terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Big Brother politico


Sérgio Malbergier (*)
A classe política brasileira é medonha, indefensável, o que temos de pior.
Esta última encarnação do mensalão, em Brasília, tem uma vantagem em relação às anteriores: é riquíssima em imagens.
O governador Arruda, do DEM, largadão num sofá, recebendo uma bolada e chamando o assessor para enfiá-la num dos infames envelopes pardos da capital.
O trio de supostos corruptos orando pela graça da santa corrupção, a verdadeira operadora de milagres do país.
O nobre deputado, presidente da Câmara local, enfiando maços de notas onde dá e onde não dá.
Um verdadeiro "reality show", de horror, do modo de se fazer política no país.

Muito mais reveladoras que os tradicionais grampos sonoros, são cenas antológicas de nossa imaturidade político-institucional, cada vez mais anacrônica diante da evolução econômica.
Vivemos numa ditadura de partido único, o partido único da corrupção, que reduz nosso potencial como nação.
Todos agem da mesma forma, igualados pelo pecado original da política brasileira, o tal caixa 2 de campanha.
Que já não é mais um meio para atingir um fim, mas um fim que justifica todos os meios.

Pego em flagrante, o presidente da Câmara de Brasília defendeu-se dizendo que a dinheirama era recurso não contabilizado de campanha.
Bingo!
Defendeu-se de um crime alegando outro crime, a mesma linha de defesa dos mensaleiros lulo-petistas, que de alunos passaram a professores.
Na lógica desses, digamos, políticos, se todos praticam o mesmo crime, não há crime.
Foi pego com dinheiro "não contabilizado" na cueca? É financiamento de campanha, ora bolas!
Eles estão se lixando para nós, que ainda prestamos atenção nessas coisas.

Jader Barbalho não é favorito ao governo do Pará? O próprio Arruda, de escândalos anteriores, não se elegeu no DF? Duda Mendonça não coordena campanhas importantes? Os mensaleiros não comandam o PT? Marcos Valério não começou no PSDB? Maluf não foi dos mais votados em SP? Os Sarney não mandam no Ministério das Minas e Energia? Os deputados não dão recibos de suas próprias empresas para justificar gastos oficiais? A Camargo Corrêa não tem lista de 200 políticos recebendo propina, diz a PF, e segue prestando serviços a todos os governos?
Tudo é revelado, nada é julgado, ninguém vai preso. E até que se julgue, são todos inocentes.
Note que nenhum importante candidato presidencial às eleições de 2010 adota como bandeira o combate à corrupção, embora essa seja a mais óbvia necessidade política do país.

Esse silêncio grita um segredo público: todos os grandes partidos são corruptos e rodam software parecido.
Notou que o governo federal e o PT não apontam o dedo (sujo) contra o DEM e Arruda? Um perfeito pacto silencioso para governar os patos silenciosos.
Precisamos de mais delatores como o ex-secretário que gravou as cenas do mensalão brasiliense e as entregou à polícia, não por civismo, claro, mas para reduzir a própria pena em delação premiada.
A revolução não será televisionada pela TV Senado. Mas pode passar pelo seu computador. 
Faça campanha contra a sujeira. Vote nulo

(*) É editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo.
E-mail: smalberg@uol.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário