quarta-feira, 8 de abril de 2015

MPB 50 anos

Há 50 anos, nascia a MPB; protagonistas lembram festival que cunhou o termo 

UOL 

Há 50 anos, Elis Regina recebia um conselho de Vinicius de Moraes em um bilhete, pouco antes de subir ao palco no 1º Festival Nacional da Musica Popular Brasileira. 
"Arrasta essa gente aí, Pimentinha", pedia o poeta. Ao que consta na história, Elis Regina fez a interpretação da sua vida, girando os braços freneticamente, conforme a canção "Arrastão" crescia para explodir no verso: "Valha-me meu Nosso Senhor do Bonfim / Nunca, jamais, se viu tanto peixe assim". 

Composta por Vinicius e Edu Lobo, "Arrastão" venceu o festival realizado pela TV Excelsior, que lançou a semente da MPB tal como a conhecemos hoje. A partir dali, a música brasileira encontraria na TV seu principal difusor e passaria a ser conhecida pela abreviação MPB –uma decisão prática, já que o nome inteiro do festival não cabia nas manchetes dos jornais. 

Não foi exatamente o primeiro festival do país. Houve tentativas anteriores em fazer uma versão tupiniquim do famoso festival italiano de San Remo, mas o produtor musical Solano Ribeiro, grande idealizador deste e dos seguintes festivais de música, sentia um vento batendo diferente na metade dos anos 1960. Diante da queda de popularidade da Bossa Nova, nascia uma nova música, criativa e arejada, que se reproduzia aos montes nos becos, bares, teatros e universidades. Era a hora e a vez de compositores novos, como Baden Powell, Edu Lobo, Caetano Veloso, Francis Hime e um estudante de arquitetura chamado Chico Buarque de Hollanda. 

"Existia uma confluência de gêneros, era um movimento musical atrás do outro, uma grande onda de criatividade começando a botar a cara", relembra o músico Roberto Menescal. Produtor de célebres discos de Elis Regina, Chico Buarque, Maria Bethânia e Maysa, ele também foi um dos compositores que participaram da seleção com a canção "Por quem Morrer de Amor", escrita em parceria com Ronaldo Bôscoli. Como ele mesmo imaginava, a música morreu na terceira eliminatória. "Eu nunca acreditei que pudesse vencer com uma música romântica enquanto outras tantas vinham com posturas mais fortes e desafiadoras".

Assim foi aberta a inscrição para os compositores, enquanto os intérpretes, com status de astros, seriam escolhidos pela direção. Wilson Simonal, Claudette Soares, Geraldo Vandré, Agnaldo Rayol, Agostinho dos Santos, Altemar Dutra, Cauby Peixoto, Cyro Monteiro, Elizeth Cardoso, Miltinho, Elis Regina e Orlando Silva defenderam 36 das 1,2 mil canções inscritas. 

"Eu já havia realizado eventos menores de sucesso com aquele elenco, o que me dava certeza que a resposta do público seria favorável. O que não imaginava era o tamanho do sucesso", relembra o produtor Solano Ribeiro, ao UOL. Para manter a maresia do balneário de San Remo, ele adaptou o regulamento do evento italiano e escolheu um local análogo para sediar o festival: Guarujá, no litoral paulista. 


A fórmula do festival 
O pesquisador Zuza Homem de Melo em breve transformaria o festival no grande sucesso da TV Record, mas em 1965, ele era um mero espectador. "A grande transformação foi a de ser um programa de televisão com competição de canções e participação do público torcendo abertamente. Na música, viu-se que as canções da Bossa Nova não teriam êxito nos festivais. Surgiu um novo formato denominado canção brasileira tipo festival", conta. 

 Na final, no dia 6 de abril, no Rio de Janeiro, "Arrastão" conquistou o troféu Berimbau de Ouro. Melodia assobiável, o arrebatamento na voz de Elis, a performance teatral com os braços giratórios– que lhe renderia o apelido de Hélice Regina--, e a letra forte de Vinicius e Edu Lobo eram itens essenciais à nova receita. 

Pouco tempo depois, canções como "Domingo no Parque" e "Alegria, Alegria", de Gilberto Gil e Caetano Veloso, respectivamente, subverteriam a fórmula. "O governo não percebeu que as canções poderiam se tornar uma bandeira da classe universitária contra a censura e contra a ditadura militar", observa Zuza. 

Solano observa que a era dos festivais perderia sua força no momento em que o Governo Militar percebeu o poder da música. Para ele, foi ali que a MPB perdeu o "Popular" de sua definição. "O espaço foi ocupado pelo marketing da indústria da música, que impingiu modismos com a única finalidade de vender. Assim vieram o pagode, o axé, a boquinha da garrafa e por fim o sertanejo universitário. Além do que as gravadoras acabaram e deixaram de investir em novos artistas". 

Porres e coisas de artistas 
Wilson Simonal, que defendeu "Cada Vez Mais Rio", de Luiz Carlos Vinhas e Ronaldo Bôscoli, ficou contrariado com o 5° lugar, a ponto de se recusar a subir ao palco. 
"[Ele] justificou seu descontentamento com o resultado dizendo que 'Arrastão' não podia ganhar porque não era musica popular e o concurso era desse tipo de musica. 'Arrastão' para ele é regional (...). Coisas de artista", contava a "Folha de S. Paulo" no dia 8 de abril de 1965. 

Solano relembra que houve uma tentativa do principal patrocinador do festival, o gigante da indústria química Rhodia, de dar a vitória para Simonal. "A mais marcante história de bastidor foi a tentativa do representante do patrocinador de modificar o resultado para beneficiar a música interpretada por Wilson Simonal, que fazia parte naquele ano do Show da Rhodia [evento musical exclusivo da empresa]", conta Solano, que detalhou os bastidores dos festivais no livro "Prepare Seu Coração". 

A segunda colocada foi "Sonho de um Carnaval" de Chico Buarque, defendida por Geraldo Vandré. Segundo conta Zuza Homem de Melo em seu livro "A Era dos Festivais - Uma Parábola", Chico comemorou a classificação com um porre. Foi com algumas doses de uísque que Vinicius brindou o resultado com Elis em seu apartamento. Edu Lobo, com apenas 21 anos, estava em São Paulo e ficou pendurado no telefone para saber o resultado. Dias depois, foi convidado por Aloysio de Oliveira para fazer um show com o Tamba Trio e Nara Leão. 

A audiência do 1º Festival não foi espetacular, mas a partir do dia 6 de abril de 1965, a música brasileira pela TV não seria mais a mesma. Tanto Chico quanto Elis se tornariam astros da TV, com a participação de um novo elemento: o público. "Não fosse a TV, provavelmente a MPB não teria tido a mesma força", conclui Solano.

Em 1967, na terceira edição do festival, já na Record, a Tropicália seria lançada, as mensagens políticas estariam menos cifradas e a MPB seria invadida por guitarras elétricas. Mas isso já é outra história. 


REVEJAM ARRASTÃO COM ELIS REGINA :

https://www.google.com/webhp?sourceid=chrome-instant&ion=1&espv=2&ie=UTF-8#q=arrast%C3%A3o%20elis

2 comentários:

  1. Anônimo8/4/15 14:51

    Sensacional .. emocionante rever ..

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  2. A maior cantora de todos os tempos

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