Bellini Tavares de Lima Neto (*)
Meu velho pai tinha lá seus comentários filosóficos. Por exemplo, diante do falecimento de personagens que em vida pudessem ter ensejado controvérsias em matéria de comportamento ético, a observação entre respeitosa e judiciosa era um indefectível “que Deus o tenha... no lugar que mereça”. Cruel? Herético? Desrespeitoso? Não sei, não. Sempre que alguém morre o comentário geral é o de que apesar de ser a única certeza que se tem nesta vida, o homem ainda não conseguiu absorver a morte. Há pelo menos duas verdades em relação à morte. Uma delas é que não há quem não tenha medo dela. A outra, talvez até por conta da primeira, é que ninguém acredita mesmo que vá morrer um dia. E, talvez por conta dessa aura de mistério que a envolve, também nos acostumamos a atribuir a ela alguns efeitos e predicados no mínimo duvidosos. Um deles é que a morte tenha o condão de transformar vilões em heróis ou, no mínimo, dissipar a vilania como se ela nunca tivesse existido. Antigamente era muito comum se ver daqueles retratinhos “post-morten” contendo a fotinho do desencarnado, data de nascimento e de partida e um pequeno laudatório sobre suas qualidades como pai e esposo. Ainda que o infeliz tivesse sido um verdadeiro tranca-ruas, espancador impenitente de esposa e filhos, pé-de-cana” contumaz, um pulha de estirpe, diploma e carteirinha.
Efeito semelhante costuma ter a velhice. Com a chegada dos anos a sociedade costuma passar uma esponja nos desvios dos deformados de caráter e torná-los limpos, bons velhinhos com cara de avô, inocentes e inofensivos. Interessante. Não faz muito tempo, andando em busca de resolver um assunto, acabei indo parar na mansão de um determinado sujeito. Ele alugava essa mansão para eventos, tanto profissionais como familiares. Mas o palacete também era uma de umas casas de moradia. E, de fato, o solar tinha todos aqueles resquícios dos que abrigavam famílias e das grandes. Por se tratar de sujeito já entrado em anos, o dono seguramente tinha netos que, aliás, haviam deixado marcas características daquela relação afetuosa tão doce como só os laços avós-netos podem ser. “Vô Fulano, nós te amamos”. “Para o melhor avô do mundo” e tudo mais que os netos costumam dizer e sentir pelos simpáticos e inofensivos avós queridos, capazes de ternura e amor dobrados. Só tinha que o vovô assim tão querido também era um expoente do mundo do crime, uma versão verde-amarela do velho Dom Corleone, o imortal chefão que morre fazendo gracinhas para o neto no fundo do quintal. Prosaicamente. Por estes trópicos se costuma dar ao envelhecimento esse dom inestimável de sanear tudo, o grande desinfetante da moral e da ética, deixando tudo brilhando à medida que o vigor vai abandonando o sujeito e sua aparência se torna mais frágil e quebradiça.
Será que basta chegar à velhice, abandonar antigos comportamentos desprezíveis e simplesmente passar a ostentar um andarzinho trôpego para que tudo esteja quitado, sem saldo devedor nenhum? Se fosse possível fazer um teste de eficiência, seria interessante tomar o velhote pela mão e submete-lo a algum tratamento mágico que o fizesse voltar ao vigor dos tempos em que azucrinava vida alheia sem o menor constrangimento. Como se comportaria o nosso pacato ancião? Teria a mesma postura condescendente que passou a ter depois dos reumatismos ou voltaria àquela velha ferocidade de então, quando tudo funcionava a contento, sobretudo o mau-caratismo? Nunca se vai saber pois ainda não se descobriu a fórmula. Mas o que não falta são sujeitos que, durante a vida inteira, jamais se preocuparam com o sentimento alheio. Nunca pararam um só instante para pensar no que poderiam causar ao outro os coices e patadas que adoravam distribuir sem critério, comedimento ou contemplação. E, um belo dia, a velhice chega. Mansa e implacável.
Quase sempre ela vem tomar o lugar do poder, da arrogância, do desprezo pelo semelhante, brinquedinhos com que se divertiram a vida inteira. Chega o tempo da bengala, do caminhar mais lento, do lumbago e da pressão alta. Aí o alquebrado sujeito não pode mais ser submetido a esforços e emoções intensas, tem hora para comer e dormir, dietas e remédios nas horas certas. Precisa de carinho, de aconchego, de calor humano. Nessa hora vem a sociedade e a tudo releva em nome da senectude, da senilidade. Mais do que isso, aí daquele que não relevar também. É lançado ao rol dos politicamente incorretos, de preferência com bastante publicidade que é para todo mundo ficar sabendo que monstro se tem diante dos olhos.
Sei, não. Havia um antigo radialista que costuma dizer que não se deveria respeitar ninguém pelos cabelos brancos porque os canalhas também envelhecem. E envelhecem, mesmo. Velhice não é doença. Doença brava mesmo é viver a vida inteira pelo caminho do desrespeito e, lá mais perto da reta final, abrandar, adoçar a voz e achar que a conta está paga. Por essas e outras é que eu não gosto de vaga de estacionamento reservada para idosos. Idade não é privilégio, é circunstância. E por todas essas e todas as outras, também, é que acho que o meu velho tinha razão. No lugar que merece.
(*) Advogado, agora avô e morador em São Bernardo do Campo em São Paulo. Escreve para o site O Dia Nosso De Cada Dia - http://blcon.wordpress.com/
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