sexta-feira, 4 de junho de 2010

25 anos no mesmo emprego

Vinte e cinco anos no mesmo lugar faz de mim uma imbecil?
Lucy Kellaway (*)

Certa manhã de primavera, que esta semana completou 25 anos, apresentei-me para o trabalho no "Financial Times" usando um tailler de veludo cotelê cor de laranja e muito nervosa. Hoje, assim como na maioria das manhãs do último quarto de século, vou me apresentar novamente para o trabalho, embora atualmente eu não use mais saia de veludo cotelê cor de laranja e não me sinta mais tão nervosa.
Assim como em outras manhãs, vou ocupar minha mesa, de onde faço meus relatos sobre o mundo moderno do trabalho, onde nenhum emprego é para a vida toda, todas as habilidades são mutáveis e a lealdade diz respeito a um cartão de plástico que você apresenta nos caixas dos supermercados. Em outras palavras, é um mundo no qual eu me tornei um anacronismo.

Na semana passada, saí para almoçar com um colega e disse que estava para completar 25 anos no jornal. "Vinte e cinco anos", repetiu ele, contorcendo o rosto de pavor. "Eu manteria isso em segredo se fosse você." Depois do almoço fiquei imaginando se ele não estaria certo. Seria o fato de eu ter ficado tanto tempo em um único emprego um motivo para manter silêncio, ou alardear a plenos pulmões de cima do telhado?
Em quase todas as outras relações a resposta é óbvia: a estabilidade e a longevidade são coisas para se comemorar. Continuo ligada aos mesmos amigos da escola primária - o que me deixa satisfeita - e ao mesmo marido com o qual me casei há 20 anos - o que me deixa ainda mais satisfeita.

Mas, 25 anos no mesmo emprego é algo bem diferente. Não há filhos envolvidos, não há por si só mérito na ligação; sentir qualquer tipo de lealdade para com uma empresa que pode demitir você a qualquer momento é tolice. Ficar parado demonstra uma aversão ao risco e uma falta de imaginação ou de oportunidades. Numa época em que deveríamos valorizar a flexibilidade e a mudança acima de todas as coisas, carreiras como a minha são uma desgraça.
Mas, aí eu comecei a pensar em meus contemporâneos e fiquei mais animada. Dos dez amigos mais próximos, quatro têm o mesmo tipo de carreira que eu: foram promíscuos durante um certo tempo após a universidade, mas acabaram entrando em uma relação estável com um único empregador. Um deles está na mesma empresa há 27 anos, e os outros há 22, 21 e 20 anos, respectivamente. Pelo menos nos círculos que frequento, não pareço ser uma figura tão esquisita.

Na semana passada reuni rapidamente um grupo para discutir os prós e os contras de ser um profissional antiquado. Chegamos à conclusão de que nos falta imaginação e, no geral, somos avessos ao risco. Mas também concordamos que nenhum de nós planejou ficar no mesmo emprego por tanto tempo. Simplesmente aconteceu, principalmente porque gostamos do que fazemos e nunca nos deparamos com algo mais tentador.
Então, uma de minhas amigas disse que se sentia leal aos valores de sua companhia. Eu me contorci, uma vez que odeio falar de valores da empresa. Eu não colocaria a coisa da mesma maneira, mas percebi que ela estava certa. Estou até hoje no mesmo emprego porque me encaixo. Em meio a resmungos, todos nós confessamos sentimentos de lealdade, por mais fora de moda que isso possa parecer. Sentimos que devemos ser leais com as pessoas com as quais trabalhamos, mas também temos afeto pela companhia de uma forma abstrata. Se alguém diz que trabalho para o "The Times", eu rapidamente corrijo: "Financial Times".

Também concordamos que os anos não se passaram em meio a uma bruma de monotonia. Todos nós fizemos trabalhos diferentes dentro de nossas empresas, mas o mais importante é que nossos setores mudaram muito nas duas últimas décadas. No "FT", meu primeiro artigo mais longo foi sobre uma fabricante britânica de equipamentos agrícolas. Essa companhia não existe mais. A máquina de escrever em que redigi o artigo também não existe mais. E a maior parte das pessoas com quem eu trabalhava na época, embora ainda existam, não estão mais no jornal. Essa mistura de variedade e estabilidade tem sido agradável na maior parte das vezes. E se esses argumentos sobre os prazeres do trabalho em um só lugar não forem convincentes, há mais um. Recebi uma carta de congratulações pelo meu jubileu de prata, que foi muito gentil, e mil libras de presente, o que foi mais gentil ainda.
O problema agora é onde gastar esse dinheiro. Eu gostaria de fazer algo simbólico com ele, e considerei a hipótese de comprar um laptop novo. Mas será que eu quero levar ainda mais trabalho para casa? Que tal uma aplicação de botox para disfarçar as rugas que ganhei nesse tempo todo? Mas aí, percebi que me orgulho do tempo que passou e não parece certo começar a travar uma guerra contra ele. Talvez eu gaste o dinheiro comprando um tailler de veludo cotelê cor de laranja que, depois de 25 anos fora de moda, certamente voltará a ser moda de novo.

(*) Colunista do "Financial Times". Sua coluna é publicada às segundas-feiras na editoria de Carreira.

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