sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Vamos sossegar um pouco?


Bellini Tavares de Lima Neto (*)
Não conheci pessoalmente o velho Miguel Martin. Só de nome, comentário, citação ou referência. Feitos, sempre, por seu filho e meu amigo com quem estive há pouco. É um amigo desses com “L” maiúsculo. Sim, “L” de leal, como também com “D” de decente ou “I” de íntegro. E, sobretudo, com “Q” de querido. E fomos nos encontrar para, ainda que em clima informal, como sempre, solenizar a decisão do velho Miguel de se mudar de palco, de cena, de público. Uma das referências a ele é que sempre foi um teimoso de primeira, aferrado as suas convicções. Nunca houve quem o demovesse dos pontos de vista. Também, pudera: espanhol e comunista às antigas. Um pouco fora de moda, talvez, tinha aquelas manias de gente velha de achar que todos têm direito às mesmas coisas, oportunidades, chances e tal. Pior que isso ainda, insistia com essa história de que o homem deve ter caráter, ser íntegro, honesto. Mas, há que se compreender que já andava entrado em anos o Miguel e talvez isso tenha afetado ainda mais seu senso de pragmatismo, como se diz hoje em dia.

Essa gente que insiste com esse tipo de comportamento e, o que é ainda mais complicado, de forma consistente, sem abrir brecha para uma concessão ou permissividade, acaba criando um problema danado para os herdeiros. É que, pelo resto da vida, se assume a difícil tarefa de honrar dono da herança. E é praticamente impossível recusar o legado. Já não é a mesma coisa se o titular do patrimônio transmitido aos herdeiros não andou comprometido com esses valores todos. Aliás, fica ainda mais fácil quando o sujeito fez exatamente o contrário, andou pelos atalhos. Ai, os herdeiros não têm com que se preocupar, não ficam com o encargo de honrar coisa alguma. Pelo que fiquei sabendo, não foi o caso do Miguel. Esse, ao que consta, deixou coisa de monte. O meu amigo, um dos que vai ter que enfrentar essas cargas todas, contava, nesse nosso encontro, de um dia em que o espanhol Miguel o chamou e mostrou uma foto publicada em jornal. Ali estavam, sorridentes como só eles sabem fazer, personagens como José Sarney, Fernando Collor, Renan Calheiros e Luiz Inácio. E o comentário do contumaz Miguel: “Filho, essa foto está toda errada. Esses tipos não combinam”.

É claro que tudo depende do prisma por que se olha. Se se voltar ao começo dos anos noventa, quem pode tirar a razão do Miguel? Afinal, o então presidente em exercício e o aspirante ao cargo trocavam acusações e chegaram a montar, cada um por si, “dossiês” com elementos de corrupção praticados pelo outro, um no governo federal e o outro à frente do Estado de Alagoas. Deveriam, portanto, ser diferentes naqueles tempos. É claro que a foto estava errada. Mas as divergências também sempre foram atrozes entre o que conquistou a presidência mas foi rapidamente apeado dela e o que a perseguiu por anos até consegui-la e, ao que tem mostrado, se encantar a ponto de não querer sair mais. A divergência entre eles era ainda mais feroz. O candidato perene dizia cobras, lagartos e tudo mais que a biologia ou a zoologia tiverem a disposição a respeito do que lá estava, já cambaleando. E como o candidato quebrou lanças para derrubar o que lá estava. É claro que, também nesse particular, a foto está errada.

Esse mesmo candidato vitalício e agora pretendente a poderoso vitalício também não economizou referencias nada amistosas a respeito do que já esteve no seu lugar, ainda que apenas por conta do fato biológico que impediu o eleito de assumir o cargo. E o que o “político mais popular da Terra” disse daquele titular acidental seria, em outros tempos, para se trocar tiros e terminar em morte. Aí, então, é que a foto fica ainda mais errada. E ainda fica faltando o último dos quatro elementos, o quarto mosqueteiro se é que se pode chamar assim porque, deles, foi o único a nunca ter tido o prazer de se assentar no trono máximo. Mas, nunca deixou de voejar em torno dele. Sempre esteve próximo o suficiente para nutrir e aquecer as asas. E pela ficha corrida que conseguiu construir ao longo da carreira, seria, em tese, frontalmente incompatível com o que pouso no trono presidencial com sonhos secretos de se perpetuar. A foto continua carente de sentido e coerência.

Pois é, meu caro Miguel. Não se pode dizer que você errou quando disse que a foto tinha algum problema. É que você não viu, assim como muitos de nós, que errado estava o que se pensava dos protagonistas. Redonda ou quadradamente enganados estavam os que, assim como você, baseados no que viviam dizendo até então os quatro cavaleiros do nosso apocalipse tupiniquim, acreditavam que realmente eles eram diferentes e não poderiam posar para a mesma foto. Olhando agora, por exemplo, que enquanto um grupo é apanhado ocultando maços de dinheiro nos bolsos e meias, um outro grupo que inaugurou essa mesma prática há uns poucos anos, acolhe de volta os militantes que a protagonizaram e até festeja o retorno deles ao partido, há como dizer que a foto estava errada? Constatando que o mesmo partido político que inventou a prática em dimensão nacional, se sente moralmente autorizado a postular sanções aos que adotaram a prática no âmbito estadual, há como encontrar argumentos para dizer que aquela foto não tinha sentido?

Eu não conheci pessoalmente o velho Miguel e já contabilizo essa perda de oportunidade como prejuízo irrecuperável no livro-caixa da minha vida. Quer dizer, não totalmente irrecuperável porque, embora de forma indireta, eu também acabei ouvindo que, um dia, olhando a foto, ele disse ao filho que aquilo estava errado. Pois é, Miguel. 

Se não era a foto que estava errada é porque os fotografados induziram em erro a um sem número de incautos que acreditaram em discursos falsos. Seja com for, o único que não estava errado e jamais estará é você, meu caro Miguel, a quem eu não conheci pessoalmente, mas que já me sinto um pouco responsável por andar na linha em respeito ao formidável legado que você generosamente deixou. As coisas, por aqui, ainda vão demorar a mudar, mas vão mudar um dia. E parte disso será resultado dos passos de gente como você. Portanto, agora, vê se sossega um pouco, hein?

(*) Advogado e morador em São Bernardo do Campo em São Paulo. Escreve para o site
O Dia Nosso De Cada Dia - http://blcon.wordpress.com/
Este artigo foi publicado na edição de hoje do Jornal O Estado do Tapajós

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