sábado, 12 de junho de 2010

Dunga, o nosso ditador

Dunga imita Coréia do Norte e fecha ainda mais a Seleção
Wanderley Nogueira (*)

Para qualquer ditador, o regime político da Coreia do Norte é um sonho dourado.
A mídia, por exemplo, é uma das mais controladas do mundo. Lá, nada é dito, visto ou publicado sem que os órgãos de segurança autorizem. Não há jornais privados; rádios e emissoras de TV estão sob controle estatal.
Só são permitidas noticias que enalteçam o regime. Quase todas as informações que chegam à população norte-coreana são distribuídas pela Agência Central de Notícias da Coreia do Norte. Uma discussão, por exemplo, entre dois ministros jamais alguém ficará sabendo.

A seleção norte-coreana está se preparando para Mundial nos últimos seis meses. É o grupo que teve mais tempo para trabalhar. E sempre em silêncio. Entrevistas? Nem pensar. Nem em dia de folga, que ninguém sabe se existe.
Se um jogador conceder uma improvável rápida entrevista, na pausa entre uma e outra meditação, será duramente punido. Talvez tenha de pedir perdão diante de todos os outros disciplinados companheiros. O selecionado tem sido extremamente competente para despistar a imprensa inimiga. Fez muitos jogos amistosos e poucos souberam. Informava que jogaria num país e entrava em campo em outro.

Jornalista para a seleção norte-coreana é sinônimo de espião. E todos torcem contra.
A seleção da Coreia do Norte inverte horários de treinamentos, impede a entrada de torcedores e, claro, mantém a imprensa distante e sem informação. E por ordem do ditador é preciso retaliar.
Alguns jornalistas deram notícias negativas ao regime e um raro treino que seria aberto foi cancelado. É uma punição aos inimigos da imprensa. O ditador deve estar pensando. “Assim eles vão aprender a só dar notícias agradáveis”.
Se dois jogadores discutirem, ninguém saberá. O episódio será transformado em segredo imediato e só o ditador Kim Jong-il (filho do ditador eterno Kim Il-Sung) será informado. Ele sabe de tudo, decide tudo, dá a palavra final.

E esse controle total tem dado certo. Depois de 44 nos, a tão enclausurada Coreia do Norte volta a disputar a Copa. E segundo um dos jornais de Pyongyang “o nosso presidente disse que temos condições de voltar com o título. E acreditamos nele”.
Se a seleção tiver sucesso na competição, esse estilo de organização vai prosseguir para a Copa de 2014. Mas, se ocorrer algum tropeço, a seleção da Coreia do Norte deverá inspirar-se nos ensinamentos da Eritreia que, segundo a “ONG Repórteres sem Fronteiras”, está classificada como o pior ambiente para a mídia no mundo.

A Coreia do Norte enfrenta o Brasil. Aliás, após atrito entre jogadores divulgados pela imprensa brasileira, Dunga resolveu cancelar treino aberto e fechou para a imprensa.

(*) Jornalista esportivo e atua ha mais de 30 anos na Rádio Joven Pan de São Paulo

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