizar verdadeiros espetáculos de miséria que, na mesma intensidade das obras divinas, remete ao mais sombrio dos reinos. As guerras são um bom exemplo disso. E Monteiro Lobato conseguiu capturar com prodigiosa precisão esse sentimento de abatimento que recai sobre o homem quando ele próprio se entrega à barbárie. Magistralmente, Lobato mostra de que forma os horrores não tem pátria nem distancia. Afetam a todos os que têm um mínimo de sensibilidade e consciência porque esses horrores são, invariavelmente, momentos em que a humanidade se afunda em sua própria miséria.

Essa foi ou ao menos deveria ter sido a percepção da sociedade diante do episodio que ocupou uma semana inteira da atenção de um sem número de pessoas: o julgamento do casal Nardoni. Suspeitos de terem matado uma criança, filha de um dos dois componentes do casal, permaneceram presos desde a data do crime até o julgamento. E, como era mais do que esperado, foram pesadamente condenados. A exemplo do que se viu acontecer quando da época do crime, também agora a comoção social se fez presente e, em termos práticos, foi quem regeu os acontecimentos da semana inteira em que se desenrolou o julgamento. Viu-se de tudo: uma imensa platéia em frente ao tribunal do júri, promotor público sendo verdadeiramente ovacionado pela massa humana que, por outro lado, não se cansou de hostilizar os advogados de defesa dos réus. Faixas e cartazes com fotos da pobre vítima e palavras de ordem contra os acusados povoaram os arredores. E todo o clima foi precisamente capturado e divulgado pela imprensa que, embora cumprindo seu papel, acabou dando uma considerável contribuição de estímulo ao cenário.
 Ao final, o que todos já esperavam: uma pesada condenação aos dois réus. Uma verdadeira explosão popular, fogos de artifício, uma comemoração digna de um evento esportivo apaixonante.

A comoção da sociedade é compreensível. Afinal, tratava-se de uma criança que, de alguma maneia, foi brutalmente assassinada, tenha ou não havido intenção.
Se não foi algo intencional, ao menos faltou a mais embrionária de todas as sensibilidades para que não se desencadeasse sobre a criança a fúria que acabou encerrando sua vida. Mas, apesar de compreensível, essa comoção social parece não atentar para aquele que talvez seja o mais contundente de todos os aspectos: a manifestação mais eloqüente e incisiva da miséria humana. Afinal, de que outra ótica se pode enxergar o espancamento, brutalização e morte de uma criança? E, de outro lado, será que não é tão igualmente miserável ser condenado a passar quase a vida inteira confinado em uma cela de prisão convivendo com o nada e com o provável remorso pela barbaridade cometida?
Que legado receberão os outros filhos do casal infeliz? E que dizer dos pais desses dois, que foram irreversivelmente marcados por toda essa tragédia.
O mínimo que se pode dizer é que a fatalidade se abateu sobre todo esse grupo de pessoas direta ou indiretamente envolvidas no escabroso episódio. E, de quebra, sobre todos nós, membros do clã humano.

Não há como não pensar naquilo que disse D. Benta. Ainda que não tenha acontecido dentro dos limites da nossa própria casa, é como se assim fosse pois a humanidade é um corpo só, formado por infinitos segmentos. A dor de cada um deles é a dor do corpo inteiro. Ou, talvez, devesse ser assim. E, exatamente por conta disso é que, ao final do julgamento, ainda que a justiça tenha sido feita, a única eloqüência que deveria ter tido lugar era a do silêncio. Um silêncio profundo, reverencial, pelo momento de miséria humana que se fez presente e que envolveu a toda a humanidade.
Os fogos deveriam ter sido guardados para as comemorações esportivas.
E os sorrisos soberbos de vitória para os momentos de festa.
O que não foi o caso pois nesse embate não houve vencedores.

Todos saímos perdendo.

(*) Advogado, agora avô e morador em São Bernardo do Campo em São Paulo.
Escreve para o site O Dia Nosso De Cada Dia - http://blcon.wordpress.com/

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