quarta-feira, 9 de junho de 2010

O fascinio dos iniciados

Bellini Tavares de Lima Neto (*)

No vetusto Cursinho Castellões, preparatório para o vestibular para ingresso na faculdade de direito, havia um professor de português que ensinava gramática e literatura. Nunca vou me esquecer de sua explicação sobre as diferentes escolas literárias: classicismo, romantismo, naturalismo e outras. Era particularmente interessante a forma pela qual ele ia explicando que cada uma dessas correntes literárias era, na verdade, o reflexo da sociedade de cada época. O romantismo, cheio de nacionalismo, surgiu quando se formaram os grandes estados nacionais na Europa (França, Alemanha, Inglaterra, etc). Os artistas da palavra foram buscar as origens de seus paises para cantá-las em prosa e verso. Uma dessas correntes literárias refletiu a descrença da sociedade na ciência, da qual se esperava que resolvesse todos os conflitos existenciais humanos. Como isso não aconteceu, a sociedade se voltou para o misticismo, o espiritualismo, em busca de respostas. Não é muito diferente dos nossos tempos atuais e o fenômeno dos livros de auto-ajuda. É fascinante como o homem sempre anda em busca de respostas e, via de regra, vai procurá-las no lado místico, fantasioso, imperscrutável. É aí que vive o encantamento.


O homem adora contrariar os limites da realidade e desenvolver teses mirabolantes, crenças misteriosas, versões paralelas. Apesar de todo o material fotográfico, rolos de filmes, registros escritos e testemunhas que já se coletou para julgar os responsáveis pelo massacre dos judeus durante a segunda guerra mundial, há quem afirme que o chamado holocausto nunca existiu e não passou de propaganda dos países que venceram a guerra. É uma tese ousada, beirando a maluquice, mas isso não impede que alguns a defendam. Da mesma forma que há quem ainda afirme que o grande astro Elvis Presley não morreu. Está escondido em algum lugar secreto ao qual só os apaixonados seguidores têm acesso. Porquê, nem imagino. E o mesmo se disse a respeito de John Kennedy de quem afirmavam estar recolhido a uma espécie de sanatório, completamente paralisado por conta do tiro levado em 1963. Ainda recentemente descobri que há uma corrente que afirma que o homem jamais chegou à lua como se viu em 1969. E parece que os defensores dessa tese já desenvolveram evidencias nesse sentido. Quantas e quantas seitas secretas existem na imaginação incontrolável do homem e que detém mistérios, chaves, segredos sobre a vida e a morte, a Terra e outros mundos insondáveis? Durante um tempo se vendeu como água os livros de um monge tibetano que atendia pelo nome de Lobsang Rampa. Era um iluminado que de tudo sabia. Descobriu-se, depois, que era espertalhão inglês que jamais estivera no Tibet e nunca nem chegou perto de um mosteiro. Mas, quanta história mística ele contou pelo mundo afora.


Depois do final da segunda guerra mundial em 1945, o mundo definitivamente se dividiu em dois blocos: os norte-americanos trataram de fincar suas garras no lado ocidental enquanto os russos se reservaram outra imensa porção do planeta que foi submetida ao regime comunista que imperava naquele país. A Rússia já vinha desenvolvendo essa experiência socialista e comunista desde 1917 e com o sucesso da guerra, tudo parecia indicar que estava no caminho certo. O socialismo e seu charme heróico despertaram um fascínio quase incontrolável, sobretudo entre os jovens, sempre ávidos de grandes mudanças. O bloco comunista cresceu, tentou se ramificar em outros continentes, como foi o caso da América Latina e continuou a seduzir boa parte do mundo. Segundo alguns dados, o regime chegou a ser adotado por quase cinqüenta países ao longo do planeta. Aqui no Brasil, lá pelos idos dos anos 60 e 70, houve quem acreditasse na possibilidade de que a terrinha viesse a se tornar uma das grandes nações de esquerda do mundo.
Não foi, no entanto, o que mostrou a história. Dos quase cinqüenta países que já vestiram a camisa socialista, restaram uns cinco ou seis. E nenhum deles se pode orgulhar de ser referencia de coisa alguma. Na verdade, não se tem conhecimento de que esse regime tenha sido bem sucedido ou tenha realizado ao menos parte do que se propunha em nenhum dos lugares onde permaneceu. Foi uma experiência política testada e que redundou em fracasso, diferente, talvez, do anarquismo que nunca se estabeleceu seriamente em lugar algum e, portanto, não se pode afirmar que não daria certo. E, no entanto, apesar das evidências, o que se vê, ainda que em países de pouca ou nenhuma expressão mundial, é a tentativa de renascimento desse fracassado enredo. É muito difícil, em sã consciência, se levar a sério qualquer desses discursos ultrapassados e seus histriônicos oradores. Seria o mesmo que se ouvir com alguma seriedade que o grande Elvis de fato não morreu ou que John Kennedy morreu aos quase 100 anos de idade cercado pelos bisnetos em local incerto e não sabido.

E aí é que reside a grande dificuldade ou, quem sabe, a grande preocupação: o governo do nosso querido planeta-Brasil insiste em contrariar as evidências e se alinhar com os mais estranhos representantes desse parque dos dinossauros. O mais alto mandatário do país, em lugar de sacudir as costas e se livrar desses micos que se agarram como carrapatos, ainda lhes dá alimento e sobrevida. Será que ele não se dá conta? Ou, muito ao contrário, descobriu que desse jeito se mantém em alta, se destaca por andar na contramão da história? Será que ele realmente acredita que uma mentira muitas vezes repetidas, torna-se verdade? Ou acha que afirmar que o Pelé não foi o maior jogador da história confere ao locutor certa originalidade?

(*) Advogado, agora avô e morador em São Bernardo do Campo em São Paulo.
 Escreve para o site O Dia Nosso De Cada Dia - http://blcon.wordpress.com/

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